Marina Guimarães, correspondente na Argentina
O Estado de São Paulo
Consultoria estima que, com o atual nível de arrecadação, o déficit financeiro possa ficar acima de 70 bilhões de pesos, em 2012, equivalente a 4% do PIB
BUENOS AIRES - As contas públicas da Argentina mostram crescente deterioração e podem chegar ao final do ano sem superávit primário (arrecadação menos gastos, sem considerar juros e correção monetária das dívidas), segundo estimativas de analistas. Embora o resultado dos primeiros sete meses do ano tenha sido de superávit de 5,42 bilhões de pesos, conforme dados do ministério da Economia, divulgados na sexta-feira, a tendência é negativa. Considerando os 12 bilhões de pesos de recursos que foram transferidos pela previdência e Banco Central ao Tesouro, o déficit financeiro aumentou 13,8 bilhões de pesos, quase 500% mais que os 2,3 bilhões de pesos verificados em igual período de 2011.
Os consultores privados explicam que grande porção do déficit de julho explica-se pelo pagamento dos juros da dívida, que somaram 3,42 bilhões de pesos. As empresas públicas também registram déficit elevado de 260%, que chegou a quase 1 bilhão de pesos, ante 280 milhões de pesos no ano anterior. A consultoria M&S avaliou que, nos primeiros sete meses do ano, o gasto subiu 35%, enquanto a arrecadação aumentou 25%. A estimativa da consultoria é de que, com o atual nível de arrecadação, o déficit financeiro possa ficar acima de 70 bilhões de pesos, em 2012, equivalente a 4% do PIB.
Para o Estudio Bein & Associados, o déficit chegaria a 55 bilhões de pesos, cerca de 2,2% do PIB e 75% acima do resultado de 2011. Somando esse valor ao déficit que as províncias devem registrar neste ano, um valor em torno de mais 30 bilhões de pesos, o déficit consolidado do país chegaria a 85 bilhões de pesos, mais de 3% do PIB. A consultoria Economia & Regiões, por sua vez, aponta um déficit de 2,5% do PIB. O economista Nadín Argañaraz, do Instituto de Argentino de Análise Fiscal (Iaraf), tem projeção de déficit fiscal ainda mais alto: 86 bilhões de pesos.
Porém, os analistas ponderam que o governo poderia receber mais ajuda do Banco Central, já que a reforma de seu estatuto, aprovada em março, abriu caminho para repasses extras da autoridade monetária ao Tesouro. Considerando o nível de reservas atuais, US$ 45 bilhões, a Casa Rosada poderia receber cerca de 15 bilhões de pesos adicionais, o que reduziria o resultado final das contas públicas.
No entanto, qualquer que seja o tamanho da ajuda do BC e da Agência Nacional de Seguridade Social (Anses), o INSS argentino, diferentes exercícios de projeções do Iaraf mostram que o déficit financeiro é inevitável e oscilaria entre 42 bilhões e 63 bilhões de pesos. "Vai depender da trajetória do gasto", observou a consultoria. Considerando que o governo deu início à campanha eleitoral que renovará metade da Câmara dos Deputados e um terço do Senado no próximo ano, a expectativa é que o gasto continue sendo maior que a arrecadação.