Davi Correia e Giancarlo Lepiani
Veja online
Ensaio geral do Mundial de 2014 começa em pouco mais de um mês e todas as sedes ainda têm pendências importantes, principalmente ao redor dos estádios
Custodio Coimbra/Agência O Globo
Rompimento de tubulação abre cratera
bem em frente ao Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro
Em boa parte dos casos, os problemas não estão nas arenas, mas imediatamente ao seu redor: como todos os esforços foram concentrados na missão de erguer os estádios, faltou tempo e planejamento para melhorar o acesso aos locais de jogos e os próprios arredores
Há pouco mais de um ano, quando as obras para a Copa das Confederações ainda estavam muito distantes do fim, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, rejeitou qualquer tipo de preocupação com os atrasos, dizendo que "o brasileiro tem um jeito próprio de organizar e sempre entrega o que precisa". E o jeitinho, de fato, foi a marca brasileira nos preparativos para o torneio, que começa em pouco mais do mês. A Fifa, por exemplo, precisou abrir mão dos prazos originais para entrega dos estádios. Joseph Blatter e Jérôme Valcke não tiveram alternativa: pelo cronograma inicial, nenhum estádio teria ficado pronto a tempo.
Na reta final dos preparativos, já ficou claro que o Brasil deverá ter os seis estádios da competição prontos no dia da abertura, 15 de junho (o mais atrasado é justamente o da primeira partida, em Brasília). Igualmente evidente, no entanto, é o fato de nenhuma das sedes ter conseguido atingir o grau de preparação que se espera do palco de uma Copa. Resultado: por causa da cultura do jeitinho, o Brasil ficará muito mais exposto a possíveis falhas na organização, o que certamente aumentará as dúvidas sobre a chance de sucesso do próprio Mundial, no ano que vem. É uma pena: os grandes eventos esportivos que o país receberá até 2016 seriam uma oportunidade de ouro para aposentar a cultura do improviso e mostrar ao mundo um país mais dinâmico e organizado. É improvável que os visitantes levem essa impressão positiva da sétima maior economia do planeta.
Num intervalo de uma semana, a reportagem do site de VEJA esteve em partidas disputadas em três sedes da Copa das Confederações. Não foi difícil constatar que o cenário ainda não é o ideal - e que o período que falta para o começo da competição não deverá ser o bastante para reduzir o risco de imprevistos e minimizar a margem de erro. Em boa parte dos casos, os problemas não estão nas arenas, mas imediatamente ao seu redor: como todos os esforços foram concentrados na missão de erguer os estádios, faltou tempo e planejamento para melhorar o acesso aos locais de jogos e os próprios arredores. Os aeroportos também continuam recebendo melhorias, assim como os projetos de mobilidade urbana, que miram só em 2014.
Em quatro das seis arenas do torneio deste ano, os estádios reformados ao custo de centenas de milhões de reais são cercados por lamaçais, ruas ainda sem asfalto e vias inadequadas para o grande fluxo de torcedores esperado para os jogos de junho. Apenas o Mineirão, em Belo Horizonte, e a Arena Fonte Nova, em Salvador, têm situação menos problemática - e mesmo essas duas sedes ainda não conseguiram ensaiar um esquema de trânsito e transporte público eficaz para o evento. No evento-teste mais importante para os mineiros, por exemplo, um protesto fechou parte de uma avenida de BH antes do amistoso entre Brasil e Chile. Resultado: caos na chegada ao estádio.
A vulnerabilidade das cidades-sede a problemas aparentemente banais, que podem acontecer em qualquer dia, com ou sem Copa, foi ilustrada também pelas imagens da cratera que surgiu bem em frente ao Maracanã no fim de semana, depois do rompimento de uma tubulação de água. O estádio, remodelado ao custo de cerca de 1 bilhão de reais, está lindo, mas quem passava diante dele no domingo via um rombo gigantesco no chão e operários cobertos de lama. O governo do Rio de Janeiro já promoveu um evento-teste há mais de uma semana- um amistoso, organizado ao custo de 1,6 milhão de reais, entre veteranos liderados por Ronaldo e Bebeto.
