terça-feira, novembro 16, 2010

'Não vai faltar chocolate no Brasil'

Marco Túlio Pires, Veja online

Pesquisador brasileiro afasta futuro sombrio desenhado em estudo britânico e aposta que uma variedade de cacau barata e resistente a doenças pode dar ao Brasil a autossuficiência em dez anos

(Jupiterimages)

"Nossa expectativa é de que em 10 anos sejamos autossuficientes em cacau e possamos exportar o que sobrar das 300.000 toneladas que produziremos por ano utilizando as novas plantas" — Mário Tavares, coordenador do Ceplac.

Um estudo da Associação de Pesquisa do Cacau da Inglaterra divulgado esta semana previu um futuro sombrio: em até 20 anos, o cacau se tornará escasso, e o chocolate, uma rara iguaria. Até lá, porém, o setor brasileiro espera recuperar a boa forma e devolver ao país o posto de um dos maiores produtores de cacau do mundo. "Não vai faltar chocolate no Brasil", garante Mário Tavares, coordenador da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), órgão ligado ao Ministério da Agricultura. A aposta é uma muda de cacaueiro barata, altamente produtiva e resistente a fungos, capaz de contornar os obstáculos previstos pelos pesquisadores britânicos.

Há 21 anos, o Brasil era o segundo maior produtor de cacau do mundo. Mas um fungo chamado Moniliophtora perniciosa, causador de uma praga conhecida como vassoura-de-bruxa, atingiu de forma agressiva as árvores e fez com que a participação do Brasil no mercado mundial de cacau caísse de 14% para apenas 4%. De 400.000 toneladas, a produção brasileira caiu para 114.000 toneladas por ano. O fungo chegou a afetar 90% da produtividade de algumas lavouras e parte do setor ainda está endividado por causa dos prejuízos do início da década de 1990. O país hoje precisa importar. Das 200.000 toneladas consumidas no ano passado, 80.000 (40%) foram importadas, segundo Henrique Almeida, presidente da Associação de Produtores de Cacau do Brasil.

Apesar de a produção brasileira ter diminuído consideravelmente, o consumo de chocolate no mundo aumenta a uma taxa de 3% a 5% ao ano, segundo Almeida. Mas os números devem ser analisados com cuidado. Apenas em Xangai, na China, o consumo de chocolate fino aumenta 25% ao ano. O cacau dobrou de preço nos últimos seis anos justamente pela crise que afetou grandes produtores, como o Brasil. “Há 10 anos a tonelada do cacau custava 700 dólares, e hoje ela pode chegar a 3.100 dólares”, diz Almeida.

A busca do cacau perfeito - O Ceplac foi criado em 1957 e atua nos seis estados produtores de cacau: Bahia, Espírito Santo, Pará, Amazonas, Rondônia e Mato Grosso. Realiza pesquisas com grandes empresas para desenvolver o cacau perfeito. Tavares explica que o órgão possui fazendas de pesquisa em parceria com grandes empresas de alimentos, como a Cargill, Mars e Nestlé. Juntos, os pesquisadores conseguiram desenvolver plantas de cacau de alta produtividade e resistentes à vassoura-de-bruxa. “Selecionamos as plantas através de várias gerações sem recorrer a alternativas transgênicas”. As plantas já estão disponíveis para os produtores. Na Bahia, existe uma biofábrica que vende mudas das plantas de alta produtividade por 40 centavos. Os produtores podem ainda optar por cultivar as mudas dentro da própria fazenda. “Hoje, a grande maioria dos produtores já está fazendo isso”, diz.

O objetivo do Ceplac é devolver ao Brasil o status de segundo maior produtor de cacau do mundo até 2020. “Nossa expectativa é de que em 10 anos sejamos autossuficientes em cacau e até possamos exportar o que sobrar das 300.000 toneladas que produziremos por ano, utilizando as novas plantas”. Mas para que isso aconteça, a Ceplac reconhece que muitos obstáculos precisam ser ultrapassados. O aumento nos preços dos insumos agrícolas e a falta de crédito para o agricultor dificultam o envolvimento de investidores.