Adelson Elias Vasconcellos
Nesta queda de braço entre governo e servidores, estes comandados por seus sindicatos e centrais sindicais, nenhuma das partes tem razão. Nem governo, nem servidores públicos, menos ainda sindicatos e centrais.
Do lado do governo, a cintura estreita, o estopim curto, a insistência em não querer negociar e impor sua agenda, sem ao menos acenar com alguma perspectiva futura, e ainda seu silêncio em relação as condições de se atender ou não as reivindicações, a viagem da presidente à Londres para a abertura dos jogos olímpicos na capital britânica, deixando um duro recado de negar atender qualquer pedido dos grevistas, insistindo que retornassem ao trabalho, sem ao menos ouvi-los e conhecer seus pleitos, e com a greve já prejudicando pessoas e empresas, caminhando para mais de dois meses de paralisação sem uma atitude de requerer na justiça que as mesmas fossem declaradas ilegais, com a garantia adicional de que os serviços ao menos não fossem comprometidos, tudo isso forma o cabedal de atitudes adotadas pelo governo Dilma para contribuir para que a situação chegasse ao ponto em que nos encontramos.
Da parte dos grevistas, há muito para ser esclarecido. Já provamos aqui no blog que os servidores públicos foram a categoria mais beneficiada pela irresponsabilidade fiscal do governo Lula. A diferença, é que lá havia uma economia mundial em franca atuação, a arrecadação federal subia e galopava em crescimentos reais nunca antes alcançados, e muito do que foi concedido superou inflação e crescimento do PIB. Foram aumentos reais muito além da apropria realidade brasileira. Além disto, muitos haverão de se lembrar que, boa parte dos aumentos concedidos, foram dados de forma parcelada e que acabaram no colo do governo posterior a Lula, ou seja, o atual. Em resumo: Dilma ainda está pagando a conta dos aumentos dados no governo Lula.
Se a economia continuasse bombando como em 2010, se a arrecadação federal não estivesse em queda, se os superávits da balança comercial estivessem em franca expansão e não em queda livre como se verifica atualmente, ainda assim, os servidores deveriam ser um pouco mais responsáveis. Explico: é uma total falta de consciência ignorarem que, enquanto 90% dos trabalhadores no país recebem salários que, na média, não superam a três mínimos mensais, alguém achar justo pleitear ganhos mensais representando 20, 30 salários mínimos mensais, sabendo-se que ainda gozam de inúmeras outras vantagens, benefícios e privilégios a que os trabalhadores da iniciativa privada sequer podem contar.
Já afirmei antes e mantenho que não sou contra que servidor público seja bem remunerado. Em absoluto. Porém, há um limite decente para isto. O país não suporta pagar o quanto está sendo pedido. A arrecadação de impostos, já acima do razoável, não pode ser destinada apenas para pagar servidores. Até pelo contrário. Ano após ano, é preciso reconhecer, a qualidade dos serviços públicos vem se deteriorando de forma miserável. Há quantos anos a gente não vê na imprensa uma autoridade federal inaugurando um novo hospital público? E, no entanto, as pessoas estão morrendo ou por falta de leitos hospitalares em quantidade suficiente, ou por falta de profissionais suficientes para dar conta do aumento da própria população. Os investimentos em saneamento público, por exemplo, continuam abaixo da crítica. A violência, com raras exceções, continua aumentando o número de tragédias e vitimando cerca de 50 mil brasileiros por ano. E, mais raros são os estados que tem condições de aumentar seus efetivos de policiamento, por falta de recursos. O sistema carcerário brasileiro é medieval e, no entanto, não são melhorados por absoluta falta de recursos.
Estradas, aeroportos e portos estão exigindo investimentos elevados que vão sendo protelados por absoluta falta de capacidade de investimento do Estado.
Ora, ninguém está pedindo para os servidores ganharem pouco, mas que seus ganhos sejam adequados à capacidade do país em suportá-los. Gostem ou não, são milhares de servidores que recebem por mês muito além do razoável. Meros auxiliares administrativos, com formação de ensino médio, recebem salários superiores a médicos, engenheiros dentre outros profissionais com melhor e maior qualificação.
Há, sim, que se colocar um limite nesta farra e não será chantageando o governo, conforme informou Lauro Jardim, com a divulgação de dossiês, que se chegará a um acordo. Também, não será interrompendo os serviços públicos, trazendo prejuízos para o país, que se encontrará a maneira mais inteligente de se atingir um entendimento. É bom que sindicalistas e centrais tenham em mente que este é ano eleitoral e, quanto mais as greves prejudicarem a população, menor a possibilidade de que petistas sejam eleitos. E são eles que garantem a um bom número de sindicalistas empregos de primeiro mundo.
Se o governo se sente espremido, de um lado, em se obrigar atender as reivindicações por ser ano eleitoral, de outro lado, a população se sente insatisfeita com as greves e pode negar mandato àqueles políticos que sempre estiveram do lado dos grevistas.
Além do mais, há um dado interessante nesta questão que os grevistas deveriam levar em conta: quem paga a conta não está satisfeita nem com o tamanho da conta, tampouco com a qualidade dos serviços pelos quais ela paga e pouco ou nada recebe. Fossem os serviços públicos de excelência, quem sabe. Mas da forma como a população é mal tratada, humilhada, ridicularizada muitas vezes, e até constrangida em muitas das repartições públicas, não há mérito algum em se cobrar por um serviço que não é prestado, ou é pessimamente devolvido à sociedade.
Há, senhores servidores, limites para tudo, e creio não ser este o melhor momento de radicalizar em propostas de aumento e de mais benefícios e privilégios para as suas carreiras. Tampouco o é para o governo negar-se ao diálogo como tem sido praxe do governo Dilma. Não será com berros, com soco na mesa, com radicalizar a ponto de negar a negociação, que haverá entendimento. Mais do que os servidores, tem a presidente Dilma obrigação de buscar a conciliação amigável, sem abrir mão da responsabilidade pelo equilíbrio das contas públicas.
Claro que o governo petista está agora provando de seu próprio veneno. Ele jamais, na oposição, soube avaliar ser viável o atendimento aos pedidos de aumento. Sempre promoveu a bagunça porque, em seu parco entendimento, quanto pior melhor. Agora sente na própria pele o preço de sua atuação, no passado, de exacerbação. Os petistas, na oposição, sabotaram todos os governos após a ditadura. Jamais souberam compreender e relevar situações difíceis. Porém, e porque tem no movimento sindical seu braço de atuação e sua própria origem, reconhecendo que errou nos governos alheios, tem agora a obrigação de buscar o caminho do diálogo para que a sociedade não seja ainda mais prejudicada do que tem sido. Como, também, tem obrigação de exigir dos servidores públicos que tratem com consideração e respeito aqueles que pagam seus salários e privilégios.
Portanto, o momento exige ânimos serenos, cabeças frias, muita negociação e também um pouco de consciência de cada uma das partes. Sem isso, quem perde é o país que, aliás, já está perdendo muito. Se era radicalizar a intenção de Dilma Rousseff, por que esperou mais de dois para chamar a Advocacia geral da União para estudar meios de decretar as greves ilegais e exigir a volta ao batente? Por que seu governo demora tanto tempo para tomar decisões em favor da sociedade?
Portanto, e vale para todas as partes, está na hora de pensarem um pouco no país. O povo brasileiro não precisa passar por isso, tampouco merece que os serviços continuem paralisados.