Adelson Elias Vasconcellos
Vejam a foto acima: é Romário, em pleno dia e hora de expediente do Congresso, para o qual foi eleito deputado federal, e a centenas de quilômetros de distância do seu local de trabalho, jogando um despretensioso futevôlei, no Rio de Janeiro. Se uma imagem vale por dez mil palavras, a foto acima é bem a representação da degradação dos costumes políticos no Brasil.
A quem devemos recriminar, Romário ou aqueles que o elegeram? Antes, porém, também é de se indagar se Romário teria alguma coisa a dizer como deputado federal, ou por outra, dado o seu currículo como profissional, quem poderia esperar atitude diferente dele como político?
Claro que Romário é um irresponsável. Antes, como jogador, não foram poucas as vezes em que faltou a treinamentos para fazer a mesma coisa. Como esperar que, sendo político, agiria de forma diferente? Ninguém muda por decreto.
Por outro lado, não sendo mais uma criança, e sabendo qual a importância do cargo no qual foi investido, não estaria na hora do sujeito tomar outro rumo na vida?
Caso como o de Romário, nem foi o primeiro, tampouco será o último. A vida política no Brasil nunca foi encarada como uma atividade nobre, em que alguém vai dedicar alguns anos de sua vida para prestar um serviço à comunidade. Sempre foi vista e encarada como o caminho mais curto para se “dar bem”. Um meio de fazer seu pé de meia, ajudar os parentes, conseguir bocas ricas, verdadeiras mamatas onde se ganha muito para não se fazer coisa alguma.
E não apenas os políticos são culpados, ou meio culpados. O povo brasileiro, em uma grande maioria, pensa a mesma coisa, faria exatamente a mesma bandalheira, e isto, ainda no ano passado, tivemos uma pesquisa para comprovar. Com efeito, as pessoas que lá estão saíram do meio de nós, são iguais a nós, pensam e agem da mesma forma.
Há como se dar jeito neste putedo todo? Sim, e o caminho é via educação. E, neste quesito, a gente sabe, a educação brasileira sempre esteve abaixo da crítica. Em todos os sentidos. Não, efetivamente, interesse em tornar o cidadão mais consciente, mais instruído, mais crítico, não e tão cedo não vai haver. Quanto pior a ralé que se eleja para o Congresso, mais fácil manobrar a máquina pública em favor de uns poucos.
Até aqueles que poderiam mudar o quadro, fazem questão de deixar tudo como está, apesar de nos discursos demonstrarem o contrário. Exemplo disto, foi a vigarice perpetrada nesta semana em relação a tal distribuição de medicamentos para diabéticos e hipertensos. Trata-se de uma lei com mais de quatro anos que nunca foi aplicada pelo governo Lula e que agora Dilma resolveu arrotar como novidade, com direito a discurso e solenidade no Planalto. A exceção de uns poucos blogs, onde você, leitor, encontrou esta informação? Qual grande site da imprensa transmitiu a informação correta? Infelizmente nenhum, e ainda encontramos inúmeros comentaristas elogiando a “medida” da Dilma Presidente.
Olhem o Congresso deste início de nova legislatura. A preocupação de dez em cada dez parlamentares é correrem atrás de cargos nos escalões de governo, brigarem por mais privilégios, brigarem por se alojarem nos gabinetes mais importantes, em aumentar o imenso cabedal de benesses. Qual deles de fato demonstrou alguma preocupação com a saúde, educação, segurança pública, infraestrutura, saneamento, áreas abaixo da crítica e que infelicitam a população que os elegeu?
Tiririca que me perdoe, mas se dá para piorar, e o pior é que dá, o congresso brasileiro sempre encontrará um fundo do poço mais fundo ainda. Não há limites para sua falta de vergonha, sempre encontram espaço para serem mais imorais e indecentes.
E o que é pior: você olha para um lado, para outro, e não vê solução nem remédio para estancar este mal. Não no curto e médio prazos. Parte da elite econômica e intelectual poderia levantar bandeiras, liderar movimentos, mas ela não está preocupada com o resto do país. Seu foco diz respeito também somente aquilo que os afeta. Esta parte da sociedade somente tomará alguma iniciativa a partir do momento em que, a parte para a qual fazem questão de ignorar a existência, começar a incomodar sua tranquilidade e mexer em seus espaços. Oxalá dê tempo de recuperar o terreno perdido.
