Carlos Alberto Sardenberg, Portal G1
A Rodada Doha foi lançada em novembro de 2001, na capital do Catar, apenas dois meses depois do ataque terrorista que havia derrubado as torres de Nova York. A reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio estava marcada antes do atentado – e parecia que nem ia se iniciar. Mas o ataque acabou influenciando na outra direção. Entendeu-se que quanto mais crescimento, emprego e renda houvesse nos países emergentes e pobres, menor seria o espaço para o terrorismo. E ainda: quanto mais integrados os países estivessem no comércio global, também menor seria a tentação terrorista, vista como uma espécie de desespero diante da exclusão.
Resumindo o clima internacional do momento: combater a pobreza no mundo tem de ser prioridade na agenda; o Taliban e a Al-Qaeda merecem bombas, o Afeganistão precisa de ajuda; e todos precisam de mercados e, pois, de comércio externo.
Por isso a Rodada Doha ganhou o apelido de Rodada do Desenvolvimento. A conseqüência direta era a abertura do comércio agrícola mundial, pois mais de 70% das exportações dos países não-ricos eram compostas de produtos agrícolas e industrializados com uso intensivo de mão-de-obra. Ora, naquele momento, Estados Unidos, União Européia e Japão estavam gastando mais de US$ 200 bilhões anuais com subsídios agrícolas. No caso do Japão, isso subsidiava 64% do valor da produção. Na Europa, 38% e nos EUA, 22%. Hoje, se calcula que os subsídios agrícolas dos ricos, incluindo outros países, como a Suíça, alcançam US$ 1 bilhão ao dia.
A rodada iniciou-se em janeiro de 2002, com prazo de encerramento em janeiro de 2005. Já estamos, portanto, com quatro anos de atraso.
E pior, perdeu-se muito do espírito inicial, de apoio ao desenvolvimento. Isso por causa de uma combinação fatores, a começar pela emergência econômica e política de países como China, Índia, Brasil e Rússia, cujos interesses nacionais são freqüentemente contraditórios.
Outro fator: o terrorismo quase se dissipou, não era a ameaça global que parecia ser.
O mundo entrou em um processo de forte crescimento econômico global (2002/2007), com expansão dos emergentes , passando a idéia de que o comércio global já estava bem arrumado assim mesmo.
E a rodada foi passando por sucessivos fracassos. Chegou no seu momento decisivo quando a prosperidade global deu lugar a uma série de crises nacionais e regionais.
O que mostra que a atual rodada, se terminar com acordo, será um acordo bem limitado. Nessa época de aperto, o protecionismo tende a crescer.