A ausência de torcedores comuns não foi uma mera coincidência: com os arredores do estádio ainda mantidos como um grande canteiro de obras, só os trabalhadores envolvidos na reforma foram convidados para a festa. Equipamentos, materiais e entulho ainda ocupam grandes áreas da parte externa do complexo do Maracanã. O parque aquático vizinho ao estádio está parcialmente demolido, à espera de uma ordem judicial que autorize a destruição de todas as instalações. As áreas que cercam o estádio precisam ser entregues à Fifa nas semanas que antecedem o evento, para a montagem das estruturas temporárias que servem convidados, jornalistas e donos de ingressos VIP. Na noite de segunda, o governo cancelou o segundo evento-teste, que serviria de preparação para a estreia com público, em 2 de junho num amistoso entre Brasil e Inglaterra. O Rio não explicou o motivo do cancelamento.
Prova maior de que obra rápida não é necessariamente obra correta está em Fortaleza, que ganhou a corrida informal entre as sedes e foi a primeira cidade a entregar seu estádio, o Castelão, que hoje já está completamente operacional e recebe partidas normalmente. As principais ruas de acesso à bela arena cearense ainda estão em reforma - e, ao que parece, ainda longe da conclusão dos trabalhos. A prefeitura, porém, garante que tudo ficará pronto até 15 de junho. Caso não fique, a experiência do visitante que chegar a uma das principais sedes tanto do torneio deste ano como do Mundial de 2014 pode ser decepcionante. O tempo médio de deslocamento de carro da Avenida Beira Mar, onde ficam os principais hotéis, até o estádio é longo, cerca de 45 minutos. As alternativas de transporte público (o VLT e o metrô) ainda estão sendo finalizados. Se dentro do estádio tudo parece estar em ordem, no lado de fora ainda há lama, tubos de concreto e entulho. De acordo com os relatos dos torcedores, Fortaleza ilustra bem outro aspecto importante da adaptação ao uso dos novos estádios: a necessidade de saber gerenciar essas novíssimas e modernas instalações. O público local reclama da baixa qualidade dos serviços prestados ao torcedor, como a falta de orientação - cada jogo tem um esquema diferente de acesso e venda de ingressos, por exemplo. Melhor mesmo que a Fifa considere a Copa das Confederações um grande ensaio para o Mundial do ano que vem. Afinal, pelo visto, haverá muitas falhas a resolver e muitos improvisos a corrigir.
Copa das Confederações: como estão as 6 cidades-sede
Confira balanço das obras até o fim de abril de 2013 (menos de 2 meses antes da estreia)
Rio de Janeiro
Depois de muitos tropeços e desencontros, a saga do Maracanã parece estar próxima do fim: o estádio enfim foi reaberto para um jogo-teste em abril e está confirmado como palco do amistoso entre Brasil e Inglaterra, no início de junho. Isso não significa, porém, que a novela da reforma não possa ser prolongada - muitos apostam que será necessário realizar novos reparos entre o fim da Copa das Confederações e o início do Mundial de 2014, principalmente no entorno do estádio. O governo nega e garante que o estádio ficará aberto sem interrupções. A disputa entre os consórcios privados que brigam para administrar o novo Maracanã está na reta final, com vantagem para o grupo que conta com o bilionário Eike Batista entre seus sócios. Quem ganhar terá de realizar a demolição dos centros de natação e atletismo que faziam parte do velho complexo. A região, portanto, continuará sendo um canteiro de obras até 2014.
ESTÁDIO: JORNALISTA MÁRIO FILHO (MARACANÃ)
- Capacidade: 79.000 pessoas
- Custo previsto: 705 milhões de reais
- Custo final: 951 milhões de reais
- Aumento de 34,8% no orçamento
- Status: Pronto
MOBILIDADE URBANA
- Custo: 1,9 bilhão de reais
- Principal obra: corredor exclusivo de ônibus entre a Barra da Tijuca e o Aeroporto Antônio Carlos Jobim
- Início: março de 2011
- Previsão de término: fevereiro de 2014
- Status: 48% concluídos
AEROPORTO
- Custo: 844,7 milhões de reais
- Previsão de término: abril de 2014
- Principais obras: reforma de terminais de passageiros e revitalização de pistas e pátios
- Início: 2011
- Status: 30% concluídos
- Taxa de ocupação em 2010: 68%
- Taxa de ocupação prevista para 2014: 68,9%
HOTELARIA
- Número atual de leitos: 45.000
- Recomendação para 2014: 23.700
- Previsão: 53.300
Brasília
Às vésperas da abertura da Copa das Confederações, Brasília vive emoções fortes, e isso não tem nada a ver com a partida Brasil x Japão, marcada para 15 de junho. A cidade corre, isto sim, para fazer os ajustes finais no Estádio Nacional (que todo mundo insiste em chamar de Mané Garrincha, apesar do veto da Fifa, por questões burocráticas), onde o jogo vai acontecer. Falta ainda colocar metade dos assentos e o gramado. Ninguém dá uma explicação razoável para o atraso na reforma da arena erguida em 1974. Adiada três vezes, a inauguração agora está prometida para 18 de maio. O difícil será encher o estádio, com capacidade para 71.000 pessoas: a final do Campeonato Brasiliense de 2012 registrou exatos 970 torcedores pagantes.
