Gabriela Valente
O Globo
Márcio Holland sofre críticas até de aliados e antecessor
BRASÍLIA - O câmbio mais “competitivo” faz parte do novo cenário da economia brasileira. A declaração foi dada nesta quarta-feira pelo secretário de política econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland. A tarefa era defender os feitos da equipe econômica durante seminário, no Congresso, promovido pelo PMDB, principal partido da base de sustentação do governo. Mesmo entre aliados, ele sofreu com a artilharia.
Por cinco horas, Holland afirmou que o país vive um bom momento, a inflação está sob controle e a alta de preços dos alimentos é “assunto do passado”. Disse que os gastos do governo estão controlados e que ainda são feitos cortes de impostos.
— Nós temos o que chamamos de nova matriz econômica, que é a combinação de taxas de juros que a gente pode dizer que estão num nível internacional em condições normais (...) associada a uma taxa de câmbio mais competitiva e à uma política de redução de tributos.
A ideia de uma mudança profunda na condução da economia foi rebatida pelo economista Marcos Lisboa, que ocupava a cadeira de Holland, quando o ministro da Fazenda era Antonio Palocci. Ele criticou a política de incentivos do ministro Guido Mantega. Disse que o Brasil não tem instrumentos para avaliar a eficácia das medidas e que elas causam distorção na já abalada produtividade do país. Falou que mesmo com os estímulos, os investimentos continuam medíocres e há queda acentuada na produtividade no Brasil.
— Não há nova matriz econômica, mas uma volta ao velho desenvolvimentismo (...) onde um pouco de inflação é aceitável e onde o governo tem papel fundamental no desenvolvimento.
Holland havia dito que poucos países do mundo tiveram taxa de crescimento do investimento como o Brasil nos últimos dez anos e não há outro cenário para a próxima década. Sobre a crise das expectativas, falou que é um fenômeno mundial. Disse que a inflação está dentro da meta há dez anos e que, nos últimos seis meses, houve redução consistente do ritmo de alta de preço no Brasil.
— O Brasil melhorou nos últimos dez anos, mas piorou na margem — afirmou o economista do Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (Ipea) Mansueto de Almeida. Ele convenceu vários parlamentares que o país caminha para sérios problemas. Citou a falta de transparência na concessão de incentivos para alguns setores com dinheiro do BNDES, capitalizado por aumento de dívida pública.