Arnaldo Bloch
O Globo
Deputado é símbolo de um projeto de país que luta para destruir todo e qualquer esforço ético
“Meu nome é Donadon e vim aqui para protestar. Protestar pelo fato de o cronista usurpar meu nome e escrever coisas que eu não disse literalmente. E deixar também meu protesto de profundo reconhecimento e gratidão aos meus colegas deputados.
“Ao reprovar por consistente maioria minha cassação, eles não apenas livraram minha cara de perder o mandato apesar de condenado por roubo de dinheiro público. Eles fizeram muito mais: agiram como porta-vozes de uma causa.
“A minha causa é também a causa de muitas gerações de políticos, nossos pais, avós e até bisavós, e assim até o Descobrimento.
“Esse grito atávico que a Câmara dos Deputados dá para a Nação diz que nossas formas de lidar com política estão arraigadas a ponto de eu acreditar que prevalecerá o nosso modus operandi, independentemente do andar da carruagem dos reformistas puros e dos que pregam a tal da Ética.
“Um colega meu, aliás, outro dia, em entrevista à mídia sobre o novo regimento do Senado, explicou por que excluiu essa palavra do projeto: trata-se, a Ética, de uma ideia abstrata, ele disse.
“É isso mesmo: a ideia de um denominador mínimo comum de princípios de decência e amor à coisa pública é muito perigosa, é preciso torná-la abstrata, intangível, para prosseguirmos com nosso plano de manter o país como um poço de clientelismo, servilismo, fisiologismo, casuísmo, e, no jargão de “Saramandaia“, roubalheirismo.
“Acham que nos assustamos com o Grande Julgamento do Tribunal Superior. Que nada. Não é porque o Tribunal vai mandar essa turma em cana que eu vou desanimar, eu que também fui em cana por ordens dessa casa.
“O Tribunal de hoje, ou o idealismo que transmite, não há de ser o Tribunal de amanhã, como querem. Nosso país é como naquela música sobre o Rio: nada continua. Quer dizer, continuamos nós, porque nós somos a essência da natureza humana, nós somos algum instrumento misterioso e sinuoso da Evolução.
“Afinal, como Ética, Evolução é um conceito abstrato, evoluir não significa positivamente, aliás, positivamente pra quem, cara pálida? Tudo é relativo aos maus costumes do lugar.
“Sou radicalmente darwinista, mas só na práxis, até pra sacanear Darwin, que não gostava muito que se aplicassem suas teorias no fazer político (como fizeram importantes alemães nos anos 1930/40) e, menos ainda, na economia, como fazem, hoje, os nossos homens das cifras. Darwin parece que acreditava na civilização como estágio para um salto ético sincronizado com a Evolução.
“Na dúvida ou na dívida, fico com deus, que me salvou, ponho em minúsculas porque tem que saber de que deus estamos falando, deus é um conceito muito abstrato, nem sei se acredito, mas sei que ele tem que estar comigo, nem que seja no discurso. E me ajoelhei diante do país em nome dele.
“No que creio, afinal? Creio que, venha o que vier, eu tenho é que salvar o meu. Dos meus filhos, no máximo. Os netos, se sobrar um troco. É o que nós deixamos de legado: a defesa do caos moral absoluto, ou, pelo menos, da inexistência de escrúpulos no horizonte dos meus eventos.
“Que arrogância minha querer legislar sobre o futuro... tentar construir um país... eu quero é construir uma casa, usar helicóptero, governar grandes cidades tendo amigos na alta corruptela, viajar em jatinho de quem está no olho do furacão da ventanagem pública.
“O que resultará disso? Bom, em filosofia, ‘escatologia’ é a doutrina que estuda os fins. Eu prefiro os meios: tudo se justifica, no fim dos tempos vai ser tudo uma escatologia só, aí no outro sentido da palavra: a doutrina sobre a merda, que é o que nos aguarda no final, e de qualquer forma o Sol vai se extinguir daqui a 5 bilhões de anos, se é pra isso, melhor captar recursos e gastar tudo a meu bel.
“E ouçam a sonoplastia de minhas gargalhadas ressoando por todas as televisões, os jornais, sites e rádios de pilha deste grande país que todos amamos, de um jeito ou do outro, eu amo muito isso tudo, mesmo algemado, amo deus e os meus colegas, o que é deus afinal, cada um dá a deus o sentido que quiser, em maiúsculas ou minúsculas, posso ter meu deus e não crer em nada, ou posso usar um deus moral qualquer a serviço da minha noção das coisas, a moral quem bota aqui sou eu, moral não é princípio, moral é ação, é ordem na minha caserninha e bico calado nos currais.
“Vocês acham que fiquei assustado com as manifestações? Que nada. Fizeram lá seu desabafo desordenado, geraram alguma reflexão, um teatro danado nas minhas queridas casas legislativas, uns arroubos da nossa presidenta, e a reforma política... bom, a reforma política, essa necessidade de reformar o que já está formado (formou), me dá nos nervos, mas por que é que não ouço mais falar em plebiscito? Por que é que não ouço mais as manifestações?
“Ah, foi só uma febre... eu livrei a cara, e cadê o povo? Cadê a marcha pela resolução que acaba com o voto secreto? Eu chorei de emoção, ri do país e vou agora cumprir minha pena pois, no fundo, não sei bem onde isso fica, mas, lá no fundo mesmo, sou um homem decente e a injustiça atingiu como um raio minha pele ilibada, a injustiça, parece que já nasci sob seus desígnios, não tenho culpa, sou um resultado, mas me orgulho do que sou, sou macho, eu mando aqui.”
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Este é um manifesto de ficção. Qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência.