terça-feira, abril 02, 2013

VERGONHA: Parque Aquático Júlio Delamare é fechado


Isabela Bastos e Victor Costa 
O Globo

Recém-reformado, complexo esportivo será demolido para obras do Maracanã
Decisão sobre novo destino de atletas de alto desempenho sairá nesta terça-feira
Alunos de escolinhas de projeto social serão atendidos pelo América Futebol Clube

 Isabela Bastos


Alunos dos projetos sociais do Parque Aquático Julio Delamare 
encontram portões fechados nesta segunda-feira 

RIO - O fechamento, nesta segunda, do Parque Aquático Júlio Delamare, no complexo esportivo do Maracanã, impôs uma incógnita ao treinamento de 40 atletas de alto desempenho de esportes aquáticos no Rio. A três anos dos Jogos Olímpicos Rio 2016, esportistas reclamam da falta de decisão sobre onde passarão a treinar. A interdição do local para obras de modernização do Maracanã também pegou de surpresa parte dos nove mil alunos do projeto sócio-esportivo Rio 2016, da Secretaria de estado de Esporte e Lazer. Quem procurou o Júlio Delamare encontrou portões fechados. Seguranças encaminhavam os alunos ao América Futebol Clube, na Tijuca.

Com um bronze no Pan de Guadalajara 2011 e três participações olímpicas, o brasiliense César Castro treinava no Júlio Delamare há quatro anos. Morador de Botafogo, ele é um dos principais nomes nos Saltos Ornamentais. Agora não sabe onde vai seguir treinando:

— É difícil de acreditar. Com as olimpíadas, pensei que as instalações esportivas iriam se multiplicar. Mas está acontecendo o contrário. E enquanto o mundo inteiro caminha para a sustentabilidade, o Delamare será destruído para dar lugar a um estacionamento.

Moradora do bairro da Abolição, na Zona Norte do Rio, a doméstica Marlene Machareth da Rosa saiu de casa para levar o filho André, de 33 anos, que tem distúrbio de comportamento, para a aula de natação, como costumava fazer há 15 anos. Mas encontrou um cadeado no portão do parque aquático:

— Como é que fecham assim, sem dar um comunicado? Havia um boato de que ia acabar. Mas nunca tinha acontecido de fato. Agora mandam ir procurar informação em outro canto? A natação faz falta para o meu filho, que precisa de exercício físico.

Somente amanhã, um dia após o fechamento, o secretário de Esporte e Lazer, André Lazaroni, e o presidente da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), Coaracy Nunes, discutirão o destino dos atletas de alto desempenho. Em nota, a secretaria atribuiu a responsabilidade de dar um novo endereço aos nadadores à confederação. Mas informa que o estado está oferecendo dois locais: o Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes (Cefan), na Avenida Brasil, ou o Vasco da Gama. A piscina do Vasco, contudo, está fechada, uma vez que o clube tem dívidas com a Cedae.

A secretaria alega ter informado o fechamento à CBDA, que ocupa salas abaixo das arquibancadas do parque aquático, com antecedência. Na manhã desta segunda, Coaracy, porém, negou. “É mentira. Não mandaram aviso. O que recebi foi um mail na quarta-feira passada. Tive apenas quinta, sexta, sábado e hoje (para sair)”, disse o dirigente ao SportTV. Na semana passada, Coaracy já tinha criticado a demolição. “ Isso é um absurdo. Eu tenho que criticar. É meu dever. Esse parque está novo em folha”.

Quanto aos alunos de natação, hidroginástica, dança de salão, alongamento, capoeira, ginástica, ginástica rítmica desportiva e polo aquático do projeto Rio 2016, o estado confirmou em nota que serão realocados no América.

O Júlio Delamare foi reformado para os Jogos Panamericanos de 2007, quando sediou as competições de pólo aquático. A recuperação custou R$ 10 milhões (valores da época). A demolição do parque aquático e o Célio de Barros constam do edital de concessão do Maracanã e faz parte da engenharia financeira encontrada pelo governo do estado para transformar o Maracanã e o Maracanãzinho num negócio mais atraente para investidores privados, que vão explorar a área por 35 anos. No espaço que ficará vago no Maracanã, serão erguidos bares, restaurante, dois estacionamentos com duas mil vagas e heliponto, que vão gerar rendimentos para a futura concessionária. O resultado da concessão será divulgado pelo governo estadual no próximo dia 11. O vencedor da concessão terá que reconstruir esses equipamentos num terreno do Exército em São Cristóvão.

Em outubro do ano passado, o secretário da Casa Civil, Régis Fitchner disse, em entrevista ao GLOBO, que as instalações do Júlio Delamare e do Célio de Barros só seriam demolidas quando as novas ficassem prontas. Já nesta segunda-feira, o governo estadual informou, em nota, que os prazos serão acordados com o novo concessionário do Maracanã. O parque aquático e o estádio de atletismo eram tombados desde 2002 por decreto do ex-prefeito Cesar Maia. Para viabilizar a concessão, o ato foi revogado pelo prefeito Eduardo Paes. Segundo o estado, a demolição “é necessária para que o futuro Complexo atenda às necessidades de escoamento e circulação de público nos padrões internacionais seguidos por esse tipo de equipamento esportivo”.

As obras do Maracanã também deverão colocar abaixo a Escola Municipal Friedenreich, que fica no entorno do estádio. A escola será transferida para o terreno da Escola Municipal Orsina da Fonseca, na Rua São Francisco Xavier 95, na Tijuca. O estado garantiu que a demolição da Friedenreich somente poderá ser iniciada após a reconstrução da nova escola e a realocação dos 297 alunos.