terça-feira, janeiro 04, 2011

O circo de horrores do ministério

Adelson Elias Vasconcellos

Depois do discurso de posse, eivado de boas intenções – resta saber se elas serão praticadas ou não –, o primeiro dia útil do novo governo foi marcado por um verdadeiro circo de horrores e pouco racionalismo. Começo pelo último. Vem do novo presidente do Banco Central e da Ministra do Planejamento esta pouca dose de juízo. O primeiro foi ousado ao propor rever, para baixo, a meta de inflação, no que está absolutamente correto. E a segunda, afirmou que é preciso fazer mais com menos. É o óbvio, após oito anos de irresponsabilidade e falta de compromissos sérios, onde apenas se buscava a manutenção do poder como prioridade número um. Fora estes dois, daí prá frente, o que se viu e ouviu foi um verdadeiro desastre, através de declarações estúpidas e a confirmação de algumas imbecilidades que já havíamos antecipado de que ocorreriam.

Então, vamos por partes. Várias vezes alertei aqui que o senhor Lula não mexia na economia, não porque concordasse ou discordasse das reformas implementadas por FHC. Não o fazia por pura covardia: temia que, se mexesse, desarrumaria a casa toda e as conquistas da estabilidade econômica fossem para o brejo. Claro, em consequência, todo aquele discurso mistificador e vigarista não faria sentido algum, e sequer ele chegaria à aprovação que chegou – segundo os institutos de pesquisa contratados -, e dona Dilma estaria hoje a cuidar de afazeres domésticos ou, numa hipóteses provável, empoleirada no governo do Tarso Genro, no Rio de Grande do Sul.

O discurso de Alexandre Tombini, sucessor de Henrique Meirelles, no BC, faz sentido. É preciso ousar, querer mais, avançar, do que ficar acomodado numa situação que se é confortável por um lado, por outro, não leva o país a lugar algum. Porém, para que as metas de inflação anual caiam à metade, que é o se pratica mundo afora, será preciso rever alguns conceitos vigentes no elenco de gastos do governo federal.

Quando Miriam Belchior, do Planejamento, afirma que é possível fazer mais com menos, bate na tecla certa. Primeiro, pelo volume que o governo federal arrecada de impostos, e dado que o país mantém uma certa rota regular de seu crescimento econômico, não são recursos que faltam. Falta, primeiro, eleger prioridades que beneficiem diretamente o país, e não apenas aos gigolôs políticos. Segundo, falta responsabilidade no uso que se faz com o dinheiro público. Menos esbanjamento já seria ótimo, mas também, menos festinhas e ostentação já garantiriam boa economia, além de se impregnar no serviço público a ideia de uso racional de recursos. O que ali se desperdiça é uma fábula. Falta comprometimento com a seriedade.

Se for mesmo este o espírito que irá vigorar doravante, então podemos apostar em avanços e progressos. Contudo, o que se ouviu foi o discurso, resta agora colocar em prática o prometido.

Mas daí prá frente, santo Deus!, se já no discurso inicial na posse de alguns ministros o que se assistiu foi um festival de sandices, o que se pode esperar da ação destes mesmos senhores e senhoras? Chega a dar dó ouvir de um Garibaldi Alves a confissão de que não está preparado e não tem nenhuma ligação ou experiência com a área - Previdência Social - que irá comandar que, como ele próprio reconheceu, se trata de um verdadeiro abacaxi. Eu até diria: é uma verdadeira bomba relógio. Esta, aliás, foi uma das muitas questões que Lula não quis tocar. Como já afirmei, uniu a covardia, pelo preço político que certamente pagaria, com a incompetência.

De outra parte, vemos um Fernando Pimentel anunciando que a questão cambial precisa ser focada com urgência. Pergunta: quem dará o primeiro passo, ele, ou o senhor Guido Mantega? E se for, como tem sido o Ministro da Fazenda, então, a coisa periga fugir mais ao controle. Tivemos , em 2010, o menor saldo da balança comercial nos últimos oito anos. Apesar do crescimento das exportações, graças às matérias primas, as importações cresceram de forma assustadora. Ouvi de alguém que há um dado positivo neste crescimento das importações: a de que estamos trazendo novas tecnologias que acrescentarão maior produtividade ao mercado interno, tornando nossos produtos mais competitivos no futuro. Pergunta: do total importado, quanto representa mesmo em “novas tecnologias”? Ora, sabendo que mais de 90% dos importados são para consumo direto, e conhecendo-se as inúmeras empresas que estão fechando plantas e se transferindo para outros países, onde está o tal benefício aventado?

Como o ministro da Fazenda é o mesmo, e por várias vezes tomou medidas para conter a supervalorização da nossa moeda, por que, na prática, tais medidas tem se mostrado pífias em termos de resultados? Quanto tempo mais o senhor Mantega irá esperar para agir de forma decisiva na questão cambial? Vai esperar o quê para agir, que mais fábricas fechem, que mais empregos sejam exportados?

