terça-feira, novembro 16, 2010

Arriscando, voluntários revelam a vida na Coreia do Norte

Claudia Sarmento, O Globo

Num país onde ninguém pode dizer o que quer e, muito menos, fotografar o que gostaria, qualquer relato sobre o cotidiano de um povo totalmente isolado vale ouro. Se vier acompanhado de fotos e vídeos, melhor ainda, mas para isso é preciso arriscar a vida.

É o que seis norte-coreanos - treinados por um grupo de jornalistas asiáticos - vêm tentando fazer para que o mundo saiba o que acontece por trás da muralha erguida pela ditadura comunista de Pyongyang.

Trabalhando em segredo e condições precárias, esses repórteres já conseguiram enviar para além das fronteiras militarizadas entrevistas e imagens que mostram um lugar onde, apesar da repressão, mudanças estão acontecendo, conduzidas por cidadãos comuns, cansados de depender de um Estado falido.

Baseada em Tóquio, a ONG Asiapress, que apoia a liberdade de imprensa em países da Ásia onde a mídia sofre censura, conseguiu formar o pequeno time de norte-coreanos e os ensinou a usar câmeras, computadores e celulares disfarçados.

Os "agentes secretos" - suas identidades são protegidas - só conseguem encontrar a organização na fronteira com a China no máximo três vezes por ano, quando repassam o que registraram. O material, editado em Tóquio, vem sendo publicado na revista "Rimjin-gang" (nome do rio que cruza a zona desmilitarizada) e está correndo o mundo, revelando uma Coreia bem diferente das imagens oficiais de paradas militares e operários sorridentes.

Os jornalistas estrangeiros que pisam em território norte-coreano só podem circular com guias, na verdade agentes oficiais, e poucos saem da capital.

Os repórteres, que vêm sendo recrutados desde 2004, conseguem driblar essa barreira e o resultado é um retrato inédito tanto do abandono das áreas rurais quanto de uma economia de mercado em expansão nas cidades.

Uma das imagens mais impressionantes, gravada na província de Pyongan, no sul, mostra o que o ditador Kim Jong-il jamais admitiria: gente que não tem o que comer, nem onde dormir.

Com uma câmera, o repórter conversa com uma sem-teto de 23 anos, mas que aparenta 13. Exausta, ela caminha lentamente por uma plantação. Ele pergunta sobre seus pais, e ela conta que morreram. "O que você come?", insiste. A moça responde: "Nada".