Augusto Nunes, Revista Veja
A candidata Dilma Rousseff afirma que não encomendou dossiê nenhum contra José Serra, muito menos o estupro do sigilo fiscal da filha do adversário. “Se alguém fez alguma coisa errada, não tenho nada com isso”, vem repetindo. Ela alega que não pode controlar a movimentação no comitê de campanha, como ficou claro no episódio do programa de governo que rubricou e assinou, mas não leu. “Me pediram rubrica”, já explicou. “Rubricar é rubricar e eu rubriquei”.
O contador Antonio Carlos Atella afirma que não fez nada de errado ao consumar o estupro do sigilo fiscal de Verônica Serra com a procuração que apresentou à Receita Federal. “Não faço a menor ideia de quem encomendou o serviço”, vem repetindo. Ele só lembra que os interessados tinham pressa e que o documento lhe foi entregue pelo office-boy Ademir Estevam Cabral.
Se a candidata não controla o tráfego no comitê, sobretudo em seus subterrâneos, o contador alega que não pode controlar a movimentação da papelada que despacha diariamente: “Pediu, estou tirando”, já explicou. “Se pedir de quem quiser eu tiro, e a Receita tem que entregar”. O Fisco já foi mais cuidadoso na lida com gente assim. Entre outros pontapés nos códigos legais, o alentado prontuário de Atella informa que o portador já foi pilhado em flagrante usando quatro CPFs ao mesmo tempo.
Dilma promete processar José Serra pelo que anda dizendo no horário eleitoral. “Estou sendo ofendida na minha honra”, recita. Atella promete processar jornais e revistas que andam divulgando notícias sobre as enrascadas em que se meteu. “Estou sofrendo danos morais”, declama. A candidata jura que não teme perder, em consequência do escândalo, a liderança nas pesquisas eleitorais. O contador tem certeza de que não perderá o direito de ir e vir.
(Ficou mais confiante nesta sexta-feira: depois de um depoimento de cinco horas na Polícia Federal, não foi sequer indiciado. Os sherloques querem ouvir com urgência Verônica Serra. A conversa com a vítima da violação com motivações eleitoreiras lhes parece mais urgente que, por exemplo, o interrogatório de evelações de Otacílio Cartaxo, secretário da Receita Federal).
“Não existe sistema inviolável”, disse nesta tarde o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Pode ser. Nos países que não se assemelham a um clube dos cafajestes, contudo, os autores do crime vão para a cadeia e funcionários públicos relapsos ou cúmplices, como Cartaxo, são demitidos. Não é o caso do Brasil, confirma o contador. “Todo mundo aqui está passível de ter a vida investigada”, ensina Atella. “Esse é o Brasil dos f.d.p.”
Nesse Brasil, como comprovam as frases entre aspas, uma candidata à Presidência, um ministro da Fazenda e um especialista em maracutaias fiscais falam a mesma linguagem. É o dialeto dos que se consideram condenados à impunidade.