Pedro Marcondes de Moura
Revista IstoÉ
Como vive hoje e qual a situação das empresas do ex-assessor da Presidência, Freud Godoy, que voltou aos holofotes depois das recentes revelações de Marcos Valério
Apesar de ter evitado a imprensa durante a semana,
Freud Godoy tem mantido a rotina profissional
Na casa de dois andares no bairro do Campestre, em Santo André, funcionários tentam trabalhar em ritmo normal na sede da empresa Caso Sistemas de Segurança. A rotina, no entanto, altera-se pelo assédio frequente de jornalistas. Desde a terça-feira 11, eles procuram aquele que é tido como o principal representante da empresa: Freud Godoy, ex-assessor da Presidência da República e considerado uma espécie de faz tudo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os holofotes se viraram para Godoy após o jornal “O Estado de S.Paulo” trazer à tona depoimento prestado pelo publicitário Marcos Valério à Procuradoria-Geral da República em setembro deste ano. Nele, o operador do mensalão, entre outras denúncias, disse ter repassado recursos do esquema criminoso para Freud Godoy custear gastos pessoais do então mandatário do Palácio do Planalto.
Mesmo evitando falar com a imprensa, Freud Godoy tem mantido a rotina profissional. Na quarta-feira 12, ele passou no escritório na região metropolitana de São Paulo pela manhã e depois foi ao encontro de clientes. Na quinta-feira 13, viajou a trabalho para o Rio de Janeiro. Funcionários da Caso Sistemas de Segurança ouvidos por ISTOÉ informam que ele atua como se fosse o proprietário da firma. Situação diferente do que aparece no quadro societário da empresa, em atividade desde junho de 2003, seis meses após a chegada do PT ao Palácio do Planalto. Em 2009, Godoy se desfez oficialmente de sua participação. Na Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp) figuram como sócios sua mulher, a jornalista Simone Messenguer Godoy, como administradora-responsável, e o cunhado Kleber Michel Messenguer.
Ele aparece como sócio apenas de outra companhia: a Caso Comércio e Serviços. O endereço de registro dela na região central de São Paulo, no entanto, fica em um prédio residencial. Porteiro e faxineiro do edifício desconhecem a existência da firma no local. Em referência à empresa, guardam apenas uma carta enviada pela prefeitura, que será devolvida por desconhecerem o destinatário. ISTOÉ também foi ao endereço residencial em Santo André registrado por Godoy na ficha cadastral da empresa e se deparou, no local, não com uma moradia, mas com uma companhia de comércio eletrônico de ingressos.
Em entrevista após a divulgação da reportagem com as acusações de Marcos Valério, o ex-assessor da Presidência da República negou ter recebido verbas do mensalão e ameaçou processá-lo. De forma irônica, declarou ao portal de notícias G1: “Se ele fez esse depósito, eu quero esse dinheiro porque estou precisando para pagar o 13º dos funcionários.” Godoy também frisou que, há seis anos, não se encontra com o presidente Lula, para quem trabalhou como segurança por mais de 20 anos e esteve ao lado na disputa de quatro eleições presidenciais.
A proximidade entre os dois era tamanha que Godoy podia ser visto com frequência no apartamento de Lula em São Bernardo do Campo. Também era ele quem organizava eventos na Granja do Torto, residência oficial durante parte do primeiro mandato do ex-presidente. Em 2006, no entanto, ele acabou pedindo demissão do cargo depois de ser acusado de participar do chamado “escândalo dos aloprados”. Na ocasião, petistas foram acusados de participar da compra de um dossiê contra a candidatura do tucano José Serra ao governo do Estado de São Paulo.
Em 2010, Godoy teve seu nome relacionado a outra polêmica. Investigações deram conta de que, entre 2005 e 2006, a Caso Sistemas de Segurança teria recebido R$ 1,5 milhão da cooperativa habitacional do Sindicato dos Bancários de São Paulo (Bancoop), ligada a integrantes do PT, para fazer segurança armada de obras. A empresa não tinha, porém, habilitação na Polícia Federal para fornecer esse tipo de serviço. Em ambos os casos, ele não foi alvo de indiciamentos.
Se comercialmente Godoy não mantém relações com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o mesmo não pode se dizer do PT. Com cerca de 50 funcionários, a empresa de segurança dirigida por ele recebe aproximadamente R$ 25 mil por mês por trabalhos prestados para a sigla. Em 2010, foi contratada para prestar serviços à campanha da então candidata da legenda ao Palácio do Planalto, Dilma Rousseff. Além de sindicatos ligados à Central Única dos Trabalhadores, possui também em sua carteira de clientes o gabinete do deputado federal Ricardo Berzoini, ex-presidente do Partido dos Trabalhadores. “A minha vida e a vida da minha empresa já foram escancaradas. Já viram cada vírgula pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), pela Receita, pela Polícia Federal, pelo MPF (Ministério Público Federal), declarou Freud Godoy ao G1 na terça-feira 11. “Se tivesse uma vírgula a mais teriam achado”, complementou. A possibilidade de abertura de uma nova investigação para apurar sua ligação com Marcos Valério mostra que o passado insiste em perseguir Freud.
Fotos: J.F.DIORIO/AE; Reprodução

