terça-feira, fevereiro 09, 2010

Enem: via-crúcis de um candidato

Mariana Mandelli e Carlos Lordelo, Estadão

Os últimos meses do aluno André Lobas se confundem com os percalços da prova; a cada etapa, um obstáculo

Se o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tivesse um rosto, poderia ser o do estudante André Lobas, de 18 anos. Seus últimos meses se confundem com os percalços enfrentados pela prova: a cada novo imprevisto do Enem, um novo problema. Das inscrições à divulgação dos resultados finais, o estudante vivenciou os tropeços de todas as etapas de implantação do novo exame.

O primeiro obstáculo chegou em julho de 2009. As tumultuadas inscrições pela internet tiraram o sono de André e de milhões de candidatos que tentavam acessar o site do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). "Levei dois dias para entrar no site."

O vazamento da prova, revelado pelo Estado em outubro, mudou a data do Enem para 5 e 6 de dezembro e atrapalhou o cronograma dos vestibulares escolhidos por André. Seus principais alvos, Fuvest e PUC desistiram de usar o resultado do exame para compor as notas dos candidatos. Além disso, os novos dias coincidiram com o vestibular da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A instituição transferiu a prova para 19, 20 e 21 de dezembro, datas da segunda fase da Unesp, que André também prestaria. "Tive de optar e acabei desistindo da Unesp."

André teve ainda prejuízo financeiro. Além de perder os R$ 110 da inscrição da Unesp, a troca de passagens para Florianópolis, onde foi a prova da UFSC, custou R$ 244 a mais. "E eu tinha comprado bem antes, na promoção."

Com a troca da data veio também a mudança do local de prova: da zona norte para a sul de São Paulo. Morador do Limão, ele teve de ir ao Itaim Bibi. "Eu pude contar com a carona dos meus pais. Imagino a situação de quem não pôde." A distância triplicou: de 7 km para 21,3 km.

Após fazer a prova, André passou pelo estresse de usar o gabarito errado, divulgado pelo Inep, para corrigi-la. "Depois de tanta coisa, nem me surpreendi com isso", conta.

O congestionamento no site do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) também não foi surpresa para ele, que levou dois dias para efetuar a inscrição na Universidade Federal do ABC para Ciências e Humanidades. Ele não conseguiu a vaga e vai cursar Direito na PUC.

O saldo da experiência com o novo Enem é negativo. "Foi uma decepção porque acreditei no projeto." Para ele, o exame perdeu a credibilidade. "Agora o Enem tem de mostrar que merece novamente a confiança."

Futuro
No ano passado, o Enem deixou de ser apenas uma avaliação do aluno e de escolas para ganhar um formato que poderia ser usado como seleção unificada de instituições federais. Para educadores, os problemas desta edição não devem mudar o projeto do exame.

De acordo com o especialista em avaliações Francisco Soares, o que precisa mudar é a logística do processo, não a proposta. Já a ex-presidente do Inep Maria Helena Guimarães de Castro critica o papel assumido pelo Inep, de aplicar e corrigir provas. "Assim o MEC se descuidará de sua principal função: formular e coordenar as políticas públicas de educação", afirma Maria Helena.