terça-feira, julho 30, 2013

4 provas da ONU do abismo entre o norte e sul do Brasil

Marco Prates
Exame.com

O IDHM, da ONU, mediu o grau de desenvolvimento das 5,5 mil cidades brasileiras. O cenário que emerge é da enorme distância entre as regiões Norte e Nordeste do Sul e Sudeste

Divulgação/Prefeitura 
Cidade de Melgaço, Pará, a cidade menos desenvolvida do Brasil, segundo o IDHM, da ONU.
Renda dos moradores é 15 vezes menor que 1ª colocada

São Paulo – O Brasil conseguiu deixar de ser um país de desenvolvimento humano muito baixo para cair na categoria de alto desenvolvimento em apenas 20 anos. A constatação é do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), divulgado hoje pelo Pnud, órgão das Nações Unidas. Mas a rápida evolução esconde ainda um grande fosso entre as regiões do país.

Basta dizer que não há nenhuma cidade no Norte ou Nordeste que seja considerada pela ONU com grau de desenvolvimento muito alto.

No Sul e Sudeste a situação é contrária: nenhum município ganhou cotação de desenvolvimento muito baixa.

Veja abaixo quatro provas, tiradas do relatório da ONU, que mostram que as disparidades ainda são enormes entre as regiões brasileiras, e um verdadeiro desafio para as autoridades:

1 – Só no Norte e Nordeste existem cidades com desenvolvimento “muito baixo”
O IDMH vai de 0 a 1. Quanto mais próximo de 1, melhor. Para chegar a este número, o Pnud considera três subíndices, que também variam de 0 a 1: educação, renda e expectativa de vida.

O resultado disse determina o nível de desenvolvimento de um município:

Muito Baixo
Baixo
Médio
Alto
Muito Alto
IDHM
0 a 0,499
0,5 a 5,999
0,6 a 0,699
0,7 a 0,799
0,8 a 1


A tabela abaixo mostra que cidades de muito alto grau de desenvolvimento são raras no Brasil, assim como as de grau muito baixo.

Região
Muito Baixo (nº de cidades)
Baixo                      (nº de cidades)
Médio               (nº de cidades)
Alto                     (nº de cidades)
Muito Alto                  (nº de cidades)
Norte
18
180
226
25
-
Nordeste
14
1099
647
34
-
Sudeste
-
73
695
871
29
Sul
-
5
400
769
14
Centro Oeste
-
10
265
190
1
Brasil
32
1.367
2.233
1.889
44


O problema é que Norte e Nordeste não apresentam nenhum município cuja educação, renda e qualidade de vida entrem na categoria muito alta. E, juntas, têm 32 cidades na categoria muito baixa.

Centro-Oeste, Sul e Sudeste não têm representantes na escala de menor desenvolvimento, uma categoria na qual o desejável seria que não houvesse mais integrantes no Brasil.
 

São Caetano do Sul (SP), tem o maior IDHM do Brasil: 
apesar dos avanços nos últimos 20 anos, levantamento mostra abismo entre norte e sul do país.


2 – Nível alto domina cidades do Sul e Sudeste
Em termos relativos, Sul e Sudeste têm a maioria de suas cidades com IDHM entre 0,7 e 0,799, o que lhes confere grau alto de desenvolvimento. Abaixo, tabela mostra distribuição em termos percentuais:

Região
Muito Baixo        (% de cidades)
Baixo                 (% de cidades)
Médio                  (% de cidades)
Alto                    (% de cidades)
Muito Alto        (% de cidades)
Norte
4,0
40,1
50,3
5,6

Nordeste
0,8
61,3
36,1
1,9

Sudeste

4,4
41,7
52,2
1,7
Sul

0,4
33,7
64,7
1,2
Centro Oeste

2,1
56,9
40,8
0,2
Brasil
0,6
24,6
40,1
33,9
0,8


Já no Nordeste e Norte, as cidades de nível baixo e médio de desenvolvimento, respectivamente, é que representam a maioria dos municípios.

3 – Regiões não aparecem entre as 50 cidades mais desenvolvidas do Brasil...
Na lista das 50 cidades mais desenvolvidas do Brasil, não há nenhuma do Norte ou Nordeste. A primeira a aparecer, na 76ª posição, é Palmas (TO), seguida da primeira nordestina, Fernando de Noronha (PE), na 77ª posição.

Em compensação, todos os últimos lugares estão nas duas regiões.

Em Melgaço (PA), a renda per capita é 15 vezes menor que em São Caetano do Sul (SP), a primeira colocada em IDHM.

Posição Brasil
Estado
Cidade
IDHM
5.556
Amazonas
ITAMARATI
0,477
5.557
Pará
CACHOEIRA DO PIRIÁ
0,473
5.558
Pará
BAGRE
0,471
5.559
Acre
JORDÃO
0,469
5.560
Pará
CHAVES
0,453
5.561
Roraima
UIRAMUTÃ
0,453
5.562
Maranhão
MARAJÁ DO SENA
0,452
5.563
Amazonas
ATALAIA DO NORTE
0,450
5.564
Maranhão
FERNANDO FALCÃO
0,443
5.565
Pará
MELGAÇO
0,418


4 – Capitais 
Também nas capitais, com Florianópolis em primeiro e Maceió em último, há uma dominância das cidades do Sul, Sudeste e Centro-Oeste nos primeiro lugares.

Palmas (10º lugar) e Recife (13º) ficam no meio do caminho entre as capitais.

Assim, apesar da ONU salientar que o IDHM brasileiro quase dobrou em 20 anos, com redução das desigualdades regionais, o caminho a ser percorrido permanece imenso. Algumas autoridades são esperançosas.

“O Brasil era um dos países mais desiguais do mundo, continua sendo, mas houve uma melhora. Podemos antecipar um futuro melhor”, afirmou o presidente do Ipea e ministro interino da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Marcelo Neri.