No mesmo dia em que a imprensa noticia que a inflação tornou-se mais moderada, o Banco Central aumentou as taxas de juros. Passou um sinal para os agentes econômicos que a inflação é incontrolável, movimento que por si só é capaz de acelerar a inflação, ou melhor, levar-nos para a estagflação, que já ameaça a segunda metade do governo Lula.
O Brasil continua com a maior taxa real de juros do planeta, disparado: agora a taxa real de juros é de 7,2% ao ano, várias vezes maior do que a média mundial. Esse exagero transforma o Brasil no paraíso da especulação, é dinheiro que entra para faturar ganhos financeiros que nenhum outro país oferece. Na prática a economia brasileira foi transformada no paraíso dos especuladores.O Brasil não reduziu as taxas de juros em termos reais tanto quanto deveria ter feito durante os anos de bonança. Por essa razão o país cresceu abaixo de países da América Latina e de outras economias emergentes. Agora novamente esses juros monumentais vão aumentar o déficit público.
Cada ponto percentual a mais na taxa Selic representa uma despesa fiscal anual de R$ 11 bilhões, quase o mesmo que se gasta com o Bolsa Família, e que vão ainda mais a valorização da taxa de câmbio. Uma reação que desestrutura a economia doméstica em função da mais sobre-valorizada taxa de câmbio da nossa história, cujos efeitos para a atividade econômica podem ser devastadores, corroendo cada vez mais a competitividade econômica do país.Junto vai para cima o déficit da balança de pagamentos, verdadeira praga histórica da economia brasileira e que costuma produzir, cedo ou tarde, crises na economia por causa das inevitáveis desvalorizações que se seguem após períodos de farra cambial.
Vale lembrar que o passivo externo da economia brasileira já era de US$ 574 bilhões em dezembro do ano passado, e o governo nem pode argumentar que aquele déficit está aumentando investimentos na economia, pois as importações de bens de capital explicam somente 25% da elevação das importações entre o 1º semestre de 2007 e o 1º semestre deste ano. Os outros 75% foram para o consumo e para substituir a produção doméstica.
O governo Lula faz hoje uma política econômica esquizofrênica: expande a taxa de juros real para conter a demanda da economia e eleva a despesa fiscal com o aumento dos juros, além de ampliar de maneira irresponsável os gastos federais com avalanches de contratações e aumentos de salários.
Só neste ano foram 56 mil novas contratações entre carreiras e funções comissionadas. Esses aumentos vão resultar numa expansão de 53% da folha do Tesouro Nacional até 2012. Essa é a verdadeira política antiinflacionária do governo Lula, que deixa de fazer o que seria certo: primeiro, conter o vertiginoso aumento dos gastos correntes, uma verdadeira farra fiscal, comprometendo o futuro do Brasil e jogando o peso da gastança para os próximos governos; segundo, limitar a expansão do crédito.
Ambas as medidas tirariam o pretexto para elevar os juros, a supervalorização do câmbio e o aumento do déficit fiscal. A adoção delas implica o funcionamento de um governo austero e competente do ponto de vista gerencial, capaz de se controlar e trabalhar com responsabilidade.
Seguindo pelo caminho mais fácil para si e o pior para o país, o governo Lula escolhe um rumo que vai aprisionar o Brasil numa tesoura de três lâminas: explosão de gastos correntes permanentes, câmbio ferozmente sobre-valorizado e os juros mais altos do mundo.
Uma tesoura que tira cada vez mais o raio de manobra da política econômica e que ao longo do tempo irá cortar a fundo o tecido social e econômico do Brasil.Brasília, 24 de julho de 2008
SENADOR SÉRGIO GUERRA,
PRESIDENTE NACIONAL DO PSDB