Editorial
O Globo
País caiu em atoleiro no Mercosul e, enfim, percebe-se em Brasília que é preciso buscar aproximação com os EUA, para a assinatura de acordos
Tem sido recorrente a imagem do “transatlântico”, quando se quer dar ideia da dificuldade de mudanças de curso em políticas enraizadas. A diplomacia colocada em prática com a chegada de Lula e PT no Planalto, em 2003, pode ser considerada um desses navios de grande porte, na mesma rota há uma década, guiada pela bússola do antiamericanismo.
Enquanto a economia mundial foi impulsionada pela sincronização histórica de um ciclo de crescimento de todas as grandes economias, com a China na função de rebocador, os novos donos do poder no Brasil podiam se deixar mover por impulsos de ideologias juvenis.
A festa mundial começou a acabar na crise financeira deflagrada a partir de Wall Street em fins de 2008. O planeta recebeu forte choque recessivo, do qual uma das vítimas inevitáveis foi o comércio internacional. Houve e há inexoráveis impactos sobre o Brasil. A dívida externa foi paga — outro fato histórico — graças à demanda chinesa por commodities (minério, soja). Mas as cotações caíram, mercados importadores de manufaturados brasileiros se tornaram mais difíceis, e deficiências do país na competição externa ficaram evidentes.
Chegou o momento de alterar a rota do transatlântico, voltar a águas mais seguras. E há indícios de que em Brasília há quem já se incomode com o emparedamento em que ficou o país ao insistir na visão Norte-Sul do mundo, mesmo depois do fracasso da Rodada de Doha, destinada a liberalizar todo o comércio externo.
Há tempos, países e blocos assinam tratados bilaterais de comércio, enquanto o Brasil fica no atoleiro de um Mercosul em crise e decadente, prisioneiro de uma Argentina em um dos seus piores momentos, em dramático processo de “chavenização”.
Enquanto isso, México, Peru, Colômbia e Chile se lançam na Aliança do Pacífico, próxima dos americanos. Os próprios EUA aceleram negociações para firmar pactos com a União Europeia e asiáticos. Assim, os espaços para exportações brasileiras tendem a se estreitar.
Impossibilitado de assinar acordos bilaterais, por estar no Mercosul, o governo, enfim, se movimenta para buscar alternativas de reaproximação com os Estados Unidos, segundo o jornal “Valor”. O ministro Fernando Pimentel, do Desenvolvimento, quer explorar a possibilidade de acertos formais nas áreas de investimentos, serviços, tributos e transportes.
Os americanos, por sua vez, respondem positivamente ao aceno. Precisa ser apoiada a intenção ministerial, porque não deverá ser fácil mudar esta rota, defendida por gente do próprio governo. Joga-se, agora, o futuro da inserção do país na globalização — será apenas grande fornecedor de commodities aos chineses ou também fará parte de cadeias transnacionais de suprimento e montagem de bens manufaturados do Século XXI.