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Com agência EFE
Ofensiva da polícia em acampamentos no Cairo deixou ao menos 43 mortos, mas a Irmandade Muçulmana, que organizou os protestos, fala em 250 óbitos
AFP
Corpos deixados em acampamento
após operação da polícia para dispersar manifestantes
A polícia egípcia pôs em prática no início da manhã desta quarta-feira uma ofensiva para dispersar os manifestantes acampados no Cairo em apoio ao ex-presidente Mohamed Mursi, deposto no início de julho. Para obrigar a saída dos seguidores de Mursi dos acampamentos de Rabea al Adauiya e da praça de Al Nahda, as forças de segurança começaram a lançar bombas de gás lacrimogêneo, mas a repressão se tornou violenta e acabou em um verdadeiro massacre após a tropa abrir fogo contra os manifestantes.
A agência de notícias France-Presse confirma pelo menos 43 mortos, levados a um necrotério improvisado perto da praça, mas esse número deve crescer nas próximas horas. Gehad el Haddad, porta-voz da Irmandade Muçulmana – grupo ligado a Mursi que organizou os acampamentos após a deposição do ex-presidente –, afirmou no Twitter que a estimativa é de que cerca de 250 pessoas tenham morrido e 8 000 ficado feridas durante a ação.
O governo não se pronunciou sobre o número total de mortos. O Ministério do Interior, que controla as forças de segurança egípcias, afirmou de início que apenas dois policiais tinham morrido no confronto, no qual manifestantes reagiram lançando coquetéis molotov. Depois, elevou a quantidade de agentes mortos para cinco e informou o óbito de nove manifestantes. Já o Ministério da Saúde declarou inicialmente que 26 civis ficaram feridos, mas nenhum havia morrido. Mais tarde, porém, identificou sete manifestantes mortos e 78 feridos. Cerca de 200 pessoas foram presas, informaram os órgãos de segurança.
Crise – As autoridades que assumiram o comando do país depois da derrubada de Mursi em 3 de julho planejavam há semanas uma estratégia para remover os dois grandes acampamentos de membros da Irmandade Muçulmana no Cairo. O governo já havia ameaçado por três vezes acabar com as concentrações, mas recuou. Os manifestantes se anteciparam a possíveis conflitos erguendo uma barreira com sacos de areia, pneus e pilhas de tijolos, que começaram a ser removidos nesta quarta com a ajuda de tratores e blindados do Exército.
O porta-voz do Ministério do Interior, Abdel Fattah Othman, disse na segunda-feira passada que o governo interino esperava que negociações pudessem solucionar a situação de forma pacífica e "nenhuma gota de sangue de nenhum egípcio seja derramada", afirmou à TV Al Tahrir.
Na semana anterior, porém, a Presidência do Egito já tinha anunciado que os esforços internacionais de mediação para encerrar a crise política do país fracassaram e advertiu que a Irmandade Muçulmana seria responsável pelas "possíveis consequências". Centenas de pessoas morreram em confrontos entre forças de segurança e partidários de Mursi nas últimas semanas.
Representantes dos Estados Unidos, União Europeia, Catar e Emirados Árabes Unidos pressionavam as partes em conflito a negociar o fim da crise e evitar novas mortes, cada vez mais comuns diante do impasse entre os militares, que recuperaram o poder político, e a Irmandade Muçulmana, vencedora de todas as eleições realizadas no Egito após o fim da ditadura de Hosni Mubarak, em fevereiro de 2011.
Khaled Desouki/AFP
Manifestantes correm após tropas policiais
iniciarem ofensiva para dispersar protesto pró-Mursi
Entenda o caso
1. Na onda das revoltas árabes, egípcios iniciaram, em janeiro de 2011, uma série de protestos exigindo a saída do ditador Hosni Mubarak, há trinta anos no poder. Ele renunciou no dia 11 de fevereiro.
2. Durante as manifestações, mais de 800 rebeldes morreram em confronto com as forças de segurança de Mubarak, que foi condenado à prisão perpétua acusado de ordenar os assassinatos.
3. Uma Junta Militar assumiu o poder logo após a queda do ditador e até a posse de Mohamed Mursi, eleito em junho de 2012.
4. Membro da organização radical islâmica Irmandade Muçulmana, Mursi ampliou os próprios poderes e acelerou a aprovação de uma Constituição de viés autoritário.
5. Opositores foram às ruas protestar contra o governo e pedir a renúncia de Mursi, que não conseguiu trazer estabilidade ao país nem resolver a grave crise econômica.
6. O Exército derrubou o presidente no dia 3 de julho, e anunciou a formação de um governo de transição.

