Míriam Leitão, O Globo
A participação dos importados no consumo do país subiu de 12% para 20%. Mais de 90% dos aparelhos de DVD e áudio vêm de fora. Há empresas de eletrônicos instaladas no Brasil que não se dão mais ao trabalho de montar aqui, importam da China o produto acabado. Mas a utilização da capacidade instalada da indústria subiu em um ano de 82% para 85%. Os importados salvam a pátria do consumo.
A confiança do empresário está em queda apesar de a economia estar aquecida. Caiu de 68 pontos em janeiro para 62 em outubro. Uma das razões: os candidatos prometem gastos, e os analistas dizem que as contas só fecham com mais impostos.
O economista-chefe da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco, está preocupado com essa queda na confiança. Embora permaneça em patamares altos, ela vem caindo mês a mês. Isso mostra que há risco de que investimentos sejam adiados no ano que vem:
— A indústria vai crescer fortemente este ano, mas a base de comparação é baixa. Nem todos os setores enxergam cenário favorável à frente. Do ponto de vista do empresário, ele vê o real se fortalecer e a concorrência com importados aumentar. Ao mesmo tempo, não teve nenhum ganho em redução de tributos, melhoria de infraestrutura e custos trabalhistas. Sente que as condições não estão melhorando. É uma situação complicada — disse.
Olhando os indicadores macroeconômicos, Castelo Branco também vê sinais de preocupação:
— Precisamos de juros menores para diminuir o diferencial com outros países e impedir que o real continue se fortalecendo. Mas temos excesso de gasto corrente do governo, que promove inflação e não contribui com aumento de poupança. O déficit em conta corrente é crescente por isso e aumenta a dependência de dólares para financiá-lo. Isso significa mais juros. O empresário enxerga esse cenário — afirmou.
O diretor de comércio exterior da Fiesp, Roberto Giannetti da Fonseca, está convencido de que há um processo de desindustrialização por importação no país. Ele explica que a participação dos importados na economia está aumentando ano a ano. Em 2002, eles representavam 12%. Hoje, já chegam a 20%. A importação é boa para a economia, dá dinamismo, aumenta a concorrência, permite a entrada de produtos sem similares locais. O problema, segundo ele, é que o produto brasileiro tem enfrentado concorrentes que recebem subsídios cambiais, tributários e trabalhistas de seus governos, principalmente da China.
— Estamos deixando uma política de substituição de importações para entrar em uma política de desindustrialização por importações. Há muito empresário fechando as portas no Brasil para ir produzir na China. Ele gera emprego na China, produz lá e manda para o Brasil, mantendo a rede de clientes e distribuição que já tinha. São grandes as chances de termos queda da produção industrial no primeiro trimestre do ano que vem, na comparação com o mesmo período de 2010 — afirmou.
Isso pode ser observado nos eletroeletrônicos. Segundo o vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Wilson Périco, cerca de 90% dos aparelhos de DVD e áudio consumidos no Brasil vêm do exterior. Antes, eles eram produzidos na Zona Franca de Manaus. Grande parte dessa importação é feita por empresas que possuem sede no Brasil e em outros países.
— Muitas empresas importam o produto pronto e revendem aqui dentro para o comércio varejista. Aparelhos de DVD e áudio, que já foram carros-chefes das indústrias no Brasil, hoje vêm de fora, na grande maioria da China. Aparelhos de TV, blu-ray, decodificadores, ainda são mais de 90% fabricados na Zona Franca, mas correm o mesmo risco — disse.
Mesmo com a explosão dos importados, o Nível de Utilização da Capacidade Instalada da Indústria (Nuci), medido pela FGV, subiu de 82 pontos, em setembro de 2009, para 85 pontos, em setembro de 2010. Quanto maior a pontuação, menor a capacidade de a indústria crescer a produção e suprir o mercado. Por isso, é importante que a confiança do empresário fique alta, para que investimentos sejam feitos. Na Zona Franca, Périco diz que o Nuci está acima de 90 pontos.
— Temos aumentado a contratação de mão-de-obra temporária e também estamos pagando mais horas extras. Mas acredito que a utilização da capacidade nesse patamar seja pontual, para atender à demanda do final do ano. As empresas já têm orçamento de investimentos previstos para 2011 — disse.
Périco diz que há um lado bom na valorização do real, que é o barateamento de insumos. O problema é que o alto custo de produção no Brasil impede que o produto brasileiro seja competitivo para exportação:
— Mesmo importando componentes mais baratos, quando montado aqui dentro, o produto final fica caro demais para exportar — explicou.
O economista Luiz Roberto Cunha, da PUC-Rio, vê com cautela as promessas dos dois candidatos à Presidência, Dilma e Serra, que implicam em mais gastos públicos. Com a expectativa de inflação em 5,4% para o ano que vem, a solução pode voltar a ser aumento de juros. Tudo que a indústria não quer:
— Novamente deve sobrar para o Banco Central. O grau de incerteza está muito grande para 2011. O mercado entende que as promessas que estão sendo feitas pelos candidatos só serão cobertas se houver aumento de impostos.
O especialista em comércio exterior Joseph Tutundjian acha que a economia está entrando num período que os americanos chamam de stop and see, de esperar para ver o que vai acontecer com a mudança de governo.
— Os seis primeiros meses do ano que vem serão de estudos. Se a política econômica não sofrer mudança para pior, os investimentos voltarão gradativamente