sexta-feira, março 29, 2013

Declarações de Dilma na África do Sul amarram as mãos do Banco Central no combate à inflação. Mau sinal…


Ricardo Setti
Veja online

(Foto: Alexandre Joe / AFP) 
A presidente Dilma durante sua intervenção em Durban, na África do Sul,
 com Tombini ao fundo: em período eleitoral antecipado, nada de aumentar juros 

Ao assegurar hoje em Durban, na África do Sul, que seu governo não tomará “quaisquer medidas” de combate à inflação que possam “desacelerar o crescimento da economia brasileira” — como, aliás, o crescimento já não estivesse desacelerado –, a presidente Dilma Rousseff, na prática, amarrou as mãos do Banco Central.

Já são conhecidas as intervenções de Dilma em todas as áreas do governo e a utilização das estatais, por seu governo, como forma de jogar a inflação para debaixo do tapete, mesmo em prejuízo das metas e da eficiência das empresas.

Agora, nas declarações feitas a jornalistas durante reunião dos Brics — os maiores países em desenvolvimento e sigla retirada das letras iniciais de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (South Africa, em inglês) –, Dilma esteve a milímetros de dizer, às claras, que não vai permitir que o Banco Central aumente as taxas de juros para conter a inflação, mesmo que, tecnicamente, os especialistas do BC considerem necessária a medida.

Há três anos, a inflação oficial do país tem ficado próxima ao topo da meta de tolerância — 6,5%, que especialistas consideram um teto alto demais para padrões internacionais, mesma coisa que ocorre com o chamado “núcleo da meta”, 4,5%.

No ano passado, o IPCA — índice que mede a inflação oficial — bateu nos 5,84%. Em 2011, fechou exatamente no teto de 6,5%, ultrapassando os 5,91% de 2010.

Com a antecipação do debate sobre a eleição presidencial de 2014 — que só ocorrerá dentro de 19 meses –, parece muito provável que a presidente faça o possível para “segurar” os juros, pressionando o BC que, justiça seja feita, teve mais autonomia operacional durante os oito anos do lulalato.

O então candidato Lula, como parte dos esforços para ganhar a confiança dos investidores e do mercado em plena campanha eleitoral de 2002, chegou a pedir ao hoje ministro da Fazenda, Guido Mantega, que estudasse como funcionam os Bancos Centrais independentes do Reino Unido e da Alemanha. Passou pela cabeça de peças-chaves do lulopetismo adotar a independência do BC em lei, hipótese que depois foi abandonada.

O fato de o presidente do BC sob o então presidente Lula ser uma figura de peso como Henrique Meirelles, ex-presidente mundial do Bank Boston, certamente contribuiu para que a autoridade monetária agisse com mais desenvoltura técnica ao longo de 8 anos. Havia o esforço para baixar os juros, que de fato caíram, mas, sempre que necessário, mantinha-se ou mesmo se elevava as taxas.

Sob Dilma, e com um presidente que é funcionário de carreira do BC, a entidade monetária está visivelmente mais pressionada, por um lado, e não dispõe de um nome com a influência de Meirelles a dirigi-lo, por outro.

Perde a luta, indispensável, contra a inflação — a maior inimiga do poder aquisitivo dos pobres.