sexta-feira, dezembro 10, 2010

Estamos Chocados, Chocados com a Jogatina Diplomática

Caio Blinder, Veja.com

Salah Malkawi/Getty
A serpente e o rei Abdullah 
Existe corrupção no Brasil de Lula ou no Afeganistão de Karzai. Estamos chocados, chocados. mas a não ser que apareça boiando alguma novidade realmente podre, será preciso esperar o vazamento de alguns memorandos secretos da diplomacia americana sobre os vazamentos para termos uma noção mais precisa dos embaraços e danos provocados pela pirataria eletrônica do site WikiLeaks. O site está jogando no ventilador global 250 mil documentos supostamente confidenciais. Em princípio, sobrou para todo mundo: os EUA, seus aliados e seus inimigos.

Como disse o historiador britânico Timothy Garton Ash, o vazamento é um pesadelo para o diplomata e um sonho para o historiador. Material que levaria 20 ou 30 anos para ser desclassificado ou descoberto está aí na praça digital. Alguns dos despachos vazados foram enviados há 30 semanas. Trata-se literalmente do rascunho da história. A rigor, a versão do diplomata. E mais a rigor ainda, o Departamento de Estado não é o centro decisório vital na diplomacia americana. Estes centros estão na Casa Branca, Pentágono e Congresso. Portanto, todo cuidado é pouco com o WikiLeaks e o diplomata.

O fundador do WikiLeaks, o australiano Julian Assange, é um vândalo autopromocional mascarado de cruzado moral (sobre o qual pesam acusações na Suécia de envolvimento em estupro e que está sendo procurado pela Interpol). Faz uma pregação anarquista sobre o direito do público à informação privada. Em algumas situações, como em documentos vazados sobre as guerras do Iraque e Afeganistão, ele presta algum serviço de utilidade pública, mas sua agenda essencial é vilipendiar os EUA, um país contra o qual ele trava sua guerra pessoal. Assange detesta os EUA e o que o país representa. Para ele, a diplomacia americana é essencialmente criminosa.

Existem atos criminosos na política externa de qualquer país e o zelo governista (qualquer governo) pelo segredo nem sempre é justificado, mas nem toda informação diplomática deve pertencer ao domínio público. Não é à toa que a secretária de Estado, Hillary Clinton, num momento de leveza na sua ofensiva para conter o estrago, disse numa entrevista à imprensa ter escutado o seguinte de um diplomata estrangeiro: você não imagina o se fala de você nos nossos memorandos secretos

Aliás, seria interessante se o WikiLeaks tivessse tanta sofreguidão para vazar material dos inimigos dos EUA, mas é mais difícil, pois outras diplomacias não são tão pornográficas como o Departamento de Estado que permite o acesso de centenas de milhares de pessoal ao seu fluxo de informações confidenciais (o que agora está temporariamente restringido). Assange e sua turma, porém, são engenhosos. As especulações são de que as ambições do WikiLeaks são profundas e mais globais. Entre seus próximos alvos, estariam um grande banco americano e a liderança da Rússia (país conhecido pela próspera corrupção).

Claro que para nós, voyeurs, é uma uma delícia de espetáculo, embora para quem circule nos meios da intriga internacional nem tudo é tão espetacular assim: Vladimir Putin e Dmitri Medvedev são Batman e Robin, Silvio Bercusloni é vaidoso e ineficaz, Nicolas Sarkozy é o imperador sem roupas, o líbio Muamar Khadafi (aquele que anda com a enfermeira ucraniana) é um sujeito estranho e o ex-secretário-geral do Itamarati, Samuel Pinheiro Guimarães, odeia os americanos (não adianta negar, ministro Nelson Jobim). Estamos chocados, chocados.

Nas tratativas diplomáticas, existe duplicidade. Verdade? Estamos chocados, chocados, como o capitão Renault, do filme Casablanca, quando informado que havia jogatina no clube Rick’s. Mas qual é o contexto da duplicidade e da jogatina? Sabia-se que nos bastidores, em contraste ao que falam em público, dirigentes árabes exortavam os EUA a atacarem as instalações nucleares iranianas. Ainda assim, impressiona a ênfase nas conversas privadas, com declarações do rei Abdullah, da Arábia Saudita, de que é “preciso cortar a cabeça da serpente” ou do príncipe do Abu Dhabi, Muhammad bin Zayed, de que Mahmoud Ahmadinejad é Hitler.

Estes líderes árabes parecem Benjamin Netanyahu na hora do papo privado. É um conforto saber da merecida e péssima reputação de Ahmadinejad (não que estes detratores nas sombras sejam gente fina). No entanto, como este pessoal vai se comportar caso ocorra ataque? E como é uma conversa privada do rei Abdullah com Ahmadinejad? É muito difícil montar o quebra-cabeça, quando tudo é espalhado no ventilador do WikiLeaks, embora jornais tenham tido a pretensão de editar o material.

Aliás, existe também o relato da conversa do secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, com o ex-ministro da Defesa francês, Hervé Morin, sobre um possível ataque israelense contra o Irã. Gates diz que uma ação militar apenas adiaria os planos iranianos de um a três anos, enquanto unificaria o povo iraniano contra o atacante. De onde vem esta certeza de Gates? Esqueça as intrigas e fofocas. Afinal, qual é a política americana para o Irã? Esta é a questão fundamental. Temos líderes árabes e israelenses exasperados, enquanto o leal soldado Gates coloca panos quentes e desconversa.

Os vazamentos do Wikileaks são uma festa para nossos olhos (for our eyes, only, somente os de todos nós), mas o que eles realmente revelam além de boas fofocas e perceptivas reportagens politicas escritas por diplomatas? Pensando melhor, meu caro historiador Timothy Garton Ash, talvez precisemos esperar muitos anos para entender o que está ou não está acontecendo agora.