Marcos Lisboa (*), Folha de São Paulo
Nos bons tempos, erros custam pouco e podem passar despercebidos; em tempos ruins, podem ser implacáveis
Nos bons tempos, erros custam pouco e podem passar despercebidos; em tempos ruins, podem ser implacáveis
Graves crises econômicas costumam ser generosas com os historiadores, porém não muito com os gestores de política econômica. Com o tempo, o desenvolvimento de técnicas de análise e o acesso a novos dados permitem conhecer melhor suas causas e desdobramentos. Inevitavelmente, reavaliam-se as políticas adotadas como reação à crise, que, muitas vezes, resultaram em conseqüências inversas às pretendidas, prolongando e agravando as dificuldades que procuravam superar.
A explicação clássica sobre a crise de 1929, por exemplo, sugere que escolhas de política econômica foram responsáveis pela transformação de conjuntura difícil em depressão. A deflação em regime de câmbio fixo teria agravado a crise do sistema financeiro e, em seqüência, aprofundado a retração dos demais setores.
Recentemente, novas pesquisas têm reduzido a importância da condução da política monetária e da crise financeira na recessão inicial, explicada, em boa medida, por uma queda da produtividade. O prolongamento da crise, porém, pode ter sido uma infeliz conseqüência do New Deal. A intervenção pública teria impedido o ajuste dos preços relativos e, contrariamente ao desejado, prolongado a crise até o fim da década. Boas intenções nem sempre garantem bons resultados.
Em diversas áreas, como a medicina, a inação, muitas vezes, é escolhida quando o diagnóstico é obscuro.
Esse não é o caso da política pública, que constrange muitos gestores a exibir capacidade de reagir, mesmo que não saibam bem o que está ocorrendo nem se o que propõem aliviará ou agravará ainda mais a crise.
A crise atual é grave e as dúvidas sobre suas causas são quase tão numerosas quanto as dúvidas sobre as políticas a serem adotadas. Não há dúvida, porém, de que haverá impacto sobre a economia brasileira.
Seus efeitos reais sobre o volume de comércio internacional e o acesso ao crédito externo significam redução, ao menos temporariamente, da nossa capacidade de crescimento. Tentar negar esses efeitos ampliando os gastos públicos não evita o impacto sobre nossa economia, apenas obriga o setor privado a fazer um ajuste ainda mais severo. Se o governo quer reduzir o impacto da crise sobre o bem-estar social, o aumento da poupança pública é um dos poucos instrumentos que podem colaborar para esse objetivo, pois reduz o custo do ajuste, além de auxiliar a política monetária. Governos não evitam escassez externa, mas podem, ao menos, poupar para que a população não tenha de fazê-lo em seu lugar.
Existe ainda a agenda de correção de antigas distorções regulatórias, herança de tentativas heterodoxas de conduzir a política macroeconômica, com pouco uso das políticas fiscal e monetária. Essas distorções fragilizam a economia, inclusive na capacidade de absorver e se recuperar de um choque externo.Medidas precipitadas pelo desejo de dissipar a ansiedade diante de dificuldades reais podem produzir resultados indesejados, agravando o que se pretende suavizar. Nos bons tempos, erros custam pouco e podem passar despercebidos. Em momentos ruins, no entanto, podem ser implacáveis. Para satisfação apenas dos historiadores.
(*) Marcos De Barros Lisboa, 43, foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (governo Lula) e é diretor-executivo do Unibanco.