segunda-feira, abril 23, 2012

Com Brics rachado, FMI garante pelo menos US$ 430 bilhões de reforço de caixa


Flávia Barbosa 
O Globo

China e Rússia informaram os valores ao Fundo, mas não os tornaram públicos. Brasil e Índia anunciaram apenas o compromisso em participar do esforço

YURI GRIPAS / REUTERS
Mantega em evento no FMI

WASHINGTON - O Fundo Monetário Internacional (FMI), após reuniões do G-20 (grupo das 20 maiores economias do mundo) e do comitê monetário e financeiro internacional (órgão ministerial máximo da instituição) conseguiu assegurar um reforço de caixa de pelo menos US$ 430 bilhões para futuras ações de contenção de efeitos da crise financeira, por exemplo o socorro a sócios. O Brics (sem África do Sul) rachou, com China e Rússia definindo apoio e valor da contribuição, enquanto Brasil e Índia defenderam que o aporte do grupo só seja anunciada em junho, na reunião de cúpula do G-20. A saída foi intermediária: China e Rússia informaram seus valores ao FMI, mas não os tornaram públicos. Brasil e Índia anunciaram aos demais sócios apenas compromisso em participar do esforço. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, negou que haja divergências.

O racha ficou evidente no primeiro comunicado do FMI após o fim do encontro do G-20. O texto, assinado pela diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde revela que China e Rússia estão no grupo de países que assumiram compromisso de aporte com valor específico, mas não vão torná-lo públicos, e coloca o Brasil e a Índia no grupo das nações que "indicaram que estarão entre os contribuidores". Uma segunda versão, quase imediata, porém, coloca os quatro Brics nesta mesma última categoria.

— Gostaria de cumprimentar publicamente os países que fizeram contribuições para o desenvolvimento desta muralha (firewall) global, ou guarda-chuva global, que é superior a US$ 430 bilhões. Vocês verão que há um pequeno grupo mas de países consideravelmente grandes, que estão participando, mas cujo valor (da contribuição) não foi especificado, porque eles ainda têm que comunicar a decisão em casa e então consolidar (o apoio). Esses países incluem Rússia, Índia, China e Brasil. Nós recebemos formais, suficientes e detalhadas promessas (...) que nos levam a mais de US$ 430 bilhões. Este foi um esforço gigantesco, mas foi uma dinâmica de trabalho extraordinária nos últimos dias — afirmou Lagarde.

Ela agradeceu especialmente à zona do euro, que deu o aporte inicial de US$ 200 bilhões, e ao Japão, que seguiu o anúncio e comprometeu US$ 60 bilhões. Perguntada se estava decepcionada com o Brics, Lagarde sorriu e disse:

— Sabe de uma coisa? Um trilhão de dólares, nós conseguimos. Nós dissemos que queríamos e... — afirmou a diretora-gerente, em referência à combinação dos dois firewalls acertados no último mês: o europeu e o do FMI.

Indagada se a contribuição do Brics, quando vier, não será tardia, Lagarde minimizou:

— Mas eles vão contribuir. Eles indicaram que vão participar.

Mantega negou que tenha havido um racha no Brics e garantiu que os países concordaram em fazer aporte adicional ao FMI mas definir os valores posteriormente, para aguardar avanços na reforma de cotas da instituição. O tamanho do cacife do Brics será anunciado, segundo ele, na reunião de cúpula do G-20 (grupo das 20 maiores economias do mundo), em Los Cabos, no México, em junho.

— Não foi uma reunião difícil —disse Mantega. — A posição do Brics, que foi unânime, foi a de apoiar o pacote de ajuda adicional ao Fundo Monetário. Porém, não divulgamos os valores que vamos colocar. Nós condicionamos esta ajuda a que eles completem as reformas de cotas para que nós, os países emergentes, tenhamos uma representação maior. Isto está no comunicado (final do G-20), então foi conseguido. Também haverá uma fórmula para atribuir às cotas, dando um valor maior ao PIB, ao poderio econômico efetivo dos países. Isso também foi combinado. Também combinamos, China, Rússia, Índia e Brasil, que nós vamos anunciar os valores em Los Cabos, que é em junho. Nós não dissemos ao Fundo porque vamos trabalhar esses valores e vamos continuar negociando com o Fundo para que ele cumpra as condições que estamos estabelecendo.

Mantega negou que o aporte do Brasil esteja definido e que seria de US$ 10 bilhões, como estimaram publicamente representantes da Rússia e fontes anteciparam ao GLOBO ser a ordem de grandeza da contribuição brasileira, repetindo o "empréstimo" de 2009:

— Eu não falei nenhum valor. Não dei nenhum valor.

O Brics quer o compromisso explícito dos países com a conclusão, até outubro deste ano (prazo acordado), da reforma iniciada em 2010 — vários membros ainda não ratificaram as mudanças em seus Congressos, por exemplo os Estados Unidos — e com a construção de uma nova fórmula, exclusivamente apoiada no tamanho das economias no Produto Interno Bruto (PIB) global, para a reforma seguinte, a ser discutida a partir de janeiro de 2013 e implementada um ano depois.

— Isso (o aporte) está sujeito ao cumprimento das condições, continuar com a reforma, as datas da reforma e mudar a fórmula. A fórmula para o PIB — enfatizou Mantega.