Alvaro Gribel e Valéria Maniero
O Globo
A lista de disfunções econômicas da Argentina é enorme: há baixo crescimento, a inflação é alta, mas maquiada pelo governo, faltam dólares e as reservas do Banco Central foram usadas para financiar o Tesouro. Os investimentos estão em queda, a exportação está concentrada em poucos produtos agrícolas e há barreiras para a importação. O governo não tem acesso a crédito externo.
Os empresários não gostam de dar entrevistas porque podem sofrer retaliações do ministro Guillermo Moreno. O economista argentino Juan Barboza, que trabalha no banco brasileiro Itaú BBA, conversou com a coluna sobre os problemas econômicos do país. Ele calcula que a inflação fechará o ano em 25%. Em 2013, deve ficar ainda mais alta.
Para o governo de Cristina Kirchner, a inflação acumulada em 12 meses está em 10,2%. A taxa, na verdade, é manipulada pelo Indec, o instituto oficial de estatísticas, e a melhor maneira de perceber isso é quando olhamos para os aumentos salariais, na casa de 20% a 30%. Os trabalhadores estão repondo o poder de compra que perderam, e não ganhando reajustes exorbitantes.
Em abril, o governo argentino expropriou a petrolífera YPF, da espanhola Repsol. Os investimentos estrangeiros diretos, que já eram poucos, ficaram escassos.
Na semana passada, um juiz americano determinou que o governo argentino pagasse US$ 1,3 bilhão a credores que levaram o calote em 2001 e não aceitaram renegociar a dívida.
Em Gana, uma fragata argentina ficou retida pela Justiça, como forma de indenização.
Ainda hoje os argentinos pagam o preço da moratória. O governo tem dificuldade para se financiar. Os bancos e fundos internacionais não emprestam e esse é um dos motivos para a falta de dólares.
O Banco Central foi obrigado a repassar reservas para o Tesouro. Esses recursos são instrumentos de política monetária, servem para proteger a moeda, e não para financiar gastos públicos.
A alta concentração de exportações em poucos produtos agrícolas agrava a crise cambial. Soja, milho e trigo representam um terço de tudo que se exporta. Se há problemas de safra, as vendas caem e entra menos moeda estrangeira.
Para piorar a situação, continua em vigor a esquisita medida que taxa em 35% os agricultores que exportam.
“Para compreender a Argentina de hoje, é preciso entender mais Freud do que Adam Smith”, resumiu o economista Fabio Giambiagi.