sexta-feira, agosto 10, 2012

Questões importantes para a presidente refletir


Adelson Elias Vasconcellos

Há situações em que a gente não precisa de muitas palavras para definir a tragédia brasileira que é crescer de forma vigorosa e com certa constância. A história mostra que alternamos anos de excelente índice, com anos sucessivos de baixo crescimento. Se acelerarmos por dois, três anos seguidos, não temos como não desestruturar a economia. Para conter a inflação que seria inevitável, acabamos comprometendo a balança  de comércio internacional, pelo peso excessivo das importações que, precisam, de câmbio favorável para acontecer. Contudo, tal câmbio acaba destruindo a indústria nacional por não ter como competir dado o custo Brasil.

Pois bem, o governo Dilma agora prepara mais um vistoso Pac, o das Concessões, para tentar alavancar o crescimento investindo maciçamente em infraestrutura. Se vai dar certo, só o tempo dirá. Já disse aqui que pacotes deste tipo requerem, primordialmente, regras claras e garantias aos investidores de que seu capital terá respeitado um mínimo de retorno assegurado.

Será este PAC o décimo pacote destinado a injetar vigor ao crescimento do país. Nos nove anteriores, apesar das altas promessas, discursos de que agora vai,   e todo aquele blá-blá-blá vazio, cujo propósito é apenas dourar a pílula, os resultados foram pífios. E foram pífios porque um pacote com o objetivo declarado de impulsionar o crescimento econômico precisa ter começo, meio e fim. E este roteiro só pode ser obtido através de uma rigorosa e detalhada avaliação dos nós que atravancam o país, emperram investimentos e tornam tortuosos os caminhos da produção. E, lamento informar, se nada for melhorado no pacote anunciado para lançamento cerimonioso para a próxima semana, ou até o final de agosto, novamente o governo Dilma vai se decepcionar. 

Assim, temos a primeira pergunta: qual a preguiça que faz com que o governo tema enfrentar os problemas de frente, com coragem, sem ficar mirando nem no IBOPE tampouco no calendário eleitoral?  O lançamento de pacotinhos que buscam apenas beneficiar alguns nichos da economia se mostraram totalmente inconsequentes. E, fica claro, que o governo Dilma assumiu sem ter a menor ideia do que fazer e dos problemas que precisaria enfrentar. Estes intervalos em que se gastam semanas em estudos e avaliações são sintomas a demonstrar esta verdade.  

A outra questão diz respeito às greves do funcionalismo público. A presidente sabia e tinha informações de que as greves tenderiam a se avolumarem a partir de agosto. Não providenciou absolutamente nada para antecipar-se ao problema e evitá-lo. Confiou demasiado na capacidade de negociação do secretário da presidência, Gilberto de Carvalho, para esvaziar os movimentos de paralisação. O resultado é que vemos nas ruas, uma bagunça generalizada.

Ontem, ainda, se anunciava que o governo voltaria a negociar com as centrais a partir da semana que vem. Por que a demora, ou, até quando a presidente imagina que a população pode continuar sendo prejudicada em suas atividades normais, por conta dos movimentos de protestos que infernizam a vida de todos os cidadãos?  Toda a estrutura do Planalto deveria estar mobilizada durante 24 horas para pôr fim às greves uma vez que elas estão impondo um custo absurdo às pessoas e às empresas.  Assim, a Presidente Dilma está esperando o quê para agir, que o povo se mobilize, saia às ruas em passeatas, ou dona Dilma perceba reduzidos seus índices de popularidade? 

Nem a economia, presidente, pode continuar sobrevivendo com pacotinhos a conta gotas, tampouco a sociedade pode continuar sendo martirizada e sacrificada por categorias insensíveis tanto à situação da arrecadação em declínio,  quanto a redução da atividade econômica global. Há categorias de servidores que, tomando-se por base o período dos últimos dezessete anos, ganharam reajustes quatro vezes superiores aos índices de crescimento do PIB, já descontada a inflação. 

As dificuldades enfrentadas pelo Brasil tanto em 2011 quanto nestes primeiros seis meses de 2012, não podem ser justificadas apenas pela crise internacional. Muito destas dificuldades se deve, sobretudo, a falta de ação do próprio governo, conduzido que está por diagnósticos fora da realidade. Entende-se que a herança maldita herdada do governo Lula no plano fiscal, em outros planos também, mas neste principalmente, agravaram-se pela desaceleração da economia mundial. Mas como vimos insistindo até aqui, e tornamos a frisar, a presidente Dilma tinha pleno consciência desta situação e, durante a campanha, mascarou-os o quanto pode, tendo em vista apenas um projeto de poder, ao invés de um projeto de país. 

Assim, seja pela falta de ousadia na área econômica, em deixar de fazer o que precisa ser feito e corrigido, seja no plano do funcionalismo por falta de liderança e até de maior diálogo com os diferentes sindicatos e centrais, o governo não se encontra paralisado apenas por estas duas dificuldades. Mas a falta de ação por falta de um planejamento adequado à realidade, está imobilizando o país como um todo. E este imobilismo, se não desaguarem agora nas eleições municipais, caso a rota não se alterada, tanto Dilma ou outro candidato que o PT venha apresentar no futuro, e acabarão colocando em risco a eleição de 2014. Os sinais negativos vão se acentuando numa velocidade constante, e quanto mais o governo se omitir em tratar de corrigi-los, eles tendem a se converter em perigosa bola de neve a comprometer todo o esforço de crescimento do país. 
  
Portanto, presidente, esqueça a CPI do Cachoeira, esqueça o Mensalão, esqueça o calendário eleitoral. Faça o que precisa ser feito, apoio legislativo seu governo tem de sobra. Expectativa positiva da população não tem faltado. Tenha a coragem de governar o país para o país. O resto, saiba, a própria história acabará lhe fazendo justiça, a mesma história que saberá julgá-la, também, pelo que tiver deixado de realizar. E, neste caso, os frutos terão um gosto muito amargo.