Mas o circo dos horrores teve outros momentos tenebrosos: na tal Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial cujo nome já é uma aberração, a senhora Luiza Helena de Barros afirmou que quer “consolidar a cidadania negra”. Primeiro: não existem cidadanias derivadas de cor da pele. Existem uma cidadania brasileira, e isto é uma garantia constitucional, independente da cor ou do sexo. Negros, pardos, brancos, vermelhos, mestiços, seja já quem for, sendo brasileiro, tem a garantia legal prevista de ser cidadão BRASILEIRO. Não é preciso criar política específica para atender gêneros humanos derivados da cor, do sexo, da política, da religião. O que esta ou aquela minoria precisa é de um estado atuante oferecendo melhor qualidade dos serviços públicos. Isto já seria, por si só, garantidor de que todos são considerados iguais perante a lei, conforme a própria LEI determina. Como bem lembrou o jornalista Carlos Alberto Sardenberg, quem cria igualdades ou desigualdades é o estado, através de suas políticas tortas ou corretas. -

Depois, tivemos o senhor Mercadante, o pai da lei do irrevogável revogável, numa declaração estúpida, onde apagou do mapa planetário um país chamado Austrália.

Depois, a deputada petista Maria do Rosário, daa Secretaria de Direitos Humanos, pedindo ao Congresso que aprove a formação da Comissão da Verdade e defendendo "o reconhecimento da responsabilidade do Estado pelas graves violações de direitos humanos com vista a não repetição do ocorrido". Esta pedra já havia cantado ontem: a esquerda quer porque quer, rever a história apenas em seu favor. Quer vingar a morte de quatrocentos, esquecendo das dezenas de vítimas inocentes que matou, quer se dizer defensora das liberdades democráticas, quando seu desejo era substituir uma ditadura de direta por outra de esquerda. Quer apagar da história a sua vergonhosa omissão nos fatos que, efetivamente puseram fim ao regime militar. E se a cretinice ainda fosse pouca, quer dar aos “censores” da história, a serem escolhidos por eles, é claro, o nome de COMISSÃO DA VERDADE. E a verdadeira história das esquerdas naquele período, quem irá contar um dia?

E, neste clima, chegamos à senhora Ideli Salvati que, ao que parece, transformará o ministério que comandará, num palco de pugilato, bem ao estilo estúpido com que se comportava nas CPIs que investigavam – ou tentavam ao menos – os crimes cometidos pelo governo Lula. Mas, apesar da bravata e da ação brutalizada, não conseguiu convencer de que tenha algum conhecimento mínimo da pasta que comandará. Que, aliás, serviu-lhe como prêmio de consolação pela surra que tomou no eleitorado de seu estado.

Aos dois primeiros que destaquei lá no alto, acrescentaria apenas o nome do senhor Antonio Palocci, apesar do golpe que aplicou num mero caseiro. Os demais, que dona Dilma me desculpe, não têm a menor competência técnica para estarem onde estão. O ministério que Lula montou para ela governar, a depender dos discursos que vimos, darão muitas dores de cabeça para a presidente. Empossada até com uma certa expectativa favorável, Dilma precisará contornar dificuldades internas bastante delicadas para enquadrar a tropa a um estilo menos antagônico com o bom senso, com a lógica e com a verdade.

E não se deve louvar muito a tal maioria Congressual. A montagem do Ministério já abriu algumas áreas de atrito entre PT e PMDB, cujos resultados negativos serão conhecidos já nos primeiros dias da nova legislatura. Agora, na montagem dos quadros que ocuparão os cargos do segundo e terceiro escalões, novos ressentimentos e atritos estão se desenhando. E já está claro que a escolha do cara das Relações Institucionais, não vai acrescentar coisa alguma. A revolta do PMDB é tão grande que ontem o partido boicotou as cerimônias de transmissão de cargo dos ministros petistas Alexandre Padilha (Saúde), Luiz Sérgio (Relações Institucionais) e Fernando Pimentel (Desenvolvimento, Indústria e Comércio) e Dilma precisou convocar o bombeiro mor da república, Antonio Pallocci, para tentar conter o incêndio. Ocorre que a fome de poder tanto do PT quanto do PMDB são maiores do que o próprio país. Para esta gente não existe missão a cumprir e, sim, privilégios a serem usufruídos. Não lhes ocorre que devem estar à serviço de um projeto de país. Para eles, é o poder pelo poder.

Convenhamos, com um começo assim, este circo de horrores ainda queima a lona que o abriga.

EM TEMPO: Avisem à turma da oposição que o governo Dilma já começou. Está passando da hora deles começarem a respeitar os votos que receberam nas urnas e fazerem o que lhes compete, isto é, O-P-O-S-I-Ç-Ã-O. Esperam o quê, afinal?