Sebastião Nery
RIO - Em 1988, depois de um janeiro inteiro de trabalho em Paris e Roma, eu e a namorada espichamos para um inteiro fevereiro na Grécia. O aeroporto de Fumicino, em Roma, como sempre um nervoso porto para o Oriente. Na frente, um árabe com seu turbante. Atrás, um africano com seu camisolão. No meio, eu e a namorada com nosso medo.
Impossível não ter medo naquele final da década de 80. Os aeroportos internacionais da Europa tinham virado campos humanos minados. Todo mundo desconfiando de todo mundo. Sobretudo se o vôo era em direção ao Oriente. Cada um imaginando onde o outro estava escondendo a bomba, a granada, o revolver que daí a pouco poderia explodir, lá no céu, o avião e todos juntos.
As filas
Nós na fila do vôo da Alitalia para Atenas e, ao lado, na fila para Damasco, na Síria, homens com turbantes, barbas cerradas e caras fechadas e mulheres de longos vestidos negros e negros véus na cabeça, A fila deles começou a andar, ficamos todos olhando, calados. O pensamento coletivo boiava indisfarçado no ar. Quantos iranianos haveria ali? E se um fosse terrorista? A centopeia do medo foi andando devagar, desapareceu.
Era nossa vez, nossa fila. O policial do controle pegou o passaporte do árabe do turbante que estava à nossa frente, olhou, esmiuçou, conferiu, constrangedoramente desconfiado. Foi ao computador, dedilhou, esperou, nada constava, deixou passar. Os nossos passaportes ele mal olhou. Só perguntou : - Brasile? Carimbou e passamos.
O africano do camisolão, atrás de nós, empacou. O mesmo ritual da desconfiança. Viraram o passaporte de cabeça para baixo, conferiram tudo, digitaram o computador, nada constava.Mesmo assim não se conformaram. Olharam agressivamente para o rosto negro, árido, meio escalavrado, do africano tenso, mandaram sair da fila, chamaram um chefe, sairam com ele. E a fila se arrastando medrosa.
O apito
Depois do passaporte, outro obstáculo : o controle de bagagens, bolsas, objetos pessoais, o proprio corpo. Veio a pequena passarela com detector de metais, que apita quando flagra. O árabe do turbante passou tranquilo. Não tinha um ninho de metralhadora escondido ali dentro. O africano do camisolão ficara lá com o chefe.
E veio um apito fino, estirado, “piiiiiiii”! Todo mundo olhou. Só podia ser ela, a terrorista. E bem disfarçada. Alta, elegante, cara de italiana, chapéu vermelho italiano, óculos italianos, botas italianas.
Logo apareceram três policiais femininas, olhos aflitos, levaram-na ao lado como se já estivessem acusando : - Abra o jogo e a arma! Não era. Apenas o isqueiro. Entregou, voltou, passou. Sem apito.
O medo do terrorismo tinha virado racismo e paranoia.
O cigarro
Afinal, estávamos na sala de embarque. Chamaram. Fomos de ônibus para o avião, um “Air-bus” da Alitalia, lá longe no campo úmido, na manhã de 10 graus. O ônibus parou, mas ninguem saltou, ninguem entrou. Iamos esperar : - “Houve um pequeno problema”, explicaram os comissarios.
Era ela. Só podia ser ela, a bomba. Estariam tentando desativar.? Embarcamos. Um leve, lindo, macio vôo sobre o azulado mar Adriático. A aeromoça, com enormes óculos redondos, servia vinho para o almoço, quando o comandante pediu atenção:
- Desculpem, mas a partir deste instante é proibido fumar. Apaguem seus cigarros, até que o sinal de proibição também se apague.Uma pequena emergência. Espero que em quinze minutos já voltemos à normalidade.
A bomba
Não havia duvida. Era ela, a bomba terrorista, afinal flagrada e acuada pelos comissários, como uma onça enlouquecida. Acender cigarro era acender a bomba e voar tudo pelos ares. Iam desativar. O murmúrio foi crescendo e absolutamente nada aconteceu.
A aeromoça de óculos redondos deixou comigo uma oportuna garrafa de vinho e logo comecei a ver, lá embaixo, as escarpadas colinas da Grécia, como um chão crespo do céu.
O medo
Não adianta. Obama matou Osama, mas não matou o medo, não desativou a bomba. São dois mundos divididos pelo ódio. Acabou a Guerra Fria dos Estados Unidos com a União Soviética, começou a Guerra Quente do Ocidente com o Oriente, pior porque mais brutal, vingativa e fanática.
Um mundo tem bomba atômica, o outro também tem. Uma banda tem mísseis, a outra também tem. E eles ainda têm turbante e camisolão.