Míriam Leitão
O Globo
Hoje, a pesquisa de emprego do IBGE é feita apenas em seis cidades. A partir de novembro, começarão a ser divulgados os dados de 3.400 municípios. O país terá pela primeira vez um indicador de desemprego nacional. Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, diz que a pesquisa já está em testes desde 2011: é a Pnad Contínua, um antigo projeto do instituto.
A PME é mensal e só é coletada no Rio, São Paulo, Salvador, Recife, Belo Horizonte, Porto Alegre. A Pnad traz dados do Brasil inteiro, mas só uma vez por ano. O esforço foi fazer algo com a periodicidade da PME, mas com a abrangência da Pnad. Inicialmente, os dados serão divulgados trimestralmente, mas, depois, passarão a ser mensais.
Cimar me contou isso numa entrevista que fiz com ele e a pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas Joana Monteiro, sobre um tema que frequenta sempre esta coluna: o alto desemprego de jovens, e, pior, o alto número de jovens que nem estudam, nem trabalham, nem estão procurando emprego. Cimar incluiu outro “nem”: o IBGE tem perguntado aos jovens que não estão estudando ou trabalhando se eles estão fazendo algum curso de qualificação no momento. A maioria não está.
Os números estão exigindo das políticas públicas, dos especialistas, formadores de opinião, educadores, empresários uma dedicação maior ao tema. De 16 a 24 anos, são 15% os desempregados, ou seja, os que procuram emprego e não encontram. Já foram 22%, há dez anos, portanto, melhorou. Mas há dois pontos a considerar. Primeiro, havia caído mais, e agora voltou a subir. Segundo, quando a taxa era 22% era o dobro do desemprego médio da população; agora, que o mercado de trabalho está melhor, o desemprego dos jovens passou a ser o triplo da média do país. Uma boa notícia, contou Cimar, é que os jovens que entram no mercado de trabalho estão com um percentual maior, até 60%, de carteira assinada.
Joana Monteiro tem estudado o fenômeno dos nem-nem-nem. Não estudam, não trabalham, não procuram emprego. São 17% da população de 18 a 24 anos. A maioria, mulheres que tiveram filhos e ficam em casa cuidando deles.
— Mas se você exclui as mulheres com filhos, o grupo até aumentou a partir de 2006, de 8% a 10%. Esse grupo é muito representado por pessoas de baixa escolaridade e de famílias bem pobres. Entre as pessoas com até cinco anos de estudo, 30% não estão trabalhando, nem estudando, nem procurando emprego. Na minha opinião, é o grupo com o qual temos que nos preocupar mais, porque eles correm risco de permanecer sempre dependentes de programas de transferência de renda — diz a pesquisadora.
Se ficarmos apenas nessa faixa dos 18 a 24 anos, há quatro milhões de jovens que não estudam nem trabalham. Há pesquisas que alongam a faixa etária até 29 anos, o que dobra o número desses jovens que não estão se qualificando nem estão dentro do mercado de trabalho.
Cimar Azeredo acha que esse fenômeno tem que continuar sendo monitorado e que a Pnad Contínua, ao dar informações mais amplas do país, poderá informar melhor os pesquisadores que se dedicam ao problema. Joana acredita que o fenômeno não está inteiramente entendido. Sugere que o IBGE faça mais perguntas para entender a cabeça desses jovens que, por desalento, falta de oportunidades, erros da política educação, barreiras no mercado de trabalho, não estão se preparando.
Por razões demográficas, o Brasil tem menos jovens entrando no mercado de trabalho a cada ano, em comparação com o passado. Mais um motivo para o não se perder a força e a capacidade desses jovens que, por uma falha coletiva, o país está perdendo.
Brasil tem quase 4 milhões de jovens 'nem nem nem'
Todo um programa dedicado aos jovens, que são os mais afetados pelo desemprego até mesmo no Brasil, onde o mercado de trabalho vai bem. Há dez anos, a taxa de desocupação entre eles era o dobro do desemprego médio; agora, é quase o triplo, como explicou Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, um dos entrevistados do meu programa na Globonews.
Além de sofrerem com desemprego elevado, há ainda jovens que nem trabalham, nem estudam, nem procuram emprego, os “nem nem nem”, fenômeno estudado por Joana Monteiro, pesquisadora do Ibre/FGV. Ela explicou que eles correspondem a 17% da população entre 18 e 24 anos. Estamos falando de quase 4 milhões de jovens nessa situação, a maioria mulheres. É um número alarmante.
Está havendo mudança demográfica, há menos jovens entrando a cada ano no mercado de trabalho, mas mesmo assim, a taxa de desemprego entre os jovens está aumentando, quando deveria estar acontecendo o contrário.
Cimar contou duas boas notícias: os dados mostram que 63% dos jovens que estão ocupados hoje têm carteira de trabalho assinada. Há dez anos, eram 40%. E está previsto para o fim deste ano a divulgação dos primeiros resultados da “Pnad contínua”, pesquisa que vai mostrar a taxa de desemprego válida para todo o Brasil. Hoje, a PME calcula a desocupação somente em seis regiões.