sábado, outubro 13, 2012

Você aceitaria se o governo te desse só metade de uma casa?


Marco Prates
Exame.com

Em vez de uma casa pequena, melhor construir metade de uma casa “boa” para ser completada pelo morador. O conceito é do chileno Alejandro Aravena. Daria no Brasil?

Divulgação
Habitação social Quinta Monroy, em Iquique (Chile), 
antes da construção ser completada pelos próprios moradores. 
Projeto é do arquiteto Alejandro Aravena

São Paulo – As casas que você vê acima são exemplos de habitação social no Chile, moradias financiadas pelo governo para a população de baixa renda. Só que, na primeira foto, tem-se o que as autoridades efetivamente construíram; na segunda, são os moradores que, por conta própria, moldaram o restante do espaço.

O conceito é do arquiteto chileno Alejandro Aravena, que causa sensação por onde passa com seu projeto. Foi assim na última semana na capital paulista, quando esteve no evento Arq.Futuro. Os ingressos para sua apresentação se esgotaram.

Trata-se de uma mudança de perspectiva na moradia social: em vez de construir uma casa de apenas 40 metros quadrados, Aravena acredita que é melhor construir metade de uma “boa” casa de 80 metros quadrados.

Tudo com DNA de classe média. Banheiro e quarto, por exemplo, são levemente maiores do que é possível quando se aperta todos os cômodos de uma família em 40 metros quadrados.

Daria certo no Brasil? Aravena tem certeza que sim. Um governo municipal do país já acreditou também. A Prefeitura de São Paulo chamou o arquiteto há 4 anos para planejar um grande condomínio de habitação social em Paraisópolis, famosa favela da capital paulista.

O projeto emperrou por algumas razões, que ele explica na entrevista abaixo concedida à EXAME.com, assim como a razão porque a metade de sua casa "boa" beneficiaria famílias nas favelas brasileiras.

A importância do tema para o país continua inegável: a Caixa Econômica, que gerencia o Minha Casa Minha Vida, calcula que o déficit habitacional no Brasil seja de 9,2 milhões de moradias.

EXAME.com – O que seu projeto de habitação social tem de diferente?
Alejandro Aravena - As restrições existentes em quase todo o mundo apontam que fundos públicos para moradia popular permitem construir casas de 40 metros quadrados. A evidência mostra que uma família de classe média - todos nós - podemos morar razoavelmente bem em 80 metros quadrados. O que o mercado faz quando não tem dinheiro? Reduz o tamanho da casa e faz várias pequenas. Mas o que aconteceria se pensássemos que 40 metros quadrados, em vez de uma casa pequena, é metade de uma boa?

EXAME.com – Mas porque se trata de uma casa boa?
Aravena – Chamamos de DNA da classe média. Todos nós moramos razoavelmente bem em 3x3 de dormitório. Mas 2x2, caso da moradia social do Chile, por exemplo, não é classe média e isso você nunca vai conseguir mudar. Tem partes bem especificas que determinam se essa habitação vai ser para sempre social ou se, com a intervenção individual, poderia atingir esta condição de classe média. A pergunta chave é: qual metade temos que fazer antes de entregar? Fazemos a metade que uma família dificilmente poderá fazer (o que inclui o banheiro, a cozinha, escada e estrutura para os 80 metros, apesar da casa ter 40).

Quinta Monroy, em Iquique (Chile), depois que moradores 
transformaram as casas de 40 metros quadrados para 80

EXAME.com – E qual o grande benefício nesse sistema?
Aravena – Nós identificamos na primeira metade da casa o que é mais apropriado para um lugar. Mas mesmo que errássemos essa primeira metade, como a segunda metade será feita pelas próprias pessoas, essa capacidade de ajustar vai sempre acontecer. Essa é a graça de um sistema aberto: admite a diversidade familiar. Pessoas que têm muitos filhos, pessoas que querem trabalhar em casa ou pessoas que têm parentes que vêm morar junto. É preciso ver que a favela não é só a incapacidade individual de não poder ter moradia. É o contrário. Mesmo não tendo nenhuma ferramenta formal oficial de ajuda, as pessoas conseguem providenciar onde morar. Isso mostra uma enorme energia: em vez de ser restringida, tem que ser canalizada. O recurso mais escasso não é o dinheiro, é a coordenação. O que nós tentamos fazer é esta primeira metade, e deixar depois a iniciativa individual entrar. Dá para ver que as pessoas têm essa capacidade.

EXAME.com – Porque a experiência em São Paulo não deu certo?
Aravena – Na metade do caminho apareceu uma lei, depois de alguns meses já, que dizia que no Brasil você não pode fazer mais do que 55 metros quadrados, caso contrário não se qualifica como moradia social. Nós dissemos que tanto fazia: serão as pessoas e não o dinheiro público que iria atingir os 80 metros quadrados, o “standard” de classe média. Fomos forçados e reduzimos até 55. Ou seja, ainda tinha algum espaço (para se construir). Mas aí uma segunda lei apareceu que cada família não podia fazer mais de 9 metros quadrados. Não sei se era verdade ou não era. O que ficamos sabendo no fim é que grandes companhias construtoras, com grande poder de lobby, não queriam perder grandes contratos. E se você deixa que as pessoas é que construam, serão contratos menores para companhias que seguramente financiam campanhas políticas.

EXAME.com – Mas o custo do seu projeto aqui seria o mesmo dos demais de moradia popular?
Aravena – Exatamente o mesmo. Foi uma condição do projeto que fizemos, ou então não seguiríamos as mesmas regras do jogo, com a replicabilidade do projeto. Nós jogamos com as mesmas regras. O ponto era redefinir o que é qualidade.