Alexandre Schwartsman
Ainda outra dica de um outro amigo. Quem for checar a apresentação do nosso bravo ministro vai achar a seguinte afirmação: "IPCA acumulado em 12 meses estaria em 4,76% sem combustíveis e alimentos"
Eu já explorei esta questão aqui e não vou aborrecê-los com este assunto novamente (mentira minha, como vocês sabem: até parece que algum dia eu vou poupá-los das minhas obsessões). O legal da história é o seguinte.
Para chegar a este número, quem quer que seja que tenha montado esta apresentação simplesmente deduziu da inflação cheia a contribuição de alimentação no domicílio (isto é, a inflação de alimentação multiplicada pelo seu peso) e a contribuição dos combustíveis. Se P é a inflação cheia, a conta foi:
Px = P - (Alimentação x peso alimentação) - (Combustíveis x peso combustíveis)
Ou seja, produziu um índice cuja soma dos pesos não alcança 100% (fica perto de 80%). A forma correta entre economistas alfabetizados requer que o índice acima seja reponderado (isto é, dividido por aproximadamente 0,80 no caso) para que os pesos voltem a somar 100%. Matematicamente:
Pxx = Px/(100% - peso alimentação - peso combustíveis)
Esta medida mostra quanto subiram, em média, os demais preços da economia. A média ponderada destes preços, combustíveis e alimentos deve gerar o IPCA.
Além da barbaridade acima descrita, alguém se esqueceu de avisar que a inflação obedece às regras da juro composto (isto é, se os preços sobem 10% num mês e 10% no mês seguinte, os 10% do segundo mês incidem sobre o que ocorreu no primeiro). De fato, se somarmos o índice mensal (errado) calculado pela Fazenda, achamos 4,76% nos últimos 12 meses. Se acumularmos como se deve, já chegaria a 4,86%.
Enfim, usando o índice correto e geometricamente acumulado calculamos que a inflação em 12 meses sem alimentos e combustíveis está em... 6,08%! (Até março; se usarmos o IPCA-15 de abril vai a 6,19%). A inflação cheia até março era 6,30%...
Abaixo está a decomposição da contribuição da inflação preparada pela Fazenda.
E no slide seguinte a brilhante conclusão (quem somar as barras irá encontrar 4,76% nos últimos 12 meses)
Que os conhecimentos de Economia são parcos, a gente já sabia. Mas que não sabem sequer calcular uma média ponderada, bom, é quase uma surpresa.

