segunda-feira, fevereiro 09, 2009

''Eu fico? Eu passo''

Gaudêncio Torquato (*), Estadão

Getúlio Vargas, em 1945, instado a dizer quem seria seu sucessor, respondia com blague. "Meu candidato é o Eurico (marechal Eurico Gaspar Dutra); mas se houver oportunidade, eu mudo uma letra: Eu Fico." Aliás, a semente do continuísmo em nosso país parece ter sido plantada por ele bem antes, em 1937, quando já manifestava desejo de permanecer no trono. A revista Careta registra uma passagem de Vargas com amigos, entre os quais Agamenon Magalhães, Benedito Valadares e Gustavo Capanema, que lhe foram pedir que fosse o nome da sucessão. O presidente apontou a dificuldade: "A Constituição, que proíbe reeleições." Retrucaram: "Mas a Constituição não passa de um boato." Matreiro, o presidente assentiu: "Lá isso é verdade." O grupo solicitou, então, autorização para anunciar a novidade. "Podem anunciar. Em terra de cego quem tem um olho é rei." Valadares anuiu: "E deve continuar."
Em mais de uma ocasião Lula se comparou a Getúlio, a quem a massa chamava de Gegê e de "pai dos pobres". Coincidência ou não, o fato é que o filho de dona Lindu também ganha esse título. Se agora nega pretensões continuístas - o conceito "politicamente correto" desaconselha a hipótese -, é oportuno aduzir que, a cada dia, Luiz Inácio agrega condições para viabilizar o terceiro mandato. Vale reconhecer que a proibição constitucional tem entre nós mais força que os obstáculos oferecidos (e removidos) pela Constituição da Venezuela ou da Bolívia, por exemplo, mas não a ponto de ser considerada uma barreira intransponível. Lembremos, mais uma vez, o ditador de São Borja, também conhecido por barbáries como esta: "A Constituição é como as virgens. Foi feita para ser violada." Faz-se o registro dessa grossura inconcebível para demonstrar como governantes usam o poder para romper os códigos normativos. Basta verificar o abuso das medidas provisórias. Deriva daí a pergunta: há possibilidades de mudança constitucional para abrigar um mandato de 12 anos?

Mais uma vez nos valemos da filosofia getulista para ancorar esta resposta. Vargas estabelecia diferença entre o oportunista e o homem de oportunidades, para concluir: "Se um cavalo passar encilhado na minha frente, eu monto." O oportunista aproveita os vazios que vê para ocupar espaços. Já o político que se guia pela análise estratégica das oportunidades não entra no túnel das urgências e de circunstâncias passageiras. Mede espaços, pondera sobre o presente, distingue as dobras do futuro. É evidente que o cavalo selado de Luiz Inácio está pronto para levá-lo a um novo passeio. Mas nem todo cavalo encilhado deve ser montado. E nem toda montaria aceita o cavaleiro. Sair ou permanecer em campo é uma arte. É sábio sair pela porta de frente, não pelos fundos. Ademais, Lula tem certeza que o garanhão de 2014 será mais esbelto e aparelhado que o equino na curva em declive da pista de 2010. Seu sonho é conservar na geladeira o lastro do reconhecimento público que bate na casa dos 84% de aprovação, segundo a última pesquisa Sensus. Com esse índice se eleva à galeria popular dos heróis.

Herói é uma mescla de salvador, médium do espírito nacional, um São Jorge lutando contra o dragão da maldade. Essa é a imagem de Lula pela lupa das maiores fatias populacionais. A saga deste homem providencial ganhará um capítulo de reforço, ainda este ano, com o anunciado filme Lula, o Filho do Brasil. Sob o manto de teflon, argamassa impermeável que não permite borrar a imagem, o presidente resplandece no meio da safra de desemprego e no pico da maior queda da produção industrial do País nos últimos anos. Como se explica isso? Primeiro, pela passagem da ideia de que a crise é dos outros, não é nossa. Segundo, pela maneira enviesada de embalar a verdade: se o País vai bem, é porque tem um bom governo; se algo vai mal e se o desemprego assola o mercado, é porque empresários gananciosos não se conformam com a diminuição de lucros. Antes de Lula, só mesmo Getúlio e Juscelino conseguiram exprimir com tanto ardor a aura da esperança. Nela se lê a promessa: logo a crise passará.

Para todos os efeitos, pelo dicionário lulista a malandragem é dos outros, das nações ricas, dos especuladores. Por aqui, a culpa pelos apertos de milhões de pessoas é de setores insensíveis ao clamor das ruas. Esta é a composição simbiótica de Lula: de um lado, frequenta a caderneta de telefones dos maiorais do mundo, aos quais se permite puxar a orelha quando achar necessário; de outro, entra, como pai ou como irmão, na cozinha de cada brasileiro simples, a quem oferece uma cesta de benefícios. Eis o mistério da fé. Lula tornou-se sinônimo do Bem, o enviado dos Céus; o demônio é o outro, qualquer outro. Por isso ocupa o lugar de maior referência positiva no inconsciente coletivo nacional. A pergunta é recorrente: esse Hulk verde-amarelo quer continuar ou transferir o bastão para Dilma Rousseff? Eis a resposta: ele quer ser o paradigma da democracia, transferir o trono a outro(a) e sonhar com o futuro. Como Pelé, quer sair do campo aplaudido. Como Getúlio, sonha em voltar mais adiante nos braços do povo.

Dito isto, aparece outra questão: a 20 meses da eleição, a pré-candidata Rousseff pode crescer e ser bem-sucedida? A ministra sobe três a quatro pontos a cada nova pesquisa. O largo caminho que vai percorrer, cheio de obras e canteiros, terá uma descida - o possível aprofundamento da crise - e uma reta perto da subida - a passagem rápida do furacão pelo Brasil. Sua situação vai depender da condição da estrada. Lula usará o bastão para ajudá-la no percurso. Por último, vale lembrar que a operação nas duas Casas Legislativas tende a favorecer a mineira-gaúcha, pelo menos no primeiro momento. Afinal, os dois presidentes eleitos foram chancelados pelo presidente da República e a base governista, superampliada, tende a permanecer no entorno de figuras prestigiadas. Enquanto Lula voar em céu de brigadeiro, poucos terão coragem de se afastar dele. Essa hipótese vitamina o pragmatismo partidário.

(*) Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político