domingo, dezembro 16, 2012

Lula é, Dilma não é?


Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa

Pode ter sido coincidência, certamente foi, mas não deixa de ser estranho que no espaço de um dia, tanto o Lula quanto Dilma tenham se referido às eleições, depois de dois anos de silêncio absoluto, pelo menos de público. Em Paris, esta semana, o ex-presidente admitiu a hipótese de disputar eleições, mesmo sem dizer quando. Falava a um grupo de empresários, aqueles que não votaram nele “mas jamais ganharam tanto dinheiro como no meu governo”.

A afirmação deu-se num momento difícil para ele, acusado de ter participado do mensalão e às voltas com suposições alegres a respeito de seu relacionamento com uma certa Rosemary Noronha. Enfim, o Lula é candidato, ignorando-se a quê, se a presidente da República, governador de São Paulo ou senador. E sem sabermos, também, se visava 2014 ou 2018.

No dia seguinte, em entrevista ao Le Monde, indagada sobre se disputará a reeleição, pela primeira vez a presidente admitiu falar sobre o tema. Ou não falar, porque respondeu apenas “não ser hora de tratar disso”.

Mesmo sem doutorado em semântica, pode-se concluir que o Lula é candidato e Dilma não é. Hoje, é claro. Amanhã, ela poderá vir a ser, com o entusiasmado respaldo do antecessor, que por mais de uma vez acentuou ser dela a vez, para um segundo mandato. De qualquer forma, e apesar de afirmações cifradas, sente-se uma certa eletricidade percorrendo a distância entre a Europa e o Brasil.

A lógica indica a disputa pela reeleição, por parte de Dilma, com o apoio total do Lula, mas como política não tem lógica, melhor aguardar que os fatos se desenrolem.

QUE ELAS EXISTEM, EXISTEM
Declarando-se contra a corrupção, a presidente Dilma ressalvou ser contra a caça às bruxas. Dizia o espanhol não acreditar nelas, mas que existiam, existiam. Não dá para ignorar as ameaças de Marcos Valério e de Carlinhos Cachoeira, mesmo tendo partido de dois meliantes. Porque fica difícil não visualizar José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares, Valdemar da Costa Netto e tantos outros vestidos de camisolões pretos, com chapéus pontudos e dançando em torno do caldeirão. Apenas, estão sem vassouras, impedidos de voar e de fugir. Impossível condená-los à fogueira, em pleno Século XXI, mas à prisão já foram, restando saber onde.

SEM BARBA
Mohamed II, sultão do Império Otomano, conquistador de Constantinopla, indagado sobre seus planos para a próxima incursão na Europa, respondeu: “se um fio da minha barba soubesse, eu o arrancaria…”

Pois é. O nosso sultão aqui dos trópicos não deixou mais a barba crescer. Não fosse o bigode e poderia estar guardando segredo absoluto sobre seu futuro. Claro que vai reagir diante de suposições e acusações de haver tido conhecimento e até participado do mensalão. Pode ser uma candidatura inesperada ao palácio do Planalto, pode ser a retomada de caravanas do PT por todo o território nacional. Ficar parado em Constantinopla, jamais. É bom lembrar que os turcos, tempos depois, chegaram às portas de Viena, deixando de ocupá-la por obra do destino e de uns cavaleiros poloneses. A surpresa, agora, poderia ser a ação desabrida de umas amazonas búlgaras…

DESTRUIR E CONSTRUIR
Raciocínio malicioso que circula entre os tucanos, no Congresso: “o PT é capaz de destruir governos, mas jamais construirá um”. Porque tanto no mandato do Lula quanto no de Dilma, bem que os companheiros tentaram e ainda tentam demolir as estruturas erigidas pelo torneiro-mecânico e pela guerrilheira.