segunda-feira, janeiro 26, 2009

Cem bilhões tirados de onde?

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

No rol das coisas que não entendemos, apesar das explicações de tecnocratas e de economistas amestrados, inserem-se a cifra de cem bilhões de reais que o governo acaba de prometer às empresas em dificuldades. Não adianta sorrir com ar de superioridade e replicar que esse dinheiro virá da venda de títulos do governo, porque se a iniciativa é assim tão simples, porque diabos o governo não emitiu títulos iguais, seis anos atrás, para acabar com a miséria, construir hospitais, escolas e estradas de ferro em profusão? Acresce a dúvida: quem vai comprar esses títulos?

Quer dizer, para as empresas, através de uma varinha de condão, aparecem cem bilhões de reais. Para o cidadão comum, há mais tempo envolvido em maiores dificuldades, nada.

Acrescentarão os iluminados que, ajudando as empresas, o poder público ajuda o cidadão comum, mas, pelo jeito, não tem sido bem assim. Aí estão as milhares de demissões praticadas nas últimas semanas, a maioria de forma açodada e desnecessária, situação que o governo tenta corrigir ao subordinar o auxílio pecuniário à preservação e até ampliação de empregos.

O importante, a saber, é se as empresas aceitarão a troca de recursos extraordinários pela preservação dos postos de trabalho. Até dias atrás a disposição dos megaempresários era negativa. Acostumaram-se mal com o neoliberalismo, a globalização e o domínio absoluto do mercado, sem atentar para a crise que esses valores traziam embutida. Agora, resta saber se mudaram de concepções.

Distribuir o que não existe
O presidente Lula reúne-se amanhã com os governadores do Norte e do Nordeste, indicando a pauta dos trabalhos com ampla discussão sobre distribuição de renda. Com todo o respeito, vão enxugar gelo e ensacar fumaça, porque renda nos estados dessas regiões é artigo em falta, assim como no governo federal, exceção aos milagrosos cem bilhões de reais prometidos para o BNDES oferecer ao empresariado.

Sem exceção, os governadores do Norte e do Nordeste chegarão a Brasília de chapéu na mão. Compromissos, mesmo, só podem celebrar à custa do PAC, ou melhor, das parcelas do PAC bancadas pelo palácio do Planalto. Coisa parecida acontecerá quando o presidente reunir os governadores do Centro-Oeste, Sudeste e Sul, não obstante as diferenças de caixa.

O único apelo que os governadores esperam não ouvir do Lula é para começarem a gastar. Não tem como...

Pantomima
Dos trinta megaempresários reunidos na Firjan, semana passada, vinte e nove revelaram espanto quando indagados a respeito da sugestão feita pelo trigésimo deles, numa sessão reservada, em favor da ampliação do mandato do presidente Lula. Emílio Odbrecht terá sido o único sincero ao propor aquilo que os demais desejam, mas não revelam. Julgam não ser hora, ainda, de colocar a procissão na rua e nem pretendem segurar o andor. Para eles, melhor será retirar as castanhas do fogo com as mãos do gato, no caso, o PT e adjacências. Com crise ou sem crise, sente-se no andar de cima nítida inclinação pela continuidade do presidente Lula, em especial se a alternativa se chama José Serra. São dessas incongruências da política: o tucano cotado para ocupar o palácio do Planalto desperta cólicas na barriga das elites. Não parece disposto a aplicar o modelo praticado por Fernando Henrique Cardoso e tão bem seguido pelo Lula. Poderá surpreender, e do que mais fogem os mega- empresários é de surpresas. Se as coisas seguem a contento para eles, para que mudar?


De todo esse episódio que começa a cheirar a enxofre, se salva apenas Emílio Odbrecht, por ter falado o que todos queriam falar, mas nenhum se dispôs a endossar.

Explicações desnecessárias
No almoço oferecido domingo à bancada do PMDB no Senado, José Sarney não precisou dar explicações. Ninguém perguntou por que, depois de negar durante meses, o ex-presidente da República acabou aceitando sua candidatura à presidência da Casa. Todos sabiam tratar-se, as negativas, de simples jogo político.

À exceção de Jarbas Vasconcelos, que, aliás, perdeu excelente arroz de cuxá por não ter comparecido, os demais não apenas estão com Sarney. Já estavam, faz muito. Festejaram a manobra e reafirmaram a lógica de que, majoritários, têm direito à parte do leão. Quanto a reações na Câmara, não será problema deles se o PT retirar seu apoio à candidatura de Michel Temer. Mesmo assim, o deputado paulista deverá ser escolhido, coisa que coloca o PMDB no centro do palco quando for encenada a sucessão presidencial.