Adelson Elias Vasconcellos
Ninguém é tão hipócrita de negar que os governantes no poder, regulem suas ações para atingir a aprovação popular visando, desta forma, ter cacife suficiente para se manterem na política. De certa forma, a gente até compreende e joga tais comportamentos para o poço chamado “é do jogo”.
Porém, aquilo que deveria ser apenas uma das condicionantes dos projetos e ações de governo, e que de certa maneira até bem pouco tempo imperava como regra no Brasil, a partir de Lula mudou a rota e o discurso. Com o atual presidente, seja tanto os programas de governo como o uso do aparelho do Estado, passaram a ser comandados unicamente sob o critério do calendário eleitoral. De repente, prioridades da sociedade passaram a ser tratadas como secundárias, e só se admite que tenham tratamento especial se nelas estiver embutido um ganho político no próximo palanque. Tal ou qual programa é tocado em frente, varia de acordo com as conveniências eleitoreiras do governo. As necessidades da sociedade que se danem, apesar de ser ela quem sustenta a corte imperial, com suas ostentações inúteis, seus privilégios imorais, suas ilegalidades.
Sei que muitos acham isto normal, adoram defender tal postura com a cretinice do “faz parte do jogo”, ou um “sempre foi feito assim”. Exemplo máximo desta cretinice foi Lula haver admitido em Paris que o PT praticara caixa 2 em sua eleição, mas que os demais também faziam ou fizeram a mesma coisa. Para quem chegara ao poder respaldado no discurso da “moral ilibada”, convenhamos, é uma mudança e tanto!
A verdade é que cultivamos a infame cultura de justificar um crime com a infeliz e condenável prática de outro. Cedo ou tarde, se o que desejamos é um país melhor, tal prática precisa ser abolida. Necessário que se adote o discurso da obrigação de fazer mais e melhor. Temos que colocar na ordem do dia que é possível corrigir e práticas indesejáveis e condenáveis. Porque é isto que a sociedade deseja e precisa, para ela própria fazer o mesmo .
Enquanto o discurso político subir no palanque movido pela postura do faço o que sempre os outros fizeram, nunca sairemos do lugar.
Dito isto, e sob tal ótica, passo a analisar a questão dos aposentados, de que já tratamos aqui no início da semana. Por que os aposentados, e especificamente, os da iniciativa privada, são tratados no Brasil como cidadãos de quinta categoria? Que crime hediondo terão eles cometido para serem relegados ao abandono, ao descaso e a um tratamento indigno e,por isto mesmo, desumano?
Será que não se terá neste país, um único e mísero político e governante que vêem neles, os aposentados, justamente a geração de seus pais e avós? Alguém aí seria capaz de tratar seus país e avós de forma tão aviltante?
Corre na Câmara de Deputados um projeto de Paulo Paim (PT-RS), em que se pretende recuperar parte das perdas que os aposentados tem sofrido em suas aposentadoria que, ano após ano, vem decrescendo. A depreciação tem sido tamanha que muitos, atualmente, recebem menos da metade do valor real com que se aposentaram. E que se registre: não são estes os malfeitores do rombo nas contas da Previdência. E isto já foi provado por diferentes especialistas e estudiosos do assunto. O rombo tem suas causas em coisas do tipo sonegação, corrupção e, principalmente, pelo custo que aposentados e pensionistas do serviço público representam, já que, para eles, o tratamento sempre foi privilegiado, apesar de serem cidadãos brasileiros que deveriam gozar dos mesmos direitos.
Sob a alegação de que, a aprovação do tal projeto, representará um custo adicional de cerca de R$ 6 bilhões nas contas da Previdência, o governo Lula ordenou que o projeto fosse estancado e foi o que ocorreu nesta semana. Manobras indecentes tiveram o resultado que o governo pretendia. A votação do projeto foi postergada, para desespero dos milhões de aposentados que esperavam por um pouco de justiça. Nota-se, também, é bom lembrar, que este governo, o de Lula, jamais dispensou aos aposentados o tratamento que eles merecem. Sempre os relegou a um plano bastante secundário.
Contudo, hoje, o governo soltou uma informação de que pretende implantar uma espécie de bolsa funeral para os milhões de beneficiários do Bolsa Família. Como é que é? Bolsa Funeral? Quantos milhões custarão tal idéia aos cofres públicos? Com qual seguradora o governo irá firmar convênio? Quem está por detrás desta manobra populista eleitoreira para mamar um pouco mais os cofres públicos? E, por fim, cadê a prioridade que este programa tem que mereça ser privilegiado em detrimento da recuperação de parte da depreciação que as aposentadorias sofreram ao longo dos últimos anos? O calendário eleitoral? Dane-se tanto o calendário quanto esta medida de cunho absolutamente eleitoreiro! Há uma justiça maior e mais urgente clamando por ser atendida em primeiríssimo lugar.
E justamente por isso que chamei e continuarei chamando o governo Lula de governo anti-social. Não sopor isso, porque se nota muito mais comprovações deste fato. É preciso não ter o menor senso de humanidade para se contrapor a um reajuste mais do que obrigatório, para milhões de brasileiros que construíram o Brasil que hoje conhecemos. Tratá-los com tamanho desprezo é cuspir nas nossas próprias raízes, na nossa própria condição de ser.
E, se tudo que já disse a este respeito ainda fossem insuficiente para fazer com o que governo se curvasse e admitisse que o projeto de reajuste é de inteira justiça e urgência, haveria ainda outra alternativa para que o abuso não se prolongasse: não canta Lula as glórias de seu governo tem composto reservas de mais de 200 bilhões? Pois que se tire desta tal montanha, os recursos necessários para cobrir os custos decorrentes pela aprovação do reajuste tal qual o projeto, em tramitação, prevê. Ninguém nos irá condenar, até pelo contrário. Porque é preciso reconhecer o muito de suor, sacrifícios e trabalho que foi despendido pelos nossos aposentados para que o senhor Lula mostrasse tanta exuberância nos palanques e nas campanhas! Muito destas reservas foram originadas graças a eles e os trinta ou quarenta anos dedicados ao trabalho honesto, tempo este em que foram sugados em descontos mensais contínuos para poderem, na velhice, ter uma vida digna. A reposição que se deseja, se vê, é apenas o retorno do investimento que eles fizeram ao longo de suas vidas, dinheiro que foi carreado para os cofres do Tesouro Nacional e que, na hora da retribuição, não pode o Estado se furtar em pagar. Isto seria uma apropriação ilegal. O dinheiro da previdência não pertence ao governo. É a poupança justa que os trabalhadores fazem ao longo de seus anos de sacrifício e esforço pessoal para, na aposentadoria, não precisarem pedir esmolas às portas dos palácios onde se refestelam nossos governantes.
Portanto, senhor Lula, deixe de lado a arrogância e o discurso eleitoreiro, e devolva aos aposentados da iniciativa privada o dinheiro que o governo lhes tomou durante décadas, e que agora, diante de um novo espetáculo de eleições, vossa excelência se nega em devolver, preferindo torrá-lo na compra de salvo conduto para continuar praticando o assalto.
Pelo menos uma vez, ao longo de dois mandatos presidenciais, governe o país praticando justiça social. Ao menos no caso dos aposentados, esqueça os palanques. Tal dignidade é débito de toda a sociedade, e não apenas de seu governo. Assim, Lula, devolva-lhes o dinheiro que uma vida inteira de trabalho eles pouparam. Devolva-lhes a satisfação de serem tratados como cidadãos honestos que eles nunca deixaram de ser. Trate-os dignamente, porque é fazer justiça social.