Míriam Leitão – O Globo
Conversei de manhã com fontes do mercado e também do Banco Central. Com o anúncio das novas medidas, o BC resolveu optar por medidas muito técnicas. Não são medidas que afetam diretamente as pessoas. Os bancos, hoje, estão com muitas posições, que eles chamam de posições vendidas no dólar. Ou seja, eles operam tanto no mercado à vista, vendendo dólar, quanto no mercado futuro. Então, eles vendem dólar que ainda não têm. Isso se chama exposição cambial.
Os bancos estavam aumentando muito essa exposição cambial, que significa apostar que o dólar iria cair mais. E aí eles transformavam essa profecia em realidade: o dólar caía mais por causa exatamente dessas posições. Isso aumentava muito o risco que os bancos estavam correndo e que a própria economia estava correndo.
O que o Banco Central fez é o seguinte: os bancos terão de recolher ao BC uma parte do que eles estão negociando no mercado de câmbio. Por meio do mercado bancário, evita-se a queda excessiva do dólar. É o que os especialistas chamam de medidas macroprudenciais, porque não só tentam segurar o dólar como também tentam evitar que os bancos assumam nesse momento riscos grandes.
Já houve um momento, em 2008, em que bancos e empresas estavam apostando demais na queda do dólar e aí houve uma reversão, e eles tiveram dificuldades. Algumas empresas quebraram, e o Banco Central precisou acudir com venda de dólar.
Existem bancos médios e bancos grandes operando no mercado de câmbio. Por prudência, eles têm um limite estabelecido internacionalmente de exposição de moeda estrangeira em relação ao capital do banco. O que o Banco Central está fazendo é o equilíbrio ser mais apertado.
Isso pode parecer complicado, mas o fato é que o governo tenta evitar que o dólar caia demais. Por isso, está usando medidas bem na relação entre o Banco Central e bancos para tentar evitar tanto que a economia corra riscos quanto que o dólar caia de forma artificial – e ele já está caindo muito.
Não são medidas rígidas. A medida rígida seria a quarentena, decisão tomada por outros governos, que é obrigar todo dólar que entra a passar um tempo no Banco Central. Essa medida, por enquanto, foi deixada de lado.