segunda-feira, novembro 25, 2013

A China se move

Alvaro Gribel e Valéria Maniero 
O Globo 

O desafio econômico da China é exatamente oposto ao enfrentado pelo Brasil. Aqui, trocar o modelo de crescimento do consumo para o de investimento. Lá, investir menos e gastar mais. O desafio dos chineses é enorme, mas eles têm conseguido sustentar altas taxas de crescimento ao mesmo tempo em que executam reformas. A abertura econômica deu mais alguns passos esta semana.

O ex-embaixador brasileiro na China Luiz Augusto de Castro Neves, atual presidente do Cebri, explica que o modelo chinês dá sinais de esgotamento depois da crise de 2008, que reduziu a demanda mundial por produtos do país asiático. Por isso, a China tem feito reformas, como a abertura de 15% para o capital privado em empresas estatais e a criação de mais zonas econômicas especiais. A ideia é dar mais racionalidade econômica aos projetos e diminuir as decisões políticas.

— A China continua se abrindo, lentamente, mas não é um processo simples. Haverá brigas internas fortíssimas. Abrir o capital de uma estatal é mexer na sua gestão, é reestruturar a empresa e ameaçar empregos que são indicação política. Vimos isso acontecer no Brasil, com as privatizações, e sabemos que não é fácil — disse Castro Neves.

Em 1980, a China ocupava 1% do comércio mundial. O mesmo percentual do Brasil. Hoje, representa quase 15%. Mas Castro Neves ressalta que o modelo chinês aumentou muito a desigualdade social e causou forte impacto ambiental, com a matriz energética baseada no carvão.

— A população urbana na China já é maior que a do campo, e o país passou a ter uma classe média forte. O governo terá que lidar com uma massa crítica maior e debater mais. As restrições à liberdade serão cada vez mais questionadas — explicou.

A mudança de modelo, com menor ênfase no investimento, pode ser ruim para a exportação de minério de ferro do Brasil, embora a Vale ainda continue batendo lucros recordes. Mas o país tem a vantagem de ser também um forte exportador de matérias-primas agrícolas. A urbanização chinesa fará aumentar o consumo de carnes e alimentos processados, que será bom para o agronegócio.

Comércio brasileiro é concentrado
A corrente de comércio entre Brasil e China, nosso principal parceiro, foi de US$ 63,7 bi de janeiro a setembro deste ano, com superávit de US$ 8,1 bi favorável ao Brasil. O problema, explica o pesquisador associado da Conselho Empresarial Brasil-China, Túlio Cariello, é que o comércio brasileiro está concentrado em três produtos — soja, minério de ferro e petróleo — enquanto os chineses têm uma pauta mais diversificada, com foco em produtos manufaturados.

Crise na indústria. O emprego industrial tem queda de 0,9% de janeiro a setembro deste ano. Em 2012, houve retração de 1,4% no número de vagas.