ESTÁDIO: NACIONAL
- Capacidade: 71.000 pessoas
- Custo previsto: 696 milhões de reais
- Custo final: 1,3 bilhão de reais
- Aumento de 86,8% no orçamento
- Status: entrega prevista para maio
MOBILIDADE URBANA
- Custo: 103 milhões de reais
- Principal obra: corredor exclusivo para ônibus do aeroporto ao centro
- Início: janeiro de 2013
- Previsão de término: junho de 2014
- Status: em fase inicial
AEROPORTO
- Custo: 750 milhões de reais
- Principais obras: novo pátio, reforma dos terminais e ampliação dos estacionamentos
- Início: outubro de 2012
- Previsão de término: junho de 2014
- Status: em fase inicial
- Taxa de ocupação em 2010: 141%
- Taxa de ocupação prevista para 2014: 115%
HOTELARIA
- Número atual de leitos: 51.000
- Recomendação para 2014: 23.600
- Previsão: 53.000
Belo Horizonte
Com o Mineirão tinindo e o cronograma de obras (uma raridade) em dia, Belo Horizonte tinha no setor hoteleiro seu calcanhar de aquiles — como VEJA registrou em sua edição de julho de 2011. Das menos de 20.000 acomodações existentes, 5.000 foram descartadas da lista de ofertas para a Copa do Mundo por ser consideradas simples demais. Mas nesses quase dois anos a situação se reverteu: o número total de leitos saltou mais de 160%, para os atuais 48.000. E o ritmo não arrefece. Um novo cinco-estrelas e mais treze quatro- estrelas devem ser inaugurados ainda neste ano. A preocupação agora é outra: passada a Copa, quem vai ocupar tantos quartos?
ESTÁDIO: GOVERNADOR MAGALHÃES PINTO (MINEIRÃO)
- Capacidade: 64.000 pessoas
- Custo previsto: 426 milhões de reais
- Custo final: 695 milhões de reais
- Aumento de 63,1% no orçamento
- Status: Pronto
MOBILIDADE URBANA
- Custo: 1,4 bilhão de reais
- Principal obra: corredor exclusivo para ônibus ligando o aeroporto ao centro e ao estádio
- Início: junho de 2010
- Previsão de término: novembro de 2013
- Status: 64% construídos
AEROPORTO
- Custo: 509 milhões de reais
- Principais obras: ampliação do terminal de passageiros e melhorias no acesso ao aeroporto
- Início: setembro de 2011
- Previsão de término: dezembro de 2013
- Status: 25% construídos
- Taxa de ocupação em 2010: 145%
- Taxa de ocupação prevista para 2014: 125%
HOTELARIA
- Número atual de leitos: 48.000
- Recomendação para 2014: 21.400
- Previsão: 71.000
Salvador
O maior legado urbano da Copa do Mundo para Salvador, cidade onde as melhorias de trânsito e infraestrutura prometidas foram minguando, minguando, até quase desaparecer, vai decretar o fim de uma piada pronta. Isso, claro, se acontecer de verdade. Depois de cancelarem de vez o corredor para ônibus que cortaria a cidade — a obra mais ambiciosa do projeto riscado para a Copa de 2014 —, as autoridades prometem que a Linha 1 do metrô soteropolitano, exatos 6,6 quilômetros que estão sendo construídos desde 2000 (isso mesmo, há treze anos), vai ser enfim inaugurada. Uma das estações fica a 700 metros da Arena Fonte Nova, o que facilitará o acesso do público. A prefeitura, no entanto, não vai colher os duvidosos louros. O governo estadual encampou a obra e garante que não só vai pôr a Linha 1 para finalmente funcionar como construirá mais uma nos próximos anos. A população, ressabiada, espera para ver.
