Sérgio Vieira
O Globo
Nos últimos 30 dias, valor praticado pelos produtores de etanol hidratado caiu cerca de 20%
RIO - A safra de cana-de-açúcar avança para níveis recordes, o governo reduz a alíquota do PIS e da Cofins e aumenta o percentual da mistura do etanol com a gasolina. Mesmo assim, o consumidor praticamente não sente o resultado. Entre abril e maio, o valor praticado pelos produtores de etanol hidratado caiu cerca de 20% e por volta de 7% no caso do anidro (adicionado à gasolina). Mas, nas bombas do Rio de Janeiro, o preço está apenas 0,34% menor até o último dia 18, frente ao dia 21 de abril, segundo pesquisa da Agência Nacional de Petróleo (ANP): o preço médio do litro caiu de R$ 2,345 para R$ 2,337.
Ainda de acordo com a ANP, o preço médio da gasolina no Rio de Janeiro caiu apenas 0,26% entre 21 de abril e 18 de maio, de R$ 3,013 para R$ 3,005. Em São Paulo, a queda média no período foi um pouco maior: 2,74% no caso do etanol (de R$ 1,973 para R$ 1,919), mas de apenas 0,07% na gasolina (de R$ 2,768 para R$ 2,766).
— Os preços do produtor já caíram bastante, estavam em R$ 1,33 por litro e estão em R$ 1,02 por litro. O que a gente observa é que não foi integralmente transferido para os preços na bomba. Existe uma defasagem, e esta queda deve ocorrer nas próximas semanas, o que deve fazer com que o etanol fique mais competitivo com a gasolina em breve — afirma Plínio Mário Nastari, presidente da consultoria Datagro, especializada no setor.
Há um mês, no dia 23 de abril, o governo anunciou que iria desonerar tributos para o setor de etanol com o objetivo de estimular os produtores a investirem mais e aumentarem a produção do combustível. Com isso, o governo deixará de arrecadar R$ 970 milhões em 2013. Por sua vez, no dia 1º de maio, a mistura de etanol com gasolina voltou ao patamar de 25%. A intenção, neste caso, era diminuir a pressão da importação de combustíveis.
Os produtores, embora não digam que estão segurando parte do repasse ao preço do anidro, admitem que estão fazendo caixa.
— O setor vai ofertar 4 bilhões de litros a mais de etanol — aponta Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). — Mais da metade desse montante está contratado para o mercado de etanol anidro, fruto do aumento da mistura com gasolina. Vão sobrar 2 bilhões de litros para o etanol hidratado. O produtor sofreu muito com a temporada passada e ainda recompõe suas margens.
O representante das distribuidoras, Alisio Vaz, presidente executivo do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom), por sua vez, garante que desde o início do mês de maio as distribuidoras já trabalham com valores mais baixos “em função da safra e do efeito favorável da redução dos preços nas usinas”.
— Mas este ainda é um processo em andamento. Vai demorar ainda umas duas semanas para o consumidor sentir diferença. O que eu posso assegurar que o mercado de distribuidoras é bastante competitivo e os repasses vão chegar ao consumidor — diz Alísio. — No caso do Rio, a logística atrapalha porque está a 600 quilômetros das áreas de produção.
Os postos dizem que o preço das distribuidoras ainda não caiu. Manuel Fonseca da Costa, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis (Sindcomb), afirma que a tendência é de queda, mas diz que ainda espera uma diminuição no valor das distribuidoras.
— Deve começar a cair este mês. Assim que o preço diminuir nas distribuidoras essa diferença também será verificada na bomba — afirma Fonseca da Costa.
Vantagem para a gasolina
Especialistas afirmam que em grande parte do país o mais vantajoso ainda é abastecer com gasolina. Para ser mais vantajoso encher o tanque com o biocombustível, é preciso que o preço seja igual ou inferior a 70% do valor da gasolina. Isso porque o rendimento do carro flex é menor quando se utiliza etanol: o veículo faz, em média, sete quilômetros por litro de etanol enquanto com um litro de gasolina faz dez.
Segundo a pesquisadora do Cepea, em todo o Nordeste e no Centro-Oeste, com exceção de Goiás (70,1%), a gasolina continua mais viável ao consumidor. No caso do Rio de Janeiro, a relação está em 77,8%.
— Neste nível de preços, o consumidor só abastece com etanol se for por consciência ecológica — afirma Miriam.
Para o presidente da Datagro, a estimativa é que nas próximas três semanas o preço relativo fique numa faixa de 60% a 65%, tendo como referência o maior mercado, o estado de São Paulo. Para Plínio, no Rio de Janeiro, a relação de preços deve ficar um pouco maior, entre 65% e 70%.
— A gente espera que o preço caia na bomba, mas é difícil saber quanto por conta dos vários intermediários — diz Henrique Koch, analista do BB Investimentos. — A safra de cana recorde por si só, independentemente de qualquer incentivo, já tende a reduzir os preços nas bombas.
Segundo a ANP, os preços do etanol nos postos são competitivos em relação à gasolina apenas no Mato Grosso e em São Paulo.
Desoneração foi bem vista por analistas
O anúncio da redução do PIS-Cofins para o setor foi comemorado por analistas.
— Apesar de os repasses ainda não terem chegado às bombas, a medida é bem-vinda — analisa Miriam Bacchi, professora e pesquisadora da Esalq/USP, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). — Mostra que o governo tem intenção de estimular o setor.
— A safra aumentou, o preço do álcool não está atraente para colocar no flex, mas existe um empenho do governo em permitir que, dependendo da oferta e da demanda, os preços caiam — afirma Pedro Galdi, economista-chefe da SLW Corretora.
Em 2012, o governo havia reduzido o percentual da mistura de 25% para 20% devido à escassez do biocombustível e ao aumento dos preços. Este ano, os produtores já afirmam que estão aptos a atender de forma confortável a demanda por etanol, tanto que do total de cana-de-açúcar colhida desde o início da safra 2013/2014, em março, até 30 de abril, 39,93% destinaram-se à fabricação de açúcar e a maior parte, 60,07%, à produção de etanol.
