domingo, setembro 15, 2013

O Pinto foi embora...e as galinhas?

Ruth de Aquino
Revista ÉPOCA

Quem tem memória recente sabe que a demissão de Paulo Roberto dos Santos Pinto não muda em nada os vexames do Ministério do Trabalho

A Operação da Polícia Federal tem nome bonito: Esopo. É um nome grego. Como é grega, em dimensões, a tragédia que assola o Ministério do Trabalho de nosso país. Quando Carlos Lupi, presidente nacional do PDT, caiu do cargo de ministro no fim de 2011, no rastro de um escândalo de desvio de verba pública envolvendo ONGs, o eleitor brasileiro otimista respirou aliviado. Iríamos enfim moralizar um Ministério que é do Trabalho num governo que é dos Trabalhadores? Como acabamos de ver, isso era fábula de Esopo para criança dormir.

Os que entraram foram todos da mesma curriola. O amigo de Lupi, Manoel Dias, empossado como ministro do Trabalho no último mês de março, convocou outro da equipe de Lupi, o Pinto de agora. Comemoraram "a unidade partidária do PDT" e a parceria com o PT. Pinto, secretário-executivo, agora pede demissão para "preservar a família e o Ministério". Foi acusado de comandar um esquema de fraudes em licitações em 11 estados. Um esquema que teria roubado R$ 400 milhões dos cofres públicos ("cofre público" é um eufemismo para "nossa grana") em contratos superfaturados ou que jamais se concretizaram. Isso não é mais ralo, virou poço sem fundo.

Ficamos com pena do Pinto, ou com raiva das galinhas - ou dos galos - que se safaram e colocaram o Pinto para fora do Ministério? O enredo que derrubou o número 2 é tão parecido com os anteriores. Se Pinto tem mesmo culpa como diz a Polícia Federal, difícil imaginar que tivesse agido sozinho, sem a anuência ou o comando de seus superiores - Manoel Dias e o presidente do partido Carlos Lupi, manda-chuva de sempre. Mas tudo é possível, não? Pinto pode ser inocente. Ou um rebelde que insiste em violar os valores inquebrantáveis passados por Lupi.

Para quem quer refrescar a memória ou enlamear a lembrança, republico alguns trechos de uma coluna minha em ÉPOCA de novembro de 2011. Há menos de dois anos, eu escrevia que, com a demissão de seis ministros de Dilma, testemunhávamos talvez um histórico momento de prestação de contas. 

Eis aí parte da coluna intitulada:

Quem ama Lupi? Ninguém merece um ministro assim no Trabalho. 

O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, já se tornou a figura mais patética do ministério de Dilma. Um feito impressionante num grupo que teve em cinco meses seis baixas: de 7 de junho até hoje (novembro de 2011), caíram Palocci, Nascimento, Jobim, Rossi, Novais e Silva.

Só um caiu por ser inconveniente, o ministro Jobim, gaúcho de alma tucana. O resto foi por acusações de corrupção e desvio.

De Lupi, suor e bravatas escorrem pelos poros. Ele bate no peito, espuma, grita. Mas não explica nada.

“Sou osso duro de roer. Quero ver até onde vai essa onda de denuncismo.”

“Daqui ninguém me tira. Só se for abatido à bala. E tem de ser bala de grosso calibre, porque eu sou pesado.”

“Morro, mas não jogo a toalha.”

“Conheço a presidente Dilma há 30 anos. Duvido que ela me tire. Nem na reforma ministerial.”

“Bola da vez? Só se for a bola sete, a bola da vitória.” 

"Peço desculpas à opinião pública, que fica com a imagem de que sou louco, um tresloucado.”

“Presidente Dilma, me desculpe se fui agressivo. Dilma, eu te amo.”

Ninguém merece um ministro assim no Trabalho, uma pasta que requer equilíbrio, habilidade, capacidade de negociar e analisar as reivindicações de trabalhadores. Lupi – como todos os outros – se considera vítima de perseguição. Até do próprio partido, o PDT, dividido entre o pessoal de raiz e os oportunistas.

O motivo da perseguição é inacreditável. Querem derrubá-lo por puro preconceito de classe. Por ser “ex-jornaleiro”. Todo jornalista tem um apreço especial pelos jornaleiros. São eles que, nas bancas, ajudam ou não a impulsionar a venda avulsa. Mas Lupi hoje detesta a imprensa.

Não tenho ideia de como Lupi (“sou italianão, sou atirado”) se comportava como jornaleiro nos anos 1980, quando conheceu Brizola. Eu nem sabia disso, para falar a verdade. Sei que ele foi secretário de Governo de Garotinho. E que o Ministério do Trabalho, comandado por ele há quase cinco anos, teria um esquema de tabela de propinas para liberar recursos a um instituto no Rio Grande do Norte. E teria assinado convênios irregulares com ONGs investigadas pela Polícia Federal e denunciadas pelo Ministério Público de Minas Gerais. Isso é o que veio à tona.

Sei que os detalhes estão ficando meio repetitivos e chatos para os leitores – mas é nos detalhes que o diabo mora. É preciso alertar para o ridículo. Não tem sentido dar quase R$ 1 milhão de sinal, no ano passado – num convênio de R$ 2 milhões –, para uma organização em Confins, Minas Gerais, treinar 2.400 operadores de telemarketing. E descobrir, um ano depois, que só pouco mais de 200 pessoas tinham feito o curso até ontem.

Fico pensando o que se ensina nesse curso de telemarketing. Como é fácil “captar” dinheiro neste Brasil generoso. O enredo é tão semelhante às quedas anteriores de ministros que está explicada a treslouquice de Lupi.

Não sei se Lupi é passado, mas não parece ser futuro. Não é o futuro que esperamos para o Brasil. No presente, o Planalto resolveu, na última hora, fazer a portas fechadas um seminário internacional em Brasília que reunirá 60 ONGs. Sem a presença de bloquinhos, gravadores e câmeras indiscretas.

Os brasileiros se dividem entre quem não aguenta mais tantos escândalos... e os que esperam estar vivendo um momento histórico de prestação de contas.  
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Lembre-se: isso foi escrito há menos de dois anos.