ESTÁDIO: ARENA FONTE NOVA
- Capacidade: 55.000 pessoas
- Custo previsto: 591 milhões de reais
- Custo final: 689 milhões de reais
- Aumento de 16,6% no orçamento
- Status: Pronto
MOBILIDADE URBANA
- Custo: 19,6 milhões de reais
- Principal obra: melhorias no acesso ao entorno do estádio
- Início: janeiro de 2012
- Previsão de término: abril de 2013
- Status: 90% construídos
AEROPORTO
- Custo: 140 milhões de reais
- Principal obra: reforma do terminal de passageiros
- Início: janeiro de 2013
- Previsão de término: janeiro de 2014
- Status: 7% construídos
- Taxa de ocupação em 2010: 72%
- Taxa de ocupação prevista para 2014: 105%
HOTELARIA
- Número atual de leitos: 54.000
- Recomendação para 2014: 18.400
- Previsão: 59.000
Recife
A capital pernambucana será uma das mais solicitadas nas duas copas que o Brasil vai sediar. Na Copa das Confederações, receberá três jogos. Entre eles, Espanha x Uruguai, um dos mais aguardados da primeira fase da competição. Na Copa do Mundo, a Arena Pernambuco será palco de outras cinco partidas. Exemplo de cronograma bem executado, seu estádio, que fica na verdade em São Lourenço da Mata, a 19 quilômetros do centro do Recife, está quase pronto, e as obras viárias no entorno, que incluem uma estação de metrô e um terminal de ônibus próximo à arena, devem ser concluídas a tempo ainda da Copa das Confederações. O único temor entre os que acompanham o cronograma é não haver acomodações em número suficiente para alojar todo mundo na Copa de 2014. Nesse caso, o plano é acionar navios transatlânticos para ser usados como hotéis provisórios.
ESTÁDIO: ARENA PERNAMBUCO
- Capacidade: 46.000 pessoas
- Custo previsto: 530 milhões de reais
- Custo final: 532 milhões de reais
- Aumento de 0,39% no orçamento
- Status: entrega prevista para maio
MOBILIDADE URBANA
- Custo: 841 milhões de reais
- Principal obra: via alternativa de acesso ao setor hoteleiro
- Início: abril de 2011
- Previsão de término: abril de 2014
- Status: 50% construídos
AEROPORTO
- Custo: 19,8 milhões de reais
- Principal obra: construção da nova torre de controle
- Início: não começou
- Status: em licitação
- Taxa de ocupação em 2010: 74%
- Taxa de ocupação prevista para 2014: 108,6%
HOTELARIA
- Número atual de leitos: 11.470
- Recomendação para 2014: 15.300
- Previsão: 17.500
Fortaleza
O estádio de Fortaleza, o Arena Castelão, foi o primeiro a ser reinaugurado para a Copa das Confederações, mas as outras obras se arrastam há muito tempo. Só no começo deste ano a prefeitura acordou e decidiu acelerar o passo. Na Copa das Confederações, a cidade estará ainda tomada de tapumes coloridos que tornam invisíveis as obras inacabadas. O principal projeto só sairá do papel bem depois. Em 2014, há promessa de inauguração do mais ambicioso de todos: uma linha de veículo leve sobre trilhos (VLT) entre o centro e o setor hoteleiro. Sorte dos fortalezenses — o VLT foi estrela no plano de outras cidades da Copa, mas a maioria não conseguiu tirá-lo do papel.
ESTÁDIO: CASTELÃO
- Capacidade: 64.000 pessoas
- Custo previsto: 623 milhões de reais
- Final: 518 milhões de reais
- Redução de 16,8% no orçamento
- Status: Pronto
MOBILIDADE URBANA
- Custo: 562 milhões de reais
- Principal obra: sistema de veículo leve sobre trilhos (VLT)
- Início: abril de 2012
- Previsão de término: março de 2014
- Status: 30% construídos
AEROPORTO
- Custo: 196 milhões de reais
- Principal obra: ampliação do terminal de passageiros
- Início: junho de 2012
- Previsão de término: março de 2014
- Status: 12% concluídos
- Taxa de ocupação em 2010: 169%
- Taxa de ocupação prevista para 2014: 124%
HOTELARIA
- Número atual de leitos: 26.370
- Recomendação para 2014: 21.300
- Previsão: 26.370






