Alberto Bombig, Leopoldo Mateus e Vinicius Gorczeski
Revista Época
Ex-chefe-de-gabinete da Presidência em SP e ex-diretor da ANA, indiciados pela PF na Operação Porto Seguro, articulavam apoios para candidatura em 2014
(Fotos: Estadão Conteúdo)
Rosemary Nóvoa de Noronha, ex-chefe de gabinete da
Presidência da República em SP; e Paulo Vieira, ex-diretor da ANA
Deflagrada pela Polícia Federal no último dia 23, a Operação Porto Seguro provocou um terremoto nos bastidores do PT paulista, já abalado pela condenação no Supremo Tribunal Federal (STF) de quatro de seus principais líderes por envolvimento no mensalão: José Dirceu,José Genoino, Delúbio Soares e João Paulo Cunha. As investigações sobre o esquema de venda de pareceres técnicos a órgãos federais evidenciaram que os envolvidos no novo escândalo tinham ambiciosas pretensões políticas. Eles contavam com a retaguarda de importantes dirigentes, ligados, inclusive, ao próprio grupo condenado pelo STF.
Os planos políticos de Paulo Rodrigues Vieira, agora ex-diretor da Ana (Agência Nacional de Águas), e de Rosemary Nóvoa de Noronha, ex-chefe de gabinete da Presidência da República em São Paulo, ambos indiciados pela PF na operação, incluíam a montagem de uma rede de apoios nos municípios paulistas a partir de 2013. Com base nesses apoios, eles pretendiam lançar a candidatura de Vieira ao Legislativo em 2014. Essa mesma rede seria responsável pela captação de recursos que bancariam outras candidaturas de petistas e de aliados em todo o Estado. Em caso de sucesso nas urnas, o grupo ganharia força suficiente para se contrapor no PT à corrente que atualmente se forma em torno do prefeito eleito de São Paulo, Fernando Haddad, e quer distância do mensalão.
Vieira e Rose, como Rosemary é conhecida no partido, contavam com o respaldo de alas petistas próximas do ex-ministro José Dirceu, do ex-presidente do PT José Genoino, do deputado federal João Paulo Cunha e do ex-tesoureiro Delúbio Soares. Como mostrou a jornalista Julia Duailibi em seu blog no portal do Estadão, Delúbio manteve um escritório a poucos metros da representação da Presidência da República em São Paulo, onde trabalhava Rose. No ano passado, o ex-tesoureiro foi visto mais de uma vez no prédio. “Ele (Paulo Vieira) falava muito em ser candidato, tinha pretensões eleitorais, chegava a mencionar que estava cotado para ser ministro”, afirmou Vicente Andreu Guillo, chefe de Vieira na ANA. em depoimento no Senado na quinta-feira, 7.
Rose foi assessora de Dirceu durante os anos 1990, quando ele era presidente nacional do partido e se tornou o principal mentor da campanha vitoriosa de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. Conforme relatos de petistas, mesmo após ter sido nomeada pelo próprio Lula para ser assessoria especial do gabinete da Presidência em 2003, ela continuou atuando em parceria com Dirceu em questões relativas ao partido. Neste ano, ela e Vieira ajudaram diversos candidatos do PT e de siglas aliadas a captar doações para as eleições municipais, afirmaram os mesmos dirigentes, especialmente nas regiões metropolitanas do Estado. Em contrapartida, ganharam poder para participar das montagens de governos. Um dos casos relatados pelos petistas à ÉPOCA incluí as cidades de Santos e de Jundiaí.
SANTOS E JUNDIAÍ -
No porto de Santos, onde ocupou a presidência do Conselho Fiscal, Vieira sempre foi conhecido como uma indicação de Rose em parceria com Paulo Frateschi, secretário do PT nacional, e com Danilo de Camargo, ex-presidente da Comissão de Ética do PT, ambos ligados a Dirceu, Delúbio e Genoino. Outro petista que teve cargo no porto e fazia parte do grupo era Jamil Yatim, que foi gerente comercial e superintendente financeiro da Codesp, a empresa federal que administra o porto. Em 2007, Yatim deixou a estatal do porto para ocupar um cargo em outra, a Ceagesp, a principal central de abastecimento da capital paulista, por indicação de João Paulo Cunha e Fratesch.
No mês passado, Yatim foi escolhido para assumir, em janeiro de 2013, o Departamento de Água e Esgotos (DAE) de Jundiaí (SP). Segundo petistas ouvidos por ÉPOCA, ele seria um desses apoios com que o grupo de Vieira contaria em 2014 para seu projeto político. Yatim nega ter sido indicado para o cargo por influência de Paulo Vieira. “Não tinha qualquer contato com o senhor Paulo Vieira, uma vez que, em função das designações do meu cargo (gerente comercial e também superintendente financeiro), não participava das reuniões do Conselho Fiscal”. Documentos aos quais ÉPOCA teve acesso, no entanto, mostram negociações envolvendo Camargo, Vieira e Yatim em torno da empresa Libra, que administrativa terminais no porto.
Yatim não nega sua relação com Paulo Frateschi e Camargo. “Não tenho relação próxima com o senhor Danilo de Camargo, sendo que nos encontramos esporadicamente em duas ou três ocasiões em situações de eventos promovidos pela companhia. Minha relação com o senhor Paulo Frateschi é de amizade, cultivada já há alguns anos.” Ainda segundo ele, sua indicação para cargo foi bancada exclusivamente por Pedro Bigardi (PC do B), prefeito eleito de Jundiaí.
O futuro secretário da Casa Civil de Jundiaí, Zeca Pires, negou que a indicação de Jamil Yatim para o DAE do município tenha sido chancelada pelos interesses do ex-diretor da ANA Paulo Vieira. “Bigardi não conhece, nunca falou, e eu também não conheço nem nunca troquei uma ideia com ele. Não temos nenhuma relação (com Vieira), e ninguém de fora de Jundiaí fez indicações, apenas os partidos locais”, diz Pires, sobre o primeiro escalão da futura administração. Ele afirma que o nome de Yatim, ex-diretor da Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Guarulhos, autarquia correspondente ao DAE de Jundiaí, surgiu por sua experiência no cargo, durante uma reunião, “naturalmente na conversa, ninguém falou especificamente no nome do Jamil”. Pires diz qinda que Bigardi, posteriormente, analisou seu currículo antes de confirmar a nomeação. Ele também não informou se aliados políticos locais tinham interesse no apadrinhamento de Jamil Yatim no DAE.
