sexta-feira, julho 25, 2008

A lei seca na economia

Adelson Elias Vasconcellos

No post anterior, publicamos na íntegra, nota oficial do senador Sérgio Guerra, presidente nacional do PSDB, sobre o aumento de 0,75% nos juros internos, ação tomada pelo Banco Central.

Resta pouco a acrescentar, mas é indispensável dizer que a tarefa de controle da inflação não pode ser relegada, exclusivamente, ao Banco Central. Deve haver um esforço concentrado de todo o Poder Público, para que não resta como única e solitária arma de combate à inflação, a política monetária do Banco Central.

Porém, se a gente ler a notícia sobre a redução do desemprego, índice divulgado hoje pelo IBGE, vamos ver que, dentre os maiores geradores de emprego encontra-se o Poder Público. Isto em 2008, já com a crise internacional instalada,já com os preços dos alimentos em vertiginosa alta mundo afora.

Em janeiro já se tinha a exata noção de que as autoridades econômicas deveriam adotar medidas capazes de conter a escalada de preços. E, uma das formas existentes, é a contenção do crédito e redução da demanda. Mantega chegou a sinalizar nesta direção. Nem passadas 48 horas de sua declaração, e o próprio Lula acabou desautorizando seu ministro da Fazenda.

E por que o desencontro? Simplesmente porque este é um ano eleitoral, e sobre já se projeta toda a estratégia do governo com vistas as eleições presidenciais de 2010. Assim, melhor jogar o peso do custo político para o Banco Central, do que interná-lo no seio do Poder.

E foi o que se viu. Todo mundo culpando o Banco Central, o “bandidão:” considerado inimigo número um do baixo crescimento do país. Contudo, é de perguntar: e a política fiscal como vai? Será que ela não poderia dar uma ajuda para conter a elevação dos preços ? Claro que sim, porém, isto em ano de eleição para o governo atual é algo proibido. Nada de expandir os gastos correntes. Nada de frear um pouco que seja o consumo, ou restringir minimamente o crédito. É fácil como faz Lula mandar recados de que “o pobre não sofreará redução no consumo porque sempre sonhou em consumir”, e, de outro lado, dizer que o “governo fará todo o possível para conter a inflação, de que ela não voltará de jeito nenhum”. Porém, se esquece o presidente de que uma ação se justapõe a outra, e que é preciso eleger uma prioridade e a ela dar dedicação máxima. Assim, em tempos de preços em alta, primeiro deve o governo conter sua própria ansiedade e impulsividade para gastar. Segundo, frear consumo e crédito, não impedirá ninguém de consumir, apenas que em um volume menor.

A hora é para adotar medidas preventivas, e não agir de forma irresponsável com o inchaço da máquina paquidérmica do Estado, ou com concessões eleitoreiras como aumentos reais do salário mínimo e para funcionários públicos, porque quem pagará a conta é a sociedade como um todo. E a conta quando se gasta além da conta é inflação, sim, goste Lula ou não.

Ao não adotar as medidas necessárias e recomendadas, o governo acaba restringindo seu poder de decisão para conter a inflação e, com isso, não resta outra alternativa senão elevar os juros internos além do razoável.

Já falamos inúmeras vezes das conseqüências dos altos juros em uma economia estabilizada como a brasileira. Não se venha aqui adotar o discurso cretino de que no passado os juros eram maiores, porque eram situações totalmente distintas, e o país não tinha a disciplina econômica que hoje desfruta. Os juros reais atualmente praticados pelo país acabam corroendo a confiança dos investidores que freiam suas iniciativas em novos projetos. Aí, se juntamos aos juros altos mais a questão não resolvida do câmbio com a hiper-valorização do real, mais a deficitária infra-estrutura e a abusiva carga tributária, e a tudo isso adicionarmos umas pitadas de insegurança jurídica, o resultado final da salada é um quadro de estagnação. E, se a tivermos sorte da economia mundial não entrar em recessão, poderemos ainda respirar uma certa tranqüilidade, pelo menos no presente.

Preocupante, contudo, fica o quadro para além de 2009. Porque, fatalmente, toda a falta de juízo do governo atual acabará repercutindo negativamente no país para além desta data. A bangornada nos juros refletem diretamente no peso da dívida interna e a relação desta com os demais indicadores acabam produzindo, no médio e longo prazo, no volume de investimentos produtivos. Da mesma forma, a prática de juros tão elevados acabam também se refletindo na questão cambial com a atração de capital especulativo de forma maciça, o que produzirá maior depreciação do dólar frente ao real. Assim, e este fenômeno já vem se verificando há algum tempo, nossos superávits comerciais se tornam cada mês menores e a persistir o quadro atual, poderemos rapidamente inverter a posição atual de excedentes em déficits gigantescos, com conseqüências indigestas sobre o montante de reservas internacionais.

Portanto, não é hora para as autoridades econômicas em Brasília, tampouco Lula, brincarem de faz de conta. O país tem gordura para queimar sim, porém, não é recomendável que o faça em nome de projetos políticos de poder. Precisamos de estadistas que saibam agir com presteza e na medida adequada para o país não perder todo o esforço despendido desde a implantação do real. Jogar os problemas atuais e que estão exigindo ações prontas e imediatas para além do mandato, no sentido de não carregar ônus político, pode se transformar em feitiçaria contra os próprios bruxos instalados no poder.

Aliás, seria conveniente que o governo Lula adotasse em si mesmo a Lei Seca que criou: se for dirigir o país, não beba! A propósito, quantos bafômetros há no Planalto?

EM TEMPO: No índice de desemprego divulgado hoje pelo IBGE, e que os governistas estão comemorando efusivamente, há um dado curioso: divulgou-se que na geração de empregos no país, os setores que mais criaram vagas foram o Poder Público (nenhuma surpresa), serviços e INFORMAIS. Gostaria de saber de que modo o IBGE consegue “pesquisar” a geração de empregos informais (aqueles sem carteira assinada). Vai perguntando em cada banca de camelô? Ou, simplesmente, os empresários agora tem formulário específico para informar (alô, alô Previdência e Justiça do Trabalho!) quantas pessoas eles empregaram sem carteira assinada? Ou apenas é mais uma daquelas artimanhas “federais” de chutometria para “engordar” estatísticas (no popular, pura manipulação), para aumentar o IBOPE do governo?