Ariel Palacios
Estadão.com
Pneus, liquidificadores e eletrônicos são “espécies em extinção” nas lojas. Na foto acima, Lívia Stevaux, estudante brasileira que reside na Argentina desde 2006, exibe seu amado ferro de passar roupa e ironiza a sui generis situação criada pelas barreiras do secretário G.Moreno: “o bom das barreiras nas importações é que me fizeram ver meus eletrodomésticos quase como um animal de estimação, que merecem todo o carinho e amor…”. Com o liquidificador não houve jeito. Ele passou desta pra melhor e é impossível encontrar um substituto.
“Não queremos importar nem um prego! Queremos que tudo seja produto argentino!”. Com estas palavras, pronunciadas em dezembro passado, poucos dias antes da posse de seu segundo mandato, a presidente Cristina Kirchner deixou claro que sua cruzada anti-importações era a sério. O governo em peso está mobilizado para blindar as fronteiras da Argentina e evitar o máximo possível a entrada de produtos estrangeiros. Os próprios sócios do Mercosul – entre os quais o Brasil – também foram atingidos pelas barreiras, que violam o espírito de livre comércio do bloco do Cone Sul.
No início deste mês, 40 países, entre os quais os EUA, os integrantes da União Europeia e o México, denunciaram na Organização Mundial do Comércio (OMC) “séria preocupação” pelas barreiras impostas pela Argentina. No entanto, o governo Kirchner não se intimidou com a possibilidade de um isolamento internacional cada vez maior e ressaltou que pretende continuar em sua política comercial.
Segundo o vice-presidente argentino, Amado Boudou, a política protecionista “é útil para todos os argentinos…Não estamos contra as importações. Estamos protegendo a indústria argentina”.
Atualmente são escassos na Argentina pneus importados para ônibus, telefones Blackberry, discos duros para notebooks, peças para aparelhos de tomografia, fraldas (além do gel para fabricá-las), agulhas para extração de sangue de bebês, líquido para revelação de raios-x, máquinas para tratamento de madeiras, peças para câmeras fotográficas, shampoos da marca Pantene, produtos da Nike, Adidas, Lacoste e Zara, além de Levi’s, entre outros produtos.
As facas Tramontina – apreciadas pelos argentinos há mais de duas décadas – também estão em falta. As barreiras para a entrada desse produto levaram a empresa a rescindir o contrato de patrocínio que tinha com o clube River Plate em fevereiro passado.
A falta de produtos gerou um boom de comentários na rede de micro-bloggings Twitter. No hashtag #Falta, os consumidores argentinos reclamam da ausência de diversos produtos nos comércios em todo o país.
ESPÉCIE EM EXTINÇÃO -
Os ferros de passar e os liquidificadores tornaram-se uma espécie em extinção nas lojas de eletrodomésticos na Argentina. Desde dezembro, milhares de argentinos atravessam o rio da Prata para comprar ferros no Uruguai. “Quem tem um ferro deve cuidá-lo como se fosse o vaso de cristal herdado da avó!”, exclama Petrona Aguirre, dona de casa do bairro de Caballito. “Várias amigas cujos ferros quebraram tiveram que comprar de segunda mão”, explica.
Segundo Diego Noriega, diretor da Alamaula.com, companhia do E-Bay, a demanda de eletrodomésticos usados aumentou em 1.200% desde dezembro na Argentina. “Por causa das barreiras na alfândega ferros e liquidificadores tiveram um aumento enorme na demanda. E esta é muito maior que a oferta”.
“Ia trazer um liquidificador do Brasil. Mas, lembrei que a voltagem aqui é 220 e desisti”, relata ao Estado Lívia Stevaux, estudante brasileira que reside na Argentina desde 2006. “Tinha um liquidificador antes, mas acabou quebrando quando fui fazer mousse de maracujá e não travei bem. Resultado: leite condensado por todo o “motor” do coitado. O liquidificador que estou usando agora é emprestado”. Depois, lamenta: “tenho que devolver o aparelho na semana que vem”.
Lívia possui um ferro de passar roupa que cuida com extrema delicadeza. Com ironia, comenta: “o bom das barreiras nas importações é que me fizeram ver meus eletrodomésticos quase como um animal de estimação, que merecem todo o carinho e amor…”.
VITRINES HUMILDES -
Grandes empresas como a Apple e a Sony exibem vitrines humildes, já que os produtos não são liberados nos containers no porto. Um dos casos é a playstation PS Vita, da Sony, empresa que – segundo informações extraoficiais – teve que demitir mais de 50 pessoas no país nas últimas semanas.
Outros produtos eletrônicos também estão padecendo problemas, que levam os consumidores ao desespero ou a resignação. Esse é o caso de Mathias Rothkopf, que disse ao Estado que, por causa da falta de insumos para eletrônicos, teve que vender um computador que não conseguia consertar por falta de peças. “O cara que comprou meu computador estava muito feliz, porque desmancharia a máquina para revender peças que estão faltando no mercado”, explicou. “Computadores usados são um elemento muito apreciado hoje em dia em Buenos Aires, mesmo que não funcionem”.
A vaidade feminina também está em xeque na Argentina, já que faltam diversas linhas de cosméticos, entre eles os da Natura, Mary Kay e Avon. Para evitar problemas, os catálogos somente exibem os produtos que estão em estoque.
Apesar do cenário de escassez, não adianta ficar nervoso. Caso os consumidores angustiem-se com a falta de produtos, deverão fazer o possível para contornar essa situação por conta própria, já que as barreiras de Guillermo Moreno também atingiram a entrada de ansiolíticos como o Rivotril e Lexotan. “O problema é que a produção local de genéricos desses produtos não é suficiente para cobrir a crescente falta de tranquilizantes”, disse ao Estado o diretor de uma empresa farmacêutica em off. “Coincidentemente, alguns laxantes também começam a escassear”, acrescentou com ironia. As barreiras também bloquearam na fronteira produtos eróticos como vibradores e tecidos especiais para lingerie.
A gastronomia japonesa na Argentina também está em colapso, já que praticamente não há salmão disponível para o sushi. “E quando entra, é com aumento de 15%”, explicam fontes do setor.
Aquele ferro de passar da bisavó Henriqueta? Bom, tente reaproveitá-lo…
LOJAS FECHADAS -
O setor de construção civil padece a falta de vários tipos de materiais de encanamento e torneiras. Os vasos sanitários e bidês italianos desapareceram do mercado e os consumidores precisam recorrer ao leque reduzido que a indústria nacional oferece.
O setor vinícola também está em problemas, já que as adegas padecem a falta de peças para as colheitadeiras e produtos químicos para os vinhedos. Perante este cenário, várias empresas vinícolas tiveram que suspender ou atrasar suas vendas ao exterior.
As restrições às importações, com a consequente falta de insumos, estão provocando demissões e fechamentos de comércios em todo o país.
Lojas que abasteciam-se totalmente de produtos provenientes do exterior, como a Barbour, tradicional marca inglesa de jaquetas impermeáveis, languideceram ao longo do último ano. Em março, com as prateleiras quase vazias, a Barbour fechou suas portas em pleno bairro da Recoleta, em Buenos Aires. Outra tradicional marca de roupas, a Daniel Hechter, está a ponto de fechar suas portas na elegante avenida Santa Fe.

