Adelson Elias Vasconcellos
Não conheço o marqueteiro de José Serra, que se diz acompanhá-lo em outras campanhas vitoriosas. É o mesmo que orientou Geraldo Alckmin em 2006. E, sinceramente, não tenho o menor desejo de conhecê-lo. Se fosse político, jamais o contrataria.
Uma campanha eleitoral nunca é o começo da batalha. Ela já é a reta final. Uma campanha política começa pela avaliação do próprio candidato, quais seus pontos fortes e fracos. Ressaltar os primeiro e “maquiar” os segundos, é um primeiro passo. Mas tão importante quanto trabalhar o candidato, é o marqueteiro ter a exata avaliação do pensamento do eleitor. E aí, se você se equivocar, vai traçar uma estratégia errada, e o melhor candidato pode naufragar diante de um com menor formação, experiência e competência, mas com estratégia adequada.
Aliás, isto vale não apenas para políticos em campanha, serve para tudo, de modo geral, até para conquistar um emprego.
Já havia reparado na campanha de Alckmin, em 2006, quando perdeu no segundo turno e com menor votação da que tivera no primeiro turno, que Gonzales tem uma certa dificuldade de trabalhar com candidatos não governistas. Parece que ele não consegue fazer uma leitura adequada do que pensa ou do que deseja o eleitor. Assim, tanto em 2006, quanto agora, em 2010, o que se percebe nas campanhas por ele orientadas, que em sendo candidatos de oposição, fazem uma campanha como se não fossem. Querem ser mais governistas do que os que estão no poder.
Não faz muito publiquei um artigo em que afirmei que, oposição que não faz oposição, não ganha eleição. Não ganha mesmo.
Se a gente começar a pesquisar o que foi feito nestes quase oito anos de Lula no poder, os números reais (não os da campanha da Dilma e os de Lula no palanque), vai encontrar pelo menos uns cinquenta motivos para criticá-lo duramente, e em todos os setores de atuação. Desde a política externa – a dos horrores -, até a mais insignificante medida administrativa, o que se tem é a configuração de um governo que muito mais deixou de fazer, do que tenha realizado concretamente algo com começo, meio e fim. Veja-se a atuação de Lula, em campanha há pelo menos dois anos: o que mais teve foi inauguração de obra pela metade, assinatura de compromisso de obra, assinatura de carta de boas intenções, inauguração dupla de um mesmo empreendimento.
Saia-se do campo das realizações, volto ao tema mais adiante , e demos uma passada no campo dos escândalos. Dá quase para encher um caderno inteiro.
Aí, assiste-se aos programas do Serra e não se vê absolutamente nenhuma crítica a um governo que oferece dezenas de motivos para tanto. Será que o marqueteiro conseguiu fazer a leitura adequada do pensamento do eleitor?
Evidente, que por culpa da omissão da própria oposição, Lula roubou para si, muitas das realizações do governo FHC, uma das muitas razões para sua popularidade chegar onde chegou. Não dava para desconstruir seu governo a partir deste ponto?
Depois, desconstrua o atual governo a partir dos escândalos protagonizados, muitos dos quais abafados e sem punição. Voltemos às realizações: qual o grande pacote de agrado que Lula e Dilma exibem no palanque? O tal PAC, mão do PAC, a gerentona do governo, a supercompetente, isto e aquilo, e aquilo outro. Pois bem: ora, sabe-se e já se demonstrou exaustivamente isto, que cerca de 90% das obras elencadas no PAC são obras que Lula, sorrateiramente, interrompeu em seu primeiro mandato. Foram realizações que tiveram início nos governos anteriores a Lula. Nesta semana, errei na troca de canal do controle remoto, e acabei caindo num dos programas da Dilma. Como pode esta senhora apresentar como realização do governo Lula a Ferrovia Norte-Sul que teve início no governo Sarney? É o cúmulo da vigarice!!! Agora, se ninguém confrontar a informação, evidente que Lula passará por grande estadista. Não é por outra razão que o classifico como o vigarista da obra alheia.
Outra questão: o marqueteiro de Serra se deu ao trabalho de conhecer por quais razões seu cliente se manteve à frente das pesquisas por tanto tempo?
Procurou saber junto ao eleitorado, de forma qualitativa, qual era sua expectativa quanto ao perfil do novo governante que irá suceder Lula?
Cito um exemplo para evidenciar o pensamento: tanto no final do ano passado quanto em algumas ocasiões ao longo do primeiro semestre, inúmeras pesquisas que apontavam Lula com enorme aprovação popular, também, traziam o resultado de avaliações específicas quanto a satisfação do eleitor. Áreas como saúde, educação, segurança, saneamento, estradas, transportes, eram avaliados separadamente para medir o grau de satisfação dos pesquisados. Sabem qual foi o resultado praticamente imutável em todas estas avaliações? Pois bem, enquanto Lula era aprovado em índices superiores a 60, depois 65, mais de 70%, por áreas específicas, jamais ultrapassou-se a barreira de 50% quando se quis a opinião do eleitor em questões práticas de governo. O que tal número indica de imediato? Que Lula conseguiu apartar o seu governo de si mesmo. É como se fossem entidades distintas. Pôde, deste modo, capitalizar politicamente para si, o lucro de tudo que deu certo, mesmo que a maioria tenha começado no governo anterior. E, de outro lado, pode empurrar para o governo anterior todos os males, erros e defeitos. Como a oposição jamais teve competência para defender seu próprio legado, Lula deitou e rolou.
Era justamente neste ponto que o senhor Gonzales deveria ter sinalizado um alerta para Serra. Além dos aloprados, em 2006, Alckmin conseguiu empurrar a eleição para segundo turno – e olhe que enfrentava Lula e toda a máquina – justamente por entendido, a tempo, que precisava mudar o discurso e passou a fazer exatamente aquilo que dele se esperava: oposição. Centrou críticas em todas as más realizações e mal-feitos do governo Lula.
Quando no segundo turno Lula mentiu ao país sobre privatizações, nem Alckimin nem Gonzales tiveram tutano suficiente para devolver o veneno.
Quero crer que, há cerca de uns três anos, uma pesquisa feita junto ao eleitorado, provou que o brasileiro é sim, mesmo que alguns ainda duvidassem, um povo tremendamente conservador. Não é por outra razão que o PT jamais aborda, em campanhas, temas melindrosos como aborto, por exemplo. Mas o que aquela pesquisa mais ressaltou foi, também, que para o povo brasileiro não interessa em que regime ou sistema político o Estado se ache organizado. Pode ser até um ditador, desde que ele, o povo, seja beneficiado diretamente.
Voltando à 2010, adianta Serra dizer que, se Dilma for eleita, quem governará, de fato, será Lula? É como dar um tiro no próprio pé. Se o povo se sente feliz com o governo que tem, nada mais natural do que conservá-lo por quanto tempo puder, não é verdade? Leia-se, ainda, que temos um enorme contingente de analfabetos totais e funcionais, e cerca de 90% não tem acesso à informação. O que é preciso fazer? Mudar a linguagem e o tema do discurso. Quem deveria impor a pauta da campanha deveria ser a oposição, desconstruindo Lula e seu governo – o que não faltam são motivos – e direcionar propostas para os pontos fracos que Lula não conseguiu resolver. Pitadas das corrupções e escândalos, pitadas sobre o desastre da política externa, que até pode não interessar ao povão, mas tocam fundo no eleitorado cativo dos tucanos, e ainda sobraria espaço e tempo para as “surpresas” da campanha. Como, por exemplo, a violação de sigilos. Poderia até fazer análise crítica das afirmações e propostas do “outro” lado, durante a própria campanha. Talvez não se conseguisse vencer a eleição, mas, por certo, marcaria uma presença bem mais relevante. Mais do que a derrota ser no primeiro turno, é sentir-se derrotado por si mesmo, por adotar uma postura muito mais de acordo com a de um candidato governista.
Claro que erros sempre ocorrem, mas fazer campanha como se estivesse do “outro” lado, e não como oposição que de fato é, convenhamos, chega a ser patético para alguém com a vivência de campanhas que José Serra carrega na bagagem. O desastre se acentua muito mais por deixar que sua campanha fosse guiada por um marqueteiro que insistiu em cometer os mesmos erros de 2006, isto é, não conhecer a vontade do eleitor brasileiro. E quando se erra neste ponto, não há candidato bom que resista.