domingo, setembro 15, 2013

Cubanos atuarão em postos sem banheiro e com trincas

Daniel Carvalho, Nelson Barros Neto, Paulo Peixoto e Felipe Bächtold
Folha de São Paulo

Infiltrações, rachaduras, mofo, estruturas enferrujadas, equipamentos quebrados, salas improvisadas, banheiros interditados e remédios jogados ao chão fazem parte do cenário que os médicos cubanos encontrarão na semana que vem em unidades de saúde de diferentes municípios do país.

A situação foi flagrada pela Folha em postos de saúde de cidades da região metropolitana de Porto Alegre e do interior de Minas Gerais, da Bahia e de Pernambuco. O governo federal diz que irá bancar a reforma das unidades.

Os locais visitados pela reportagem fazem parte do grupo de 206 municípios, de 18 Estados, que irá receber os primeiros médicos cubanos.

São localidades que foram rejeitadas por profissionais brasileiros e demais estrangeiros na primeira fase do programa voltado para reduzir o déficit de médicos no interior e nas periferias.

Essas realidades revelam municípios na contramão das regras do Mais Médicos.

Em julho, quando anunciou o programa, o Ministério da Saúde apontou como responsabilidade das prefeituras o fornecimento de "condições adequadas" para o trabalho dos médicos" participantes do programa federal.

Bernardo Dantas/Folhapress
Sala improvisada em garagem em Santa Maria do Cambucá (PE)

Entre as exigências aos municípios estão postos e unidades de saúde "com segurança e higiene", "fornecimento de equipamentos necessários", "instalações sanitárias" e "mínimas condições de conforto para o desempenho das atividades" médicas.

Um contraexemplo do que está no papel é Frei Miguelinho, no agreste de PE.

A mesa reservada ao médico cubano está enferrujada, assim como a escadinha usada pelos pacientes para alcançar a mesa de exames.

No local, a geladeira que deveria guardar vacinas está quebrada há seis meses, e os dois banheiros não têm água há pelo menos um ano.

O jeito então foi improvisar: a água para descarga fica em baldes destampados na sala da enfermeira. E esse mesmo banheiro também é usado como depósito para materiais de limpeza.

A situação não melhora na minúscula unidade de apoio, a 7 km do posto de saúde principal do distrito de Capivara. Lá, as vacinas chegam em isopor porque, como um cartaz na porta avisa, a geladeira está desativada.

Além da estrutura, o acesso a postos de saúde na zona rural será um problema para os cubanos. Na última quinta-feira, por exemplo, a Folha não conseguiu chegar ao posto na zona rural de Salgadinho (PE). Chovia, e a estrada de terra que leva à unidade estava intransponível.

"A estrutura não está conservada. A manutenção não vinha acontecendo há anos", diz Fátima Lopes, secretária de Saúde de Passira (PE), cidades que receberá três cubanos e cujos postos têm sinais de mofo e infiltrações.

Na Bahia, na unidade de um distrito de Araci, a última faxina foi há três meses. Equipamentos estão quebrados, e a sala de armazenamento de remédios tem caixas acumuladas no chão.

"Toda semana a gente tem ao menos um dia sem água. Não tem ambulância. O desfibrilador não está funcionando. Se chegar alguém com parada [cardiorrespiratória], a gente vai orar, e só", diz a médica Tamillys Figueiredo, 26.

Estrutura precária também é realidade na unidade de Campo de Santana, distrito da mineira Prudente de Morais (MG). O médico cubano encontrará um posto deteriorado, com partes das paredes e do teto sem reboco e com trincas que assustam moradores e funcionários.

O posto funciona há 20 anos em uma casa da prefeitura. "É uma precariedade danada em relação às novas unidades. A gente reconhece", disse o secretário local de Saúde, Deivisson Melo.

Em Sapucaia do Sul (RS), o cubano atuará em um posto que funciona em um puxadinho de uma escola municipal. O espaço é apertado, e a estrutura, escassa: três salas, um ambulatório, uma sala de vacinas e uma cozinha.

Segundo o Ministério da Saúde, todas as unidades onde atuarão profissionais do Mais Médicos irão receber recursos para requalificação até o fim de 2014. O governo promete R$ 15 bilhões.

OUTRO LADO
As prefeituras admitem os problemas de estrutura e dizem que aguardam ajuda federal para resolvê-los.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Isto que a Folha relata é apenas um pálido diagnóstico da situação miserável em que se encontram as unidades públicas de saúde. O quadro total é muito pior do que se imagina. 

E duvido quer o governo Dilma tenha feito algum levantamento para apurar as necessidades e o custo de se recuperar as unidades espalhadas pelo país.

Não basta entupir a rede pública com “Mais Médicos”, se eles não irão encontrar as condições adequadas mínimas para prestar um serviço razoável à população. 

Não só as condições físicas são miseráveis. A falta de medicamentos básicos é rotina. 

Portanto, tivesse o governo Dilma e seu ministro da Saúde, Alexandre Padilha, um mínimo de vergonha na cara, um pouco que fosse de responsabilidade para com o bem estar da população, ao invés de torrar milhões de reais em publicidade sobre seu programa Mais Médicos, destinariam a verba para a reforma e ampliação da rede de saúde.

Dizer que não tiveram tempo nem recursos seria grossa mentira. Tanto é assim que, há mais de um ano, o governo já negociava com o governo cubano a importação de médicos daqueles e nas condições ilegais em que agora está sendo feita. 

Nem reformas foram feitas, tampouco o governo Dilma tem avaliação precisa do que precisa ser feito para por os prédios caindo aos pedaços em condições adequadas de atendimento. O que comprova duas coisas: 

- primeiro, de que o programa Mais Médicos não passa de improvisação eleitoreira, tipo operação tapa-buracos que de vez em quando se faz nas rodovias federais  e,

- em segundo lugar, a de que este governo está pouco se importando com o bem estar da população mais pobre do país, ao contrário tanto da propaganda oficial quanto do discurso mentiroso. 

Prá encerrar: para que a população não saiba a verdade sobre a mistificação do programa, Padilha, um homem muito transparente e democrático, determinou que os médicos não concedam entrevista à imprensa. Está querendo esconder o que, ministro?