segunda-feira, dezembro 07, 2009

Quando a estabilidade de hoje não nos assegura futuro melhor

Adelson Elias Vascocncellos

O artigo postado aí embaixo, do Paulo Rabello de Castro, publicado pela Folha de São Paulo, vem como que fazer coro ao avisos de alertas que temos emitido neste espaço, juntamente, com os emitidos pelo excelente Raul Velloso, além de muitos outros economistas, no sentido de que o modelo que vem sendo adotado pela equipe econômica do governo Lula, está se convertendo numa perigosa herança maldita ao equlíbrio das contas nacionais, equilíbrio que está na raiz que sustenta e garante nossa estabilidade econômica.

O que se observa nas medidas adotadas, é que o atual governo está voltado e devotado,unicamente, aos resultados de curto prazo, e mesmo assim, apenas naqueles capazes de produzir dividendos eleitorais. É uma ação perigosa porque empurra para os próximos governos soluções que, se adotadas agora, poderiam dar melhor sustentação à estabillidade econômica brasileira e, antes disso, garantir crescimentos sustentáveis em níveis razoáveis por um bom número de anos. Diante do que vemos, podemos afirmar que o atual modelo tem prazo de validade de curtíssima duração.

Contudo, devotado a vencer a eleição presidencial com Dilma a frente, o governo atual como que pavimenta seu próprio retorno no pleito seguinte, em 2014. Quanto ao verdadeiro interesse do país, este está colocado em segundo plano.

Reparem quando Paulo Rabello comenta quanto ao que ele chama de "bolhinha do nosso crédito doméstico". Diz ele: "...Pelo quarto ano consecutivo, a expansão do crédito pessoal, público e para empresas crescerá pelo menos o dobro do ritmo da produção interna. Consumo e importações crescem em escalada".

Isto, senhores, já não se trata de uma "bolhinha". É bolha mesmo, dado que se trata de política de governo, e não se ouve das autoridades econômicas nenhum tipo de restrições ou alerta de que será preciso conter este avanço. Não faz muito, alertamos aqui que nada temos contra a tal política de expansão do crédito, desde que fosse acompanhada por igual expansão da massa salarial, o que, pelo menos neste momento, não conseguimos constatar. Ou seja, esse crescimento econômico que experimentamos, calcado apenas na expansão do crédito é tiro de curto prazo, com limitações que nos forçarão, adiante, a estagnar novamente. Se não se aumenta a massa salarial, a capacidade de endividamento dos consumidores fica limitada. E, é bom considerar que um quarto ou pouco mais da população brasileira é dependente exclusiva de programas sociais, tendo assim, limitada capacidade de consumir um pouco além do básico.

Retorno ao ponto: quando este crescimento está vinculado no aumento do crédito, porém, a ele se junta a racionalidade dos gastos públicos, e que não é o caso, isto favorece que, no médio prazo, se possa praticar uma redução geral de impostos, ou pelo menos, nas alíquotas e na ampliação dos prazos de recolhimento. Isto, já se vê, acabaria fortalecendo as pessoas e as empresas, porque todos teriam ganhos reais sem comprometer sua capacidade de solvência. Deste modo, pode o consumo manter-se aquecido sem grandes sustos.

Se, ao invés de comprometer sua arrecadação com mais gastos correntes, o governo elevasse seus investimentos, isto atrairia mais investimentos privados, aumentando significativamente a oferta de novos postos de trabalho, com geração de emprego e renda. Não só isso: permitiria que as empresas atuais tivessem fôlego suficiente para investir em expansão de produção. Hoje, o quadro que vemos, indica um perigoso sinal de alerta, porque se não adotarmos tais incentivos, o aumento de consumo rapidamente atingirá o máximo da capacidade produtiva instalada, e em contrapartida, provocará elevação de preços. Isto é lei, e não apenas uma opinião.E, sabemos, que o instrumento para sua contenção é praticado via aumento de juros. Aumento de juros retrai o crédito, eleva a dívida interna, estagna a economia.

Portanto, se no curto prazo, o modelo atual produz resultados imediatos nas urnas, por outro lado, a sua manutenção terá um efeito negativo nos índices de crescimento, do qual, não podemos abrir mão.

Sendo assim, antes de serem vistos como aves de má agouro, melhor fariam as autoridades econômicas se se dedicassem na adoção de medidas com resultados de mais longo prazo, fazendo reflexão profunda nos alertas que estão dados. Centrar-se, apenas, como se está fazendo, em medidas que garantam um projeto de poder, sem levar em conta os riscos decorrentes, é trabalhar contra o interesse do país. E, o mínimo que se espera de um governante verdadeiro e responsável, é que adote medidas e programas voltados ao interesse coletivo, e não apenas ao interesse exclusivo dos que estão no poder e dele não querem se afastar.

Não podemos, sob argumento algum, perder de vista que a estabilidade conquistada não é uma obra pronta e acabada. Ela requer reformas que estão sendo postergadas, correção de rumos que está sendo ignorada, além de cuidados que estão sendo desprezados. A excessiva presença do Estado como agente econômico ativo, ao invés de restringir-se ao papel de regulador e fiscalizador, e isso a história já demonstrou, o quanto de prejuízo e atraso provocou ao país. Da última vez, nunca é demais lembrar, foram 25 anos de estagnação e todas as mazelas sociais que esta estagnação cristalizou. Desconhecer a lição, é insistir num receituário que nunca deu certo nem no Brasil nem em lugar algum do planeta. Deste modo, melhor faria o governo se, ao lado do otimismo que o quadro atual lhe proporciona, contivesse um pouco este ufanismo e se dedicasse de fato a um projeto de governo, que beneficiasse ao país como um todo, coisa do qual ele se afasta cada vez mais.

O doloroso é perceber que, ao lado do modelo econômico adotado, há um de caráter institucional, como a justificar as escolhas presentes. Em consequência, não se há de esperar dos atuais governantes nem reformas, nem correção de rumos nem a adoção dos cuidados necessários acima assinalados. Quem perde? Todos nós, porque, afinal, certo ou errado, quem no final acaba pagando a conta é a sociedade brasileira em geral, para o bem ou para o mal.