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Fábio Romão, da LCA, projeta aumento de 56,3% para
passagens aéreas neste quadrimestre, e de 15,2% no ano
Os preços das passagens aéreas no mercado doméstico vão subir mais neste último quadrimestre do ano do que a variação média registrada entre 2009 e 2013, apontam analistas que acompanham o setor. Os custos mais elevados, pressionados por querosene de aviação e dólar mais caros, e a menor oferta de assentos por parte das companhias são os fatores que sustentam a inflação dos bilhetes. Um movimento que continua em 2014, dizem especialistas.
"Espero alta importante das passagens neste último quadrimestre", diz o economista da LCA Consultores, Fabio Romão, para quem as passagens aéreas vão dar um salto de 56,3% entre setembro e dezembro deste ano, na comparação com o mesmo período de 2012. Esse percentual supera a média de reajustes nesse quadrimestre entre 2009 e 2012, de 39,8%.
"O terceiro quadrimestre já é sazonalmente mais forte para o setor em termos de demanda, e este ano está sendo potencializado por um rol de fatores como o petróleo, o câmbio e o balanço das empresas", diz Romão.
Entre 2012 e este ano, o dólar médio saiu de R$ 1,95 para R$ 2,10, alta de 7,7%, com picos em que a apreciação chegou a ultrapassar os 25%, quando a moeda americana superou os R$ 2,50. E neste mês de setembro, o preço do querosene de aviação calculado pelo Índice Geral de Preços (IGP) da Fundação Getulio Vargas (FGV) subiu 15% ante setembro de 2012.
"Não vemos uma retração desses ativos no horizonte", disse o economista da LCA, que projeta para as passagens aéreas alta anual de 15,2%, em 2013, e de 25,3%, em 2014, com dólar a R$ 2,25 em dezembro deste ano e a R$ 2,30 em dezembro de 2014.
No balanço das empresas aéreas, o dólar indexa mais de 70% das despesas: contratos de leasing e de manutenção das aeronaves e o próprio combustível têm cálculo feito a partir da moeda americana. "Se você olhar o câmbio, o viés é de preços para cima", diz a analista de transportes da Tendências Consultoria, Claudia Oshiro. "E como 2014 deve vir mais PIB [Produto Interno Bruto], isso pode validar tarifas mais altas", diz a profissional.
Ela aponta outro motivo para as companhias aéreas optarem por compensar o aumento de custos com reajuste de tarifas em vez de, por exemplo, apertar lucro. "Os balanços das empresas mostram que não tem mais muito espaço para isso", diz Oshiro.
As líderes que respondem por mais de 70% da oferta de assentos no país estão no vermelho. A Gol registrou ano passado perdas de R$ 1,5 bilhão e de R$ 524 milhões entre janeiro e junho deste ano. A Latam - dona da TAM e da Lan - contabiliza perdas de R$ 638 milhões no primeiro semestre deste ano, após lucro marginal de R$ 5 milhões em todo ano de 2012.
Para recuperar lucratividade, as duas cortaram a oferta de voos menos rentáveis ou deficitários. Para 2013, TAM e GOL estão eliminando 7% e 9%, respectivamente, da oferta disponível.
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Mesmo com Azul e Avianca ampliando frequência, dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) mostram que o total de assentos oferecidos por quilômetro (ASK) teve em agosto queda de 2,27%, ante mesmo mês de 2012, primeira queda nesse mês em cinco anos.
O sócio da Bain & Company, André Castellini, diz que esse movimento de corte de rotas menos rentáveis gera, por si só, uma alta no preço médio das passagens. "A gestão de receitas fica mais eficiente quando você enxuga a oferta, tirando aqueles menos rentáveis", diz o consultor. "Além disso, com rotas mais disputadas, mesmo sem reajustar o preço das passagens, na média, as tarifas sobem porque partem de um universo diferente".
Foi o corte de oferta por parte das aéreas que permitiu ao setor elevar a taxa de aproveitamento nos voos em 2013, mesmo em um ambiente de demanda estagnada, dizem os economistas. Segundo a Anac, enquanto a demanda caiu 0,8%, entre janeiro e agosto deste ano em relação ao mesmo período de 2012, a taxa de ocupação subiu de 71,6% a 75% na mesma base.
E voos mais lotados ampliam a chance de as aéreas cobrarem mais pelos bilhetes, dizem os analistas.
Para Romão, da LCA, o ritmo do crescimento da renda e do emprego, embora em patamares hoje inferiores aos existentes no período entre 2009 e 2012, é suficiente para avalizar reajustes das aéreas em percentuais superiores à inflação média, de um Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), por exemplo. "A renda média real do brasileiro este ano deve subir 1,4% contra uma taxa de 4,1% em 2012. É menor, mas ainda é um crescimento real", diz o economista.
Romão pondera que essa desaceleração no ganho dos trabalhadores também explica a demanda estagnada no setor aéreo.
E a economista da Tendência Consultoria, Adriana Molinari, observa que o espaço para reajustes seria maior se a demanda estivesse mais aquecida.
Adriana Molinari lembra que o setor acumulava, até agosto, uma queda de 26% este ano no IPCA. Uma deflação que perdeu força em setembro, ficando em -14,4%. "O câmbio ainda não foi totalmente repassado para os preços", diz a economista, apontando um motivo que levou este último quadrimestre do ano a responder praticamente isoladamente por toda a inflação do setor no ano.
Para 2014, a expectativa é de reajustes no setor aéreo sejam mais bem distribuídos ao longo do ano. Seja porque a volatilidade projetada pelos economistas para câmbio e petróleo é menor, seja porque os as empresas já concluíram a maior parte dos ajustes na oferta de voos. "Teremos um ano mais normal, com os reajustes mais ligados aos fatores sazonais, em períodos de férias, por exemplo", diz Romão, da LCA.
A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) contesta as projeções dos economistas. Por meio de nota, a entidade que representa TAM, Gol, Azul e Avianca, diz que as condições atuais de mercado não permitem uma majoração de tarifas tão acentuada como as mencionadas sob pena de resultar num drástico impacto à demanda.
"Ainda que as companhias estejam sendo obrigadas a encarar um momento de aceleração na elevação dos custos, e por mais que tenha efetivamente ocorrido um movimento de recomposição de preços como resultado especialmente da oscilação do dólar ante o real no início do segundo semestre, é bem sabida a característica de elasticidade da nossa demanda em relação à elevação de preços" aponta a Abear.

