Adelson Elias Vasconcellos
Vimos aqui na semana passada a fábula de vigarices que se comete, por todo o país, sob a tutela do tal PROUNI. Aliás, não foi por falta de aviso. Desde que Lula se apropriou da ideia e, como sempre, a utilizou para fins unicamente eleitoreiros, sem ter a menor preocupação quanto a qualidade e os benefícios do programa, além, é claro, de manter estreita fiscalização para que o mesmo não fosse deturpado e fraudado, sempre se disse aqui que o país estava gastando dinheiro bom em programa ruim.
Aquela plataforma de lançamento de programas em que se converteu o governo Lula, jamais teve a preocupação de atingir outros objetivos que não os eleitorais. Não por outro razão, a maioria simplesmente naufragou e ficou pelo caminho. Mesmo aqueles que Dilma procura dar continuidade, o que não lhes falta é o vício com que foram concebidos: garantir o curral eleitoral.
Pois bem: neste domingo que passou, novas fraudes vieram a público e o senhor Haddad já anuncia medidas novas para tentar corrigr a prática antiga de corrupção e desvios. Contudo, nenhuma medida será suficiente se, diante das fraudes antigas, não se buscar punir exemplarmente os vigaristas, além da ação de reembolsar o Tesouro Nacional do dinheiro desviado ou mal aplicado.
Mas a reportagem que realmente mais indignação causou foi sobre a merenda escolar, se é que aquilo que estão servindo nas escolas públicas pode-se chamar de “merenda”. Porcos são mais bem alimentados do que nossas crianças.
Vejam o seguinte: quando determinada prefeitura deixa de prestar contas do dinheiro recebido, quem é que acaba punido? Justamente a vítima, ou seja os estudantes. Para punir a prefeitura inadimplente, o governo federal suspende o repasse de verbas que terá, como consequência, a suspensão da merenda escolar na rede pública de ensino daquele município. Já disse aqui bem recentemente: por que não suspende ou retém o salário do prefeito e dos vereadores e secretários municipais, com o bloqueio de bens? Por que são os estudantes que sofrem ou devem sofrer as consequências do mau administrador público?
E agora, conforme a Rede Globo mostrou, vemos em que condições miseráveis a mereda é preparada e a qualidade péssima com que é servida. Não basta esta palhaçada de se exibir o cardápio para fazer de conta de que está tudo bem. É preciso fiscalizar, é preciso checar se de fato o que está sendo dito e prometido, está sendo cumprido.
Quando se chega a tal situação de desleixo e descaso, alguém pode acreditar quando nossos governantes declaram em suas plataformas ou discursos, ser a educação uma prioridade máxima de suas atuações? Mentira, vigarice, mistificação, embromação.
E se tudo isso ainda fosse pouco, a mesma Rede Globo, no Jornal Nacional desta semana, vem apresentando uma série de reportagens sobre a má qualidade do ensino Brasil em seus diferentes níveis. Vejam lá: uma das principais causas pela altíssima evasão escolar, principalmente, no ensino médio, é por absoluta falta de professores. Viu-se uma aluna assumindo o papel que deveria estar entregue a um profissional do ensino. Na terça-feira, um aluno deixava de ir à aula, porque o diretor lhe pediu para servir de porteiro da escola. É o fim da picada!!!
Na reportagem de ontem sobre o ensino médio, vimos que a falta de professores tem sido uma das grandes razões para a evasão escolar chegar a incríveis e absurdos 50% no ensino médio. Pois bem: a quem compete contratar, pagar e manter os professores na rede pública? Ao Estado, e em todos os seus níveis. Por outro lado, questionamos: por que razão, ou melhor, qual a maior razão para que faltem professores nas escolas? Salários baixos e falta de condições materiais para o exercício de sua profissão. E a quem culpar? Simples: o Poder Público. Enquanto no Brasil a preocupação com a educação não for central, enquanto por aqui vamos torrando bilhões na construção de palacetes para abrigar meia dúzia de servidores, enquanto a classe política dedicar-se apenas em alimentar e forrar seus próprios bolsos às custas do sacrifício e miséria do povo, não conseguiremos arrancar boa parte da nação das trevas do atraso e do analfabetismo. As imagens exibidas pela reportagem, que estampam o estado miserável das “refeições” servidas à crianças em todos o país, são revoltantes.
E não pensem que este é um “casinho” de menor importância. Um país rico como o nosso, com imensas possibilidades e oportunidades de desenvolver seu povo como é do conhecimento do mundo inteiro, colocar-se na 56º lugar, dentre 65 países pesquisados e avaliados em termos de qualidade de ensino, é injustificável e vergonhoso. Sabendo que, menos de um terço dos alunos que CONSEGUEM concluir o ensino médio, conseguem ter noções exatas de Língua Portuguesa e ainda menos ainda em Matemática, é atestar que não apenas os governantes, mas o país como um todo, ainda não conseguiu ter consciência precisa e necessária da importância da educação para o futuro do próprio país.
Além disto, sabemos que uma grande parcela de alunos que comparecem à rede pública de ensino, o fazem não pelos conhecimentos que receberão, não pelos valores que lhe serão transmitidos para tornarem-se, no futuro, cidadãos melhores. Lá estão por conta da merenda escolar, por ser a única refeição que terão na volta do dia. Ainda durante a campanha eleitoral em 2010, uma pesquisa que procurou apurar a percepção do país quanto a evolução da qualidade de ensino constatou que, para a imensa maioria, a presença da merenda escolar era tido como fator principal para entenderem que a qualidade de ensino melhorara.
Assim, enquanto a sociedade como um todo permanecer inerte diante da calamidade em que a educação pública se transformou, não haverá meios do país transformar seu povo em rico e desenvolvido. Não há outro caminho, não há plano B, não nos resta alternativa. Por mais tecnologia que se coloque à nossa disposição, seremos ineptos em dela tirar o proveito que se poderia diante da escuridão que o atraso intelectual representa.
É bom que esta tomada de consciência aconteça rapidamente. Conforme o Censo de 2010, o Brasil é um país a caminho do envelhecimento de sua população. E o que se esperar do futuro, com tamanho atraso intelectual? Se nada for feito, ainda nos custará muito caro tanta ignorância e tanto descaso! Bem mais ainda do que a fortuna que já pagamos no presente.
Em tempo: quando você, leitor e leitora, ouvir o governo afirmar, com o seu cinismo habitual, de que a educação é prioridade e que a qualidade do ensino está melhorando, diante das reportagens que seguem abaixo, todas atuais, vocês estão plenamente habilitados a chamá-los de mentirosos. O discurso fala de uma coisa totalmente contrária à nossa realidade.