Folha De São Paulo - Editorial
Na primeira entrevista que concedeu logo após a vitória na disputa presidencial, Dilma Rousseff já havia ensaiado mudança de enfoque na política externa brasileira ao classificar como "bárbara" a ameaça de apedrejamento que pesa contra a iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani.
A declaração voltou-se agora, de maneira explícita, contra uma decisão do Itamaraty. Em entrevista publicada pelo diário "The Washington Post", a presidente eleita disse discordar do voto do governo brasileiro, que se absteve de apoiar uma resolução da ONU condenando violações de direitos humanos no Irã.
"Não concordo com a forma como o Brasil votou", disse Dilma, em inédita divergência pública com diretrizes do governo Lula.
A presidente eleita tem razão ao sugerir uma correção de rumos. O Itamaraty acumula um histórico de intervenções seletivas e politizadas no campo dos direitos humanos, em geral marcadas pelo interesse de contrapor-se ao peso dos EUA na ONU.
Um dos setores mais bem preparados do Estado brasileiro, o Itamaraty acerta em seus objetivos de zelar pela independência diplomática e conquistar maior influência para o país nos rumos da política internacional - mas não raro erra no tom e no método para alcançá-los.
Equivoca-se, por exemplo, ao alimentar conflitos desnecessários com os EUA - país com o qual temos um contencioso amplo, que, mesmo sem a "ajuda" atabalhoada de nossa diplomacia, só tende a crescer com o maior peso comercial e político do Brasil.
O governo brasileiro não deve se relacionar com o norte-americano de maneira subalterna. Mas não pode sacrificar o zelo pelos direitos humanos em nome de um antiamericanismo sistemático.
São auspiciosos os sinais de que a nova presidente pretende promover correções de rumos na política externa, uma área que se torna cada vez mais relevante para o desenvolvimento do país.