quinta-feira, janeiro 22, 2009

Redução na dose certa, mas com atraso de três meses

Adelson Elias Vasconcellos

Cumprindo a projeção que o mundo financeiro já vinha fazendo há mais de 15 dias, o Banco Central reduziu a taxa SELIC em um ponto percentual, agora fixada em 12,75%.

Ora, mesmo que tivesse ocorrido ruído algum nos últimos dias, tal redução era prevista por 10 em cada 10 especialistas do mercado financeiro. Mas no Brasil sempre há lugar para cretinices.

Tendo mobilizado dezenas de militantes, as Centrais Sindicais se “aproveitaram” para, ao final do dia, afirmarem com a maior cara de pau que o Banco Central cedera à pressão dos trabalhadores. Uma ova. Até porque o próprio Banco Central já sofrera em passado recente pressões ainda maiores, e nem por isso a elas se submeteu.

Na verdade a redução de um ponto na taxa SELIC era uma imposição indispensável para o momento que vive a economia do país. Para muitos surpreendente, na verdade, a “marolinha” de Lula transformada em curto prazo em tsunami econômico, era algo mais do que previsto. Não é de hoje que aqui se dizia que o “boom” econômico que o país vinha vivendo nos dois últimos anos se dava, muito mais, pelos ventos favoráveis da economia internacional, do que por ações meritórias e virtuosas de iniciativa governamental. Ê tivesse este governo tomado as medidas complementares ao Plano Real que reclamamos há muito tempo e, certamente, este momento teria sido melhor, e nossas dificuldades atuais seriam bem menores.

Acima disse que para alguns a maneira rápida e no nível em que se dá a deterioração da economia doméstica pareceu surpreendente. Pois é, no futebol, há comentaristas de resultados, são aqueles para quem só a vitória interessa e não se dão ao trabalho de analisar a atuação medíocre do time. Enquanto ganha, tudo bem, bastará perder um jogo apenas para se tornarem apocalípticos.

Portanto, quando acusamos aqui a fragilidade dos alicerces que sustentavam alguns efeitos positivos, não faltou críticas. O resultado aí está, e vamos rezar para que as principais economias do mundo se recuperarem rapidamente. Porque o que mais se percebe nas “análises” de muitos especialistas, Lula inclusive, é muito mais torcida do que certezas. Se a recessão que já se percebe em alguns se aprofundar, o Brasil será arrastado inexoravelmente. E, neste caso, não haverá discurso ufanista que engane a multidão.

Os números de desemprego são assustadores. A queda da atividade industrial também o são. E se os preços das commodities despencarem no mercado internacional, aí pagaremos o preço nefasto da inércia governamental nos últimos anos. A irresponsabilidade nos gastos aparecerá com extrema clareza. Já afirmei inúmeras vezes: chegará o dia em que o país acordará para a dura realidade de ter jogado no lixo a maior oportunidade de crescimento sustentado de sua economia, em todos os tempos.

A dose de redução nos juros pode até ter sido feita na medida certa, porém com um atraso mínimo de três a quatro meses. E não que o Banco Central não quisesse. Até aqui a equipe econômica torceu o nariz e superestimou a fortaleza da economia brasileira. Apostou no vazio. Apostou e perdeu. O país já está pagando caro por acreditar numa blindagem falsa, por acreditar no discurso mistificador de governantes viciados em governar apenas com discurso e propaganda mentirosa.

As mentiras, cedo ou tarde, acabam se mostrando. Diante do quadro que se desenha com uma realidade brutal e dolorosa, o governo vai se perdendo em pacotes e pacotinhos “pontuais”, tentando atenuar os efeitos ao invés de atacar as verdadeiras causas.

Passaram um primeiro mandato pensando apenas “naquilo”, isto é, na reeleição, em obter a vitória nas urnas em 2006 e, nem bem iniciou-se o segundo mandato, governavam o país olhos postos nas urnas de 2010. Contudo, 2008 e 2009 chegaram antes das urnas e com eles começou a sacudir o país para a realidade.

Não se deseja aqui torcer pelo pior, mas mesmo que seja aborrecido repetir o lugar comum, registramos que a tempestade que se avizinha foi prevista com bastante antecedência. Tivesse o país realizado o dever de casa que durante tanto tempo foi cobrado para a área econômica e, por certo, o país estaria melhor preparado e equipado para as turbulências.

Pode ser que agora, tendo o governo com tremendo atraso acreditado que a crise é prá valer e que dela ninguém ficará imune, como até então se tentou fazer o país acreditar, passa a adotar não discursos cretinos, mas ações objetivas no sentido de dotar o Brasil dos instrumentos indispensáveis para superar as dificuldades que já vive nossa economia real. Como afirmamos há poucos dias, pode ser que agora, seis anos depois de haver assumido o poder, Lula comece de fato a governar o país olhos postos nas suas reais necessidades e carências. Para tanto, é preciso primeiro, acreditar que a crise é prá valer. Segundo, que o diagnóstico da nossa dificuldade seja feita com base na realidade, e por fim, que é indispensável ter um plano mínimo de ação de governo para o país poder andar com suas próprias pernas, mesmo que para tanto se tenha que pagar algum ônus político. Afinal, um governante responsável deve se guiar na direção do que o país precisa que seja feito, e não ficar, como temos visto, um governo teleguiiado pela mentira tentando maquiar a realidade, com o intuito de obter unicamente bônus sem ônus. A isto chamamos de qualquer coisa, menos ação de governar.

Mas é preciso registrar que, não basta reduzir juros para que empregos sejam mantidos, por exemplo. O Banco Central não reduziu juros antes não foi por malvadeza ou birra. A redução só é possível se, como conseqüência, ela não contribuir para gerar expectativa inflacionária. É preciso entender, por outro lado, que na rasteira dos juros altos, está o excesso de gastos do próprio governo. Quanto a geração ou manutenção de empregos, é preciso ir além, o que representa dizer deve o governo reduzir o chamado Custo Brasil, também, para que as empresas não sintam os reflexos de um Estado paquidérmico.

Tentem entender porque, ao contrário do restante do mundo, que hoje pratica juros inferiores a 4,00% ao ano, o Brasil, na contramão, ainda pratica-o na casa de dois dígitos. E, acreditem, ao contrário do discurso oficial, o maior culpado é o próprio governo.