sexta-feira, janeiro 07, 2011

A próxima aula é sobre dinheiro

Comentando a Notícia

Sob o título acima, texto de Marcos Coronato, a Revista Época publicou um artigo que dá no que pensar em relação ao ensino no Brasil. Não faz muito, publicamos aqui artigos e comentários sobre projetos de lei que circulam no Congresso – e com risco real de serem aprovados – sobre uma longa fileira de disciplinas que se pretendem empurrar nos currículos escolares. Há absurdos de todos os tipos e para todos os gostos.

Ora, nos recentes resultados das avaliações feitas em alunos brasileiros pelo PISA, a colocação foi vergonhosa. Vamos mal em – prestem atenção! – ciências, leitura e matemática. Convenhamos que isto é ou deveria ser o básico que se espera de uma escola que se considere minimamente competente e de qualidade razoável: isto é, que ensine os seus alunos a lerem e fazerem operações aritméticas simples. É básico e elementar.

Pois bem, neste quesito sabemos que o país vai de mal a pior. Como o governo atual é incompetente para qualificar o ensino básico e fundamental, então tenta fazer de conta que está preocupado. E o que faz? Remunera melhor os professores ? Não, porque vai quebrar as prefeituras e os governos estaduais – como se estes já não nos esfolassem o bolso justamente em nome de melhor educação, saúde, segurança, esta coisas “irrelevantes” que fazem a obrigação maior dos governantes sérios. Qualifica melhor os professores? Não, porque isto leva tempo e custo muito.

Assim, criam-se mecanismos artificiais para fazer de conta que o Estado, em todos os seus níveis, está interessado em fazer mais e melhor, quando na verdade, o que se vê, é uma forma de enganar a sociedade para que o povo permaneça analfabeto uma vez que o propósito é torná-lo massa de manobra principalmente eleitoral. Uma destas pantomimas é a tal da progressão continuada, ou seja, aprovam-se os alunos bons e maus. Um engana trouxa sem pé nem cabeça e de duvidosos resultados.

Assim, tome aula de “educação financeira”, coisa que, sabemos, é uma das primeiras lições que os pais ensinam a seus filhos, ainda qunado crianças. A outra é saber ler as horas. Ou seja, já que o governo não consegue fazer com um mínimo de competência a sua parte, se intromete onde não é chamado para exercer uma função que não lhe compete, tentando exibir para a sociedade de que está fazendo alguma coisa de útil. Ironia: tentando ser útil pratica inutilidades. É uma aberração!

Seria até o caso de se perguntar: já que o governo está tão preocupado em ensinar os jovens a lidar com dinheiro (arre!), quem ensinará ao governo a gastar melhor o dinheiro público? E quem ensinará, ainda, o governo a ensinar?

Segue o texto da Revista Época. Seria cômico se não fosse trágico.

As escolas públicas começam a ministrar educação financeira. Isso ajudará os alunos?


Estudantes no Desafio Bovespa, um programa educativo da Bolsa.
Incluir finanças no currículo ajudará a formar alunos melhores?

Administrar um clube diurno para vampiros exige dedicação. O proprietário precisa atrair clientes, gastar menos do que ganha e guardar dinheiro para o futuro – lembrando que a vida de um vampiro pode ser muito, muito longa. Ensinar crianças a lidar com dinheiro também exige dedicação e muita, muita criatividade, como a demonstrada no jogo de vampiros Bite Nightclub (“Clube da Mordida”). Ele foi desenvolvido nos Estados Unidos e apresentado numa conferência de educação financeira em novembro. Por lá, prossegue um agitado debate público sobre como preparar os americanos para uma vida financeira mais saudável, mas sem soterrar os alunos e professores com conceitos chatíssimos. Pelo menos 15 dos 50 estados decidiram levar esse tipo de conteúdo para as escolas. O governo brasileiro acredita que o país está pronto para dar esse passo: um decreto presidencial baixado em dezembro institui uma Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef).

O primeiro efeito prático da medida será treinar professores de 440 escolas públicas em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Distrito Federal, Ceará e Tocantins, em 2011. Se esse programa-piloto funcionar a contento, a educação financeira poderá se difundir pelo ensino fundamental a partir de 2012. Pelo plano atual, o tema será abordado nas aulas já existentes, e não como uma nova disciplina – como já acontece com saúde, meio ambiente, diversidade cultural e orientação sexual. Mas isso dá certo?

A preocupação com o analfabetismo financeiro tem razão de ser. Em novembro, subiu 7,7% a inadimplência dos brasileiros com lojas e prestadores de serviços. Entre outros dados preocupantes, 87% das famílias não poupam para o futuro, 82% dos consumidores não atentam para as taxas de juros ao contratar empréstimos, 25% enfrentam restrições na praça para conseguir crédito e apenas 8% dos investidores aplicam em ações, segundo pesquisas diversas, aceitas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM, o órgão que supervisiona o mercado de capitais e coordenou a formulação da Enef). Mesmo assim, a falta de intimidade do brasileiro com a economia empalidece diante de uma outra constatação: a escola pública mal consegue ensinar o conteúdo tradicional.

Os alunos não aprendem a ler, escrever e fazer operações matemáticas de maneira aceitável, o que colocou o país num vergonhoso 53º lugar entre 65 países no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). “Se o Estado ensinasse as crianças a ler bem, a ler o mundo, elas estariam mais preparadas para tudo, inclusive lidar com dinheiro”, diz Cássia D’Aquino, especialista no tema e representante no Brasil do Programa Global para Educação Financeira, uma iniciativa multinacional voltada a populações de baixa renda.

