quinta-feira, agosto 08, 2013

S&P: investimento é a maior decepção com o Brasil

Bruno Villas Bôas 
O Globo

Sebastián Briozzo, diretor da S&P, diz que acompanha de reação do governo às manifestações

RIO - A agência de classificação de risco Standard & Poor's (S&P), que colocou a nota dos títulos da dívida brasileira em perspectiva negativa no início de junho, avaliou nesta quarta-feira que o baixo ritmo de investimentos é a “maior decepção” do Brasil. Para Sebastián Briozzo, diretor responsável pelo rating do Brasil na S&P, que participou de videoconferência com analistas e jornalistas na manhã de hoje, a estratégia do governo para desenvolver o investimento privado no país não tem sido bem-sucedida.

— Fica claro que o crescimento do Brasil desacelerou depois de 2009 e 2010. O motivo para isso são os investimentos, a grande decepção no Brasil. Quando comparado a outros países emergentes, Brasil não está bem nos investimentos, que representam apenas 18% do PIB (Produto Interno Bruto). Isso está acontecendo porque existe pouco espaço para o investimento público, que está baixo — disse o diretor da S&P.

Perguntado se o pacote de infraestrutura que o governo pretende lançar neste segundo semestre pode mudar o cenário de investimentos no país, Briozzo se disse “cautelosamente otimista”.

— A questão é mais sobre implementação do que estratégia. A estratégia está aí há algum tempo, como as concessões de infraestrutura do governo central. Mas a implementação não depende apenas do governo central, como também do Congresso. O exemplo recente foi a mudança de regras nos portos. Estamos cautelosamente otimistas, mas achamos que o progresso vai continuar ocorrendo lentamente — avaliou o executivo, para quem “não é simples encontrar consensos de como avançar mais fortemente e rapidamente no desenvolvimento da infraestrutura do pais”.

Briozzo reiterou, contudo, sua preocupação também com a política fiscal brasileira, que seria uma das principais razões para a perspectiva negativa na nota de risco brasileira. Ele disse ainda que as manifestações em curso no Brasil podem levar a uma maior pressão fiscal no país ou aumentar o censo de urgência das autoridades para realizar reformas, o que vai depender das “resposta do governo”. Segundo Briozzo a maior pressão fiscal aumentaria o risco negativo para a nota de risco do país.

— Tem uma pressão social que pode levar a maior pressão fiscal. Isso pode elevar o grau de risco que destacamos. O Congresso pressiona o governo para expandir gastos em algumas áreas — disse o diretor da S&P. — Até agora, não penso que as demonstrações possam ser um fator determinante no nosso rating, mas, claramente, aumentam os desafios políticos para a liderança politica no Brasil.

Briozzo acrescentou que as manifestações são um fenômeno novo no Brasil e não coloca em risco a governabilidade do país.

— A popularidade da presidente caiu, mas continuou e em níveis confortáveis. E as demandas são muito heterogenias e não focada apenas na figura da presidente. Mas é cedo para dizer se essa demonstrações vão se canalizar numa força política e influenciar de forma mais pesada (as reformas) ou forçar governo para gastar mais. Olhamos isso de perto — afirmou Briozzo.

Apesar disso, a S&P informou que não vê nenhuma "mudança rápida" na nota de classificação de risco do Brasil, atualmente em "BBB".

— Temos de 12 meses a 24 meses para tomar uma decisão. É o tempo que teremos — disse.

Segundo ele, o Brasil deve crescer 2,5% neste ano e Banco Central (BC) vai aumentar em 0,75 ponto percentual os juros básicos da economia, a Selic, até o fim do ano. Briozzo disse que o baixo ritmo dos investimentos no Brasil tem sido "a maior decepção" com o país e cobrou reformas, como a tributária.