Denise Chrispim Marin
O Estado de SPaulo
Tecnologia de injeção de água para retirar o gás de xisto provoca disputa entre companhias e organizações de defesa do meio ambiente
A produção de gás de xisto nos EUA deve abandonar a tecnologia de injeção de água, em poucos anos, e incorporar outra com menor risco de contaminação de fontes de água potável. O setor avança com rapidez nessa linha, ansioso por reduzir os pesos da regulação e da antipatia dos vizinhos dos seus poços. Mas até a nova tecnologia ser incorporada, a extração estará assombrada pelos riscos à saúde pública e ao meio ambiente e pela briga feroz entre ambientalistas e companhias do setor.
Um total de 86,4 milhões de metros cúbicos de água - com aditivos químicos tóxicos - é injetado a cada ano apenas nos poços da formação geológica de Marcellus, a maior fonte de gás de xisto dos EUA, que abrange quatro Estados americanos. Cerca de 1/3 desse volume de água retorna à superfície com a aparência de lama, carregada de compostos orgânicos, metais, radioativos e detritos de rochas. Risco potencial de contaminação está presente em toda a operação (veja abaixo).
O casal Stephanie e Chris Hallowich e seus dois filhos viveram a pior experiência. A família aguarda o julgamento da ação contra produtoras de gás que operavam nas proximidades de sua casa, em Mount Pleasant Township, na Pensilvânia. Stephanie e Chris mencionam a propriedade como "a casa dos nossos sonhos". Mas viver no local os expôs a sintomas como dor de cabeça e garganta, sangramento no nariz e queimação nos olhos.
A família abandonou a "casa dos sonhos" e iniciou a batalha judicial contra quatro empresas - Range Resources, Williams Gas/Laurel Mountain Midstream, Markwest Energy Partners, Markwest Energy Group - e o Departamento de Proteção Ambiental da Pensilvânia. Esse é apenas um dos casos acompanhados pela organização Clean Water Action.
Na lista da organização ambientalista estão outros 803 casos de indivíduos e famílias ameaçados pela produção de gás de xisto somente na Pensilvânia. Entre elas, muitas autorizaram a exploração do gás em suas propriedades, com a promessa de receber o equivalente a 12% da produção - algo como até US$ 35 mil ao mês.
Segundo Steve Hvozdovich, da Clean Water Action, fontes de água potável estão sendo contaminadas. A regulação ambiental não é dura na Pensilvânia, afirmou ele, e a fiscalização tem sido negligenciada. "As empresas alegam que a produção é segura e têm um forte lobby no governo do Estado. Mas há risco de 50 a 50 de contaminação", afirmou Hvozdovich.
"O risco para a água foi distorcido grosseiramente. Estamos sofrendo pressão constante para mudar o processo de produção por causa de um mito", afirmou Lee Fuller, vice-presidente da Associação de Produtores Independentes da América (IPAA).
Fuller acredita que a proibição do processo de fracionamento das rochas, por meio da injeção de água com aditivos químicos sob alta pressão, "vai matar a produção de gás de xisto". Mas Christopher Guith, da Câmara de Comércio dos EUA, avalia ser possível a adoção de uma tecnologia que não envolva o uso da água em três a quatro anos. "Essa área está avançando tão rapidamente que já está ultrapassado o que hoje conhecemos."
Para Khary Cauthen, diretor do Instituto Americano do Petróleo (API), a briga tem motivação mais profunda. "Os ambientalistas que defendiam o uso do gás natural há dez anos agora são contrários. A questão, para eles, é ser contra o combustível fóssil."
As empresas falam em revestir a tubulação com aço e cimento, para evitar vazamentos. A questão principal é o que fazer com a água poluída que retorna à superfície. A reutilização da água no processo de extração de gás é uma opção, assim como seu tratamento, para voltar aos rios. Mas há temores de negligência nesses processos.
A Range Solutions, com 350 poços em atividade na formação de Marcellus, mantém 12 tanques a céu aberto para armazenar essa água poluída. As paredes dos tanques são revestidas com malhas impermeáveis, e o lago de lama é cercado. Mas Hvozdovich, da Clean Water Action, disse ter visto malhas rasgadas e aves boiando no local.
Segundo Molly Walton, pesquisadora do Programa de Energia e Segurança Nacional da Johns Hopkins University, nenhum dos riscos é grave ou incontornável a ponto de paralisar a produção de gás de xisto. Os estudos sobre a contaminação das águas, completou ela, têm mais de cinco anos e não refletem mais a situação atual.
O resultado preliminar de um estudo do Departamento de Energia (DoE) trouxe boas-novas aos produtores na semana passada: não houve evidência de contaminação dos aquíferos da Pensilvânia pelo processo de fragmentação das rochas. Mas não há ainda razões para o governo retirar sua atenção sobre esse tópico.
As empresas temem limites ao uso da água pela Agência de Proteção Ambiental (EPA), o principal regulador federal, com base no resultado do estudo do DoE, em 2014. Esses limites trariam, em princípio, um denominador comum. Nos EUA, porém, a Pensilvânia é rica em rios e populosa em quase todo o território. O árido Texas, outro grande produtor, tem escassez de recursos hídricos e população concentrada em grandes centros urbanos.
A repórter viajou a convite da Coalizão das Indústrias Brasileiras (BIC), integrando a missão de empresas do Brasil a Washington e Pittsburgh