O brasileiro poderia ter uma vida melhor e mais feliz se aprendesse a evitar dívidas, poupar e investir melhor. O Brasil tem um banco de iniciativas criativas no campo do ensino de finanças, como o Desafio Bovespa, que desde 2006 ensina alunos do nível médio a investir. Os adolescentes aprendem primeiro em aulas teóricas, depois investindo dinheiro virtual em ações. Em 2010, a vencedora foi uma escola estadual da capital paulista, a Antonio Lisboa. Bons professores certamente poderão colocar temas como “finanças” e “planejamento de longo prazo” a serviço do ensino de matemática e outras disciplinas, para tornar suas aulas mais animadas e conectadas à vida real – mas, para isso, precisarão do treinamento correto e de definições mais claras sobre o conteúdo. No debate atual, o rótulo “educação financeira” vem abrigando temas tão díspares quanto ética, uso de impostos por parte do governo e impacto ambiental do consumismo.

Essas pendências terão de ser resolvidas durante o programa-piloto iniciado em agosto. Ele envolverá cerca de 880 escolas – 440 receberão o novo conteúdo e 440 não o receberão, a fim de servir como grupo de controle, para comparação de resultados. O governo encomendou a impressão de mais de 60 mil livros de educação financeira para alunos e professores. Espera-se que essa não seja uma lição sobre mau uso do dinheiro público, e que uma mudança no currículo, mesmo se for opcional para as escolas, sirva para formar alunos melhores, e não apenas para que o governo gaste com novos livros e consultores.

O que as escolas vão ensinar sobre dinheiro
O que ensinar a crianças e adolescentes sobre dinheiro? Talvez a tomar boas decisões como consumidores – evitar os excessos e ficar dentro de suas possibilidades. Ou, talvez, a pensar no futuro e poupar para a aposentadoria. Ou, ainda, a entender como funciona a economia do país, o recolhimento e uso dos impostos, a atuação dos bancos, as diferenças entre os serviços financeiros, os comportamentos perigosos ao lidar com finanças, a corrupção, a ética nas transações financeiras, o empreendedorismo, o impacto do consumismo no meio ambiente... a lista pode se estender muito, e todos os assuntos nela incluídos são importantes. Mas os educadores precisarão deixá-la mais concisa se quiserem mesmo que haja algum efeito com a inclusão da educação financeira no currículo escolar. O tema deverá ser adotado no ensino fundamental na rede pública em 2012. Um decreto presidencial (7.397) de 23 de dezembro institui a Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef), que pretende alcançar também adultos. O tema não será abordado numa disciplina, e sim de maneira transversal, em disciplinas já existentes. Mesmo assim, vai consumir recursos e atenção de escolas e professores. “Há uma pressão enorme para incluir no currículo mais disciplinas e mais temas transversais, enquanto o conteúdo tradicional não é dado de forma adequada”, diz Daniel Cara, coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação. O governo precisará organizar os esforços para que “educação financeira” não seja apenas um rótulo vago para um apanhado de assuntos pouco conectados entre si e muito proselitismo antimercado nas escolas.

O texto do decreto anuncia, de modo razoavelmente claro, os objetivos de “promover a educação financeira e previdenciária e contribuir para o fortalecimento da cidadania, a eficiência e solidez do sistema financeiro nacional e a tomada de decisões conscientes por parte dos consumidores”. Com essa definição, e lembrando que temas como meio ambiente já fazem parte da matriz curricular, seria possível definir uma lista coesa de novos tópicos a abordar nas escolas.

O trabalho, porém, não será tão fácil. A iniciativa teve forte participação de entidades do mercado financeiro – bancos, Anbima (que reúne empresas do setor), BM&FBovespa, Banco Central, Superintendência Nacional de Previdência Complementar, Superintendência de Seguros Privados e a Comissão de Valores Mobiliários, que coordenou os trabalhos. Os profissionais dessa área esperam que o conteúdo tenha um forte componente de finanças pessoais, ou seja, de capacitação dos jovens para que eles lidem melhor com dinheiro na prática. Já entre educadores, a expectativa é um pouco diferente. “A ideia ao longo do debate era incluir ‘educação fiscal’, tratar de como e por que o Estado arrecada impostos e que serviços públicos ele tem de prestar”, afirma Daniel Cara. Em uma apresentação feita em Brasília, o educador financeiro Álvaro Modernell listou, entre os tópicos a incluir na educação financeira, outro pontos ainda mais amplos – a ética nos relacionamentos, a rejeição à corrupção, a consciência ambiental e a responsabilidade social, todos extremamente relevantes, mas não necessariamente relacionados à saúde financeira do dia a dia.

Há os que propõem uma visão conciliadora, como Luiz Calado, autor de livros de educação financeira, que participou dos debates nos últimos dois anos como representante da antiga Anbid (entidade que representava os bancos de investimento). “Educação financeira não é só número. É entender comportamentos, expectativas de vida, a dinâmica da sociedade”, afirma. “E os professores podem usar a parte de matemática financeira para dar mais sentido prático às aulas de matemática”.

O debate deverá avançar ao longo de 2011, com o projeto-piloto em andamento em cerca de 440 escolas de São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Minas Gerais, Ceará e Tocantins (outras 440 escolas que não terão educação financeira serão usadas como referência para os resultados obtidos). A formulação de políticas de educação financeira para toda a população vem sendo fortemente incentivada pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, entidade que reúne os países mais ricos do mundo). Nações como Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, França, Japão e Espanha definiram suas estratégias, mas a obrigatoriedade do ensino nas escolas não é uma tendência global. A Holanda preferiu, até o momento, deixar as escolas livres para abordar o tema como quiserem. Sander Verban, consultor sênior do Ministério das Finanças holandês, explicou o motivo numa passagem pelo Brasil, no fim de 2009: no momento, eles preferem se concentrar em melhorar o ensino de matemática e língua. Eis uma mensagem